sexta-feira, 12 de maio de 2017

Houve tarde e manhã, o primeiro dia?

Literalmente, "foi tarde, foi manhã, dia um" (Gn 1:5). Assim se encerra a misteriosa descrição do momentoso dia que foi o primeiro dia da semana da criação. Já foram dadas muitas explicações diferentes para esta declaração. Ela indica claramente a duração de cada uma das sete etapas da semana da criação e é repetida mais cinco vezes neste capítulo (v. 8, 13, 19, 23, 31). Alguns já cogitaram que cada ato criador durou uma noite, do entardecer até a manhã; e outros, que cada dia começava com a manhã, embora o relato inspirado diga claramente que a tarde precedia a manhã.

Muitos eruditos têm interpretado essa expressão como um longo e indefinido período de tempo, crendo que algumas das atividades divinas dos dias seguintes, como a criação das plantas e dos animais, não poderiam ter sido realizadas dentro de um dia literal. Eles pensam ter uma justificativa para essa interpretação nas palavras de Pedro: "para o Senhor, um dia é como mil anos" (2Pe 3:8). 

Que esse texto não pode ser usado para se averiguar a extensão dos dias da criação fica óbvio, quando se lê o restante do verso: "e mil anos, como um dia". O contexto das palavras da Pedro deixa claro que ele enfatiza a independência de Deus em relação ao tempo.O Criador pode fazer em um dia a obra de mil anos, e um período de mil anos, que é um longo tempo para os que esperam que os juízos de Deus se cumpram, pode ser considerado por Ele como apenas um dia. Os Salmos 90:4 transmite a mesma ideia.

A declaração literal: "Foi tarde [com as horas sucessivas da noite], e foi manhã [com as horas sucessivas do dia], dia um" é claramente a descrição de um dia astronômico, isto é, um dia com a duração de 24 horas. É o equivalente da composição hebraica de época posterior encontrada em Daniel 8:14: "tarde-manhã", que a KJV [a Bíblia na versão inglesa] traduz como "dias" (significando aqui [especificamente nesta passagem] dias proféticos), e também da palavra grega empregada por Paulo, nuchthemeron, traduzida como "uma noite e um dia" (2Co 11:25). Assim, os hebreus, que nunca tiveram dúvidas quando ao significado dessa expressão, começavam o dia com o pôr do sol e o terminavam com o pôr do sol seguinte (Lv 23:32; Dt 16:6).

Além disso, a linguagem do quarto mandamento não deixa dúvidas quanto ao fato de a tarde e a manhã do relato da criação serem as etapas que compõem um dia na Terra. O mandamento, reportando-se em palavras inequívocas à semana da criação, declara: "Porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou" (Êx 20:11).

A tenacidade com que muitos comentaristas se apegam à ideia de que os dias da criação foram longos períodos de tempo, e mesmo milhares de anos, em grande parte encontra explicação no fato de que eles tentam fazer com que o relato da criação se harmonize  com a teoria da evolução. Geólogos e biólogos tem ensinado as pessoas a crerem que a história primitiva da Terra abrange milhões de anos, nos quais as formações geológicas foram vagarosamente tomando forma e as espécies vivas, evoluindo. 

Ao longo de suas páginas, a Bíblia contradiz a teoria da evolução. A crença numa criação divina e instantânea como resultado de palavras pronunciadas por Deus se encontram em completa oposição à teoria defendida pela maioria dos cientistas e por muitos teólogos modernos, de que o mundo, com tudo que há nele, veio à existência por meio de um vagaroso processo de evolução que durou eras incalculáveis.

Outra razão pela qual muitos comentaristas declaram que os dias da criação foram longos períodos de tempo é a rejeição do sábado. Um famoso comentário assim expressa essa ideia:  
"A duração do sétimo dia necessariamente determina a extensão dos outros seis. [...] O repouso sabático de Deus é compreendido pelos melhores intérpretes da Escritura como tendo se estendido do final da criação até este momento; portanto, a consistência exige que os seis dias anteriores sejam considerados, não como tempo de duração curta, mas indefinida" (Pulpit Commentary).

Esse tipo de raciocínio é circular. Devido ao fato de o sábado do sétimo dia, tão claramente definido nas Sagradas Escrituras como um dia de descanso que se repete semanalmente, ser rejeitado como tal, declara-se que o sétimo dia da semana da criação dura até o presente. Com base nessa explicação não bíblica, a duração de todos os outros dias da criação também é expandida. A coerente interpretação da Bíblia não concorda com esse tipo de raciocínio. As Escrituras falam claramente de sete dias de criação (Êx 20:11), e não de períodos de duração indefinida. Portanto, somos compelidos a declarar enfaticamente que o primeiro dia da criação, indicado pela expressão hebraica "foi tarde, foi manhã, dia um", consistiu de um dia de 24 horas.

(Comentário Bíblico Exegético e Expositivo Adventista do Sétimo Dia, v. 1, p. 190-192, 2011).

"E se alguém tirar alguma coisa das palavras do livro desta profecia, Deus vai retirar dessa pessoa a sua parte na árvore da Vida e na Cidade Santa, que estão descritas neste livro" (Ap 22:19 Bíblia de Jerusalém)