sexta-feira, 12 de maio de 2017

Gehard F. Hasel - Uma perspectiva adventista para o estudo da Bíblia


Nesta seção procuraremos esboçar os pontos essenciais de uma "perspectiva adventista" no estudo da Bíblia. A palavra "adventista" pode soar de modo paroquial ou sectário, mas não pretende de modo algum portar este sentido. Por "adventista" queremos dizer neste caso um modo de abordar o assunto que tem sua raiz na Bíblia, e que e típico da grande herança protestante a qual pertenciam os grandes reformadores do século dezesseis. Esta abordagem esta fundamentada na Bíblia como Palavra inspirada de Deus, enquanto que ao mesmo tempo se dirige as perguntas da mente moderna na situação da época presente.

Não será possível, naturalmente, uma abarcante apresentação dos princípios sólidos e bem fundamentados da interpretação bíblica. Explicá-los envolveria a produção de um alentado volume para o que não seria este nem o tempo e nem o lugar. Por isto mesmo procuraremos prover conceitos básicos e fundamentais sob dois títulos principais: 
  1. Fundamentos de interpretação bíblica; 
  2. Princípios e processos de interpretação da Bíblia.


1. Fundamentos de interpretação da Bíblia

Esta primeira seção trata dos fundamentos de interpretação da Escritura que são tão básicos aos princípios e processos envolvidos nos verdadeiros métodos de interpretação que temos de dedicar uma parte especialmente a ela. Vamos dividi-la em vários pontos principais relacionados com a Escritura, sua natureza, autoridade, auto-coerência, unidade, canonicidade, e assim por diante.


I. A Bíblia como palavra inspirada de Deus

Toda interpretação apropriada da Bíblia deve estar baseada no princípio de que toda Escritura e dada por inspiração de Deus mediante o Espírito Santo. Uma vez que toda a Escritura e inspirada pelo Espírito Santo, a Escritura toda, desde o Gênesis até o Apocalipse, é a Palavra de Deus, sem nenhuma diferença qualitativa na inspiração. Esta aceitação da Bíblia como a Palavra de Deus exclui graus ou níveis de inspiração. Excluí também aqueles conceitos de que somente aquilo que pertence à fé e à redenção é de inspiração divina, e exclui, ainda a pretensão de que escritos não canônicos de tradição judaica, cristã ou de qualquer outra espécie de tradição, sejam considerados como portando a mesma "função inspirada" da Bíblia ou que sejam uma adição a esta.


II. Deus como Autor da Bíblia

A singularidade da Bíblia é devida a sua origem divina e inspirada. Esta origem divina e inspirada e atestada nas afirmações de que "nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1:21), e que "toda a Escritura é inspirada por Deus" (2 Timóteo 3:16). A Escritura provém de Deus que, deste modo é o Autor da Bíblia, muito embora seja escrita em linguagem humana. Segue-se assim que a Bíblia não é o produto de tradição ou gênio humano, que não deve ser manuseada ou estudada como se fosse um livro comum, e que não deve ser interpretada a nível de linguagem humana somente.

A Bíblia apresenta uma união do divino com o humano, o último na forma de escritores inspirados que comunicaram em linguagem humana a verdade divina de modo objetivo, autorizado e confiável. Qualquer abordagem a Bíblia em termos de interpretação que procure investigá-la e interpretá-la somente a nível humano estará sendo infiel à indispensável união do divino e do humano.


III. A indivisível união do Divino e do humano na Escritura.

A Bíblia "apresenta uma união do divino com o humano" [1] como se manifesta também em Jesus Cristo que em Si combinou a divindade e a humanidade por ser Filho de Deus e Filho do homem. Como a união do divino e do humano na pessoa de Jesus Cristo é inseparável e indivisível, assim também a Bíblia é inseparável e indivisivelmente a união do divino e do humano, o que a torna a Palavra de Deus na linguagem dos seres humanos. Abordagens interpretativas, ou métodos e técnicas interpretativos que procurem tratar com a Bíblia apenas a nível humano, são infiéis a inseparável e indivisível união do divino e do humano. Toda e qualquer interpretação da Escritura tem de estar em harmonia com a união divino-humana da Palavra de Deus.


IV. A autoridade da Bíblia como autoridade de Deus.

A autoridade de Deus, de Jesus Cristo e do Espírito Santo, é a fonte da autoridade da Bíblia. A autoridade da Bíblia é assim normativa para a fé e a vida, para doutrina e proclamação, e para pensamento e investigação. A autoridade bíblica não se fundamenta na igreja, nem tampouco em qualquer agente ou esforço humano. Portanto o significado e interpretação da Bíblia não dependem de decretos ou concílios de seres humanos ou de sua opinião científica ou interpretativa, quer combinadas quer simples. A divina autoridade é inerente à Bíblia e da orientação criativa à vida e a todos os ramos do pensamento humano.


V. Velho e Novo Testamento como uma Unidade

A unidade dos dois Testamentos da Bíblia é uma realidade da Escritura que tem suas raízes na inspiração da Bíblia. A Bíblia é por inteiro a Palavra de Deus. Há uma unidade tanto dentro de cada Testamento como entre eles ambos. Conquanto haja uma variedade de linguagem, de estilo, de formas literárias, e de ênfase entre os vários autores inspirados individualmente, entre os vários relatos do mesmo acontecimento ou do mesmo tópico e entre a variedade de assuntos expostos por eles, há, não obstante, uma unidade interior todo-abarcante sem uniformidade artificial. A unidade dentro de toda variedade aponta para a harmonia da verdade que nega que o Velho Testamento seja a lei e o Novo Testamento o evangelho, ou que dentro dos livros bíblicos, ou entre ele, haja ensinos ou teologias conflitantes ou contraditórios, ou ainda, que os escritores inspirados mais recentes fizeram uso, aplicação ou interpretação errôneas das Escrituras mais antigas quando delas fizeram citações ou alusões.


VI. O cânon Bíblico em ambos os Testamentos

A Bíblia consiste em 66 livros que formam o Velho e o Novo Testamento. O Novo Testamento usa a expressão "os escritos" (Mateus 26:54; Marcos 14:49, Lucas 24:27; João 5:39, etc.) ou "a Escritura" ( João 2:22; 10:35; 20:9; 1 Pedro 2:6; 2 Pedro 1:20) para todo o cânon do Velho Testamento. Declarações de Jesus tais como "está escrito" (Mateus 4:4, 6, 10; 11:10; 21:13; 26:31; etc.) e "a Escritura não pode falhar" (João 10:35) indicam que Ele exemplificou e apoiou a fiel submissão ao Velho Testamento como um cânon inspirado. 

Os livros do Novo Testamento não se tornaram canônicos por autorização da igreja ou porque foram incluídos em lista canônica, mas esses 27 Livros do Novo Testamento foram incluídos no cânon da igreja porque eram divinamente inspirados, tinham autoridade apostólica, e foram como tal reconhecidos mediante a guia do Espírito Santo. O cânon da Bíblia é, portanto, não o produto da igreja, mas do Espírito Santo. O cânon da Bíblia não depende de um repetido testemunho de autenticidade, mas e inerentemente uma revelação divina escriturística e autoritativa. A forma canônica da Bíblia é a Palavra de Deus e, não quaisquer supostas fontes, formas ou tradições pré-canônicas. O significado da Bíblia é encontrado em sua forma canônica e não em vários estágios reconstruídos de uma suposta Historia literária pré-canônica. Uma vez que a Bíblia não faz distinção quanto a níveis canônicos e sendo que todos os livros bíblicos são de igual origem divina, escrito por meio de inspirados instrumentos humanos, não existem formas superiores ou inferiores de Escritura canônica. Os livros ou escritos bíblicos, sejam eles de maior ou de menor antiguidade, não são nem mais nem menos autorizados, ou genuínos,ou autênticos uns do que os outros. Não há distinção qualitativa ou níveis de autoridade no cânon.


VII. A Bíblia é sua própria intérprete

O famoso e, até o presente, honrado princípio da Reforma de que "as Escrituras como (sua) própria Intérprete" [2] ou "a Bíblia explica-se por si mesma" [3] tem pleno apoio bíblico (Lucas 24:27; l Coríntios  2.13; 2 Pedro 1:20). Significa isto que "a Escritura interpreta a Escritura" [4], que uma parte da Escritura interpreta a outra, tornando-se chave para outros textos menos claros. Esse procedimento envolve uma harmonia de conceitos sobre o mesmo assunto em todas as partes da Bíblia para mútua interpretação. Este processo de auto-interpretação da Bíblia tem por base a unidade da Bíblia. Se devidamente executado, o processo de Escritura interpretando Escritura não permitirá um indiscriminado agrupamento de passagens, mas relacionará uns com os outros os textos que tratam do mesmo assunto, tendo em vista o seu significado e contribuição para o assunto.

A auto-interpretacão da Bíblia não nega ou descarta as variedades de aspectos ou ênfase nos vários tópicos ou eventos, mas relaciona-os entre si, dentro da estrutura da Escritura inspirada. A auto-interpretação da Bíblia e uma salvaguarda contra a sobreposição dos pontos de vista de alguém a Escritura. Ele nega também que uma passagem da Escritura contradiz, aplica mal ou interpreta mal, outra. A interpretação da Bíblia a si mesma elucida e desdobra outras passagens sem reinterpretá-las de tal maneira que um significado estranho seja posto no intento original.


VIII. As verdades normativas da Bíblia

A Bíblia é a revelação autorizada de divinas verdades. A autoridade das verdades incorporadas na Bíblia não esta restrita tão somente a assuntos de salvação, mas qualquer verdade que a Bíblia revela é objetiva, autorizada e absoluta. Isto implica que dados do mundo da natureza corretamente interpretados não serão inconsistentes com verdades bíblicas derivadas da Escritura somente. Implica também que Gênesis 1-11 é um real registro de eventos dos começos, e  não meramente teológico ou mítico. Hipóteses científicas sobre origens da Terra, origem e história da humanidade e semelhantes não devem ser visualizadas como verdades que subvertem as verdades bíblicas ou as alterem de modo a pô-las em harmonia com as conclusões ou opiniões de hipóteses científicas. Dados extra  bíblicos de variados campos de investigações, incluindo arqueologia, geologia,antropologia, e assim por diante, se corretamente interpretados, podem ter grande valor para elucidação do que a Bíblia ensina, bem como promover correção onde a interpretação pode não ser clara em virtude de limitada informação bíblica. Mas dados extra-bíblicos e as variadas teorias ou hipóteses que o pensamento humano sobre eles constroem, jamais devem ser empregados para subverter ou derribar a verdade da Bíblia em qualquer área, inclusive as origens da criação, o fato de terem sido Adão e Eva os primeiros seres humanos criados, a queda literal da humanidade no pecado, o dilúvio, a história e todas as outras realidades pertencem a fé e a vida, e a História e a natureza.


XIX. Pré-interpretações humanas determinadas pela Bíblia

Nenhum interpretador pode despojar-se tão completamente de seu passado a ponto de ser capaz de examinar a Bíblia com absoluta neutralidade. Sustenta certo truísmo ser impossível a absoluta e total objetividade, O chamado principio da "cabeça vazia" segundo o qual o investigador se despe de toda noção e opinião preconcebidas, abordando o objeto a ser estudado em completa neutralidade, não pode ser funcional. Embora a determinação de ser o mais objetivo possível permaneça básico para todo esforço genuíno da escolasticidade, parece que de algum modo inevitável existe sempre uma preconcepção que o interpretador trás para sua investigação. Embora sejamos levados a reconhecer isto, temos de afirmar que a preconcepção do interpretador tem de derivar da própria Bíblia e permanecer sob o controle da mesma. Ele tem de estar constantemente franqueado a modificações e ampliações com base na Escritura. É alheia à Bíblia qualquer pré-interpretação que esteja vinculada a conceitos como por exemplo o naturalismo com seu universo fechado de uma urdidura de causa e efeito imanentes, ou à evolução com seus axiomas evolutivos, ou ainda ao cientismo, o humanismo, ou o relativismo. A Palavra de Deus não pode ser forçada a ajustar-se a tais conceitos estranhos a suas pré-interpretações e pressuposições.


X. A permanente iluminação do Espírito Santo

O Espírito Santo, por cujo intermédio a Escritura foi inspirada, é necessário como permanente iluminação para o interpretador da Escritura. O Espírito Santo cria no interpretador, por meio da Escritura, uma adequada pré-interpretação e a perspectiva essencial para a interpretação da Palavra de Deus. A absoluta singularidade da Bíblia, como Palavra de Deus, é o veículo pelo qual o Espírito Santo age hoje, a fim de produzir fé em seus ensinos e mensagem. O Espírito Santo jamais ensinara qualquer coisa que seja contrária ao ensino e mensagem da Bíblia, pois ela mesma é inspirada pelo Espírito Santo. Os seres humanos são incapazes de reconhecer os ensinos da Bíblia e deles apropriar-se sem a obra do Espírito Santo em suas vidas. O Espírito Santo opera na Bíblia e por meio dela, criando fé. transformando vidas, levando o conhecimento a todas as esferas de pensamento e experiência, insuflando o reconhecimento da autoridade formal e objetiva da Palavra de Deus, guiando a plenitude de todas as verdades espirituais. A permanente iluminação do Espírito Santo é essencial para a genuína interpretação da Escritura.

As resumidas afirmações dadas acima não pretendem exaurir o assunto, mas são apenas representativas em sua esfera de exposição. Elas servem como fundamentos que delineiam de maneira geral os princípios chaves. Podemos agora ir avante a fim de expor a suma dos princípios e métodos básicos.


2. Princípios e métodos de interpretação da Bíblia.

Os princípios e métodos de interpretação bíblica que damos abaixo, em resumo, procuram (l) determinar o que pretendiam dizer os escritores inspirados para seu tempo e lugar, (2) expor a plena significação, direta ou indiretamente, das palavras e mensagens dos escritores inspirados, além mesmo do que o próprio autor inspirado possa ter compreendido (I S.Pedro 1:10, 11; comp. com Daniel 8:26. 27; Zacarias 4:13) e (3) comunicá-lo adequadamente ao homem moderno nos vários contextos culturais em que ele se encontre.


I. O Texto Original e os Estudos Textuais

Os documentos originais da Bíblia não foram preservados; contudo podem ser encontrados mais de 5.500 manuscritos ou fragmentos do Novo Testamento (o que é incomum para qualquer documento antigo), e existem também numerosos manuscritos e fragmentos de manuscritos do Velho Testamento. Embora esteja evidente que houve um cuidado incomum no processo de cópia do material, há evidências de erros de escribas, a maioria involuntariamente, é certo, mas alguns intencionais.

Estudos textuais (normalmente também chamados "crítica textual") são imperativos para a reconstituição do texto original. Conquanto não haja qualquer método "estritamente prescrito de crítica textual do Velho Testamento" (B. Waltke), deposita-se grande confiança no texto massorético, datado no mais antigo pergaminho do ano 1008 A.D. A reconstrução do texto é sempre hipotética, mesmo quando empreendida com o maior cuidado. Antigas traduções têm sido consideradas como auxiliadoras nesta tarefa, mas mesmo as várias revisões do texto grego do Velho Testamento (a Septuaginta) revelam que há necessidade de ser considerado livro por livro, evitando conclusões gerais.

Na área do estudo textual do Novo Testamento o estudioso também aplicara princípios gerais construídos em critérios externos e internos. Uma vez que ainda não há qualquer método de consenso universal, o cuidado continua a ser muito importante.
A grosso modo, pode-se dizer que as variantes textuais não influem em qualquer doutrina bíblica de nenhum modo substancial. Muitas variantes textuais nem mesmo aparecem na tradução.


II. A Tradução da Bíblia nas Línguas Modernas

Entre as técnicas apropriadas para tradução, há, o que se chama tradução formal, isto é, palavra por palavra, e a tradução dinâmica, isto é, significado por significado. Temos que ter o cuidado de que no processo de tradução as demandas da comunicação cultural cruzada não distorça ou falsifique o significado bíblico do texto bíblico. Mesmo em tradução, a Bíblia continua sendo a Palavra de Deus e comunica conhecimento sobre realidade, fé e salvação, que ultrapassa qualquer fronteira temporal ou cultural. O significado da Bíblia não esta tão atado a estrutura bíblica, ou ao contexto cultural antigo, que seu significado não seja compreendido em outros contextos culturais. A Bíblia no texto das línguas originais e em tradução adequadas é para todas as pessoas, independentemente de tempo e espaço.


III. A Determinarão da Autoria, Data, Lugar e Unidade dos Livros Bíblicos.

Os vários livros da Bíblia foram escritos por homens inspirados num período de cerca de 1.500 anos. Muitos livros bíblicos ou partes deles (ex. Salmos, Provérbios) trazem explícita informação sobre a autoria em subtítulos, versos de abertura ou outros tipos de informação. Esses critérios bíblicos diretos e internos são normativos em relação à autoria, data, lugar e unidade do escrito. É inadmissível declarar como não autênticos os escritos bíblicos ou partes deles que diretamente declaram derivar de um determinado escritor. Assim a negação de autoria paulina, petrina ou joanina na leitura que indica essas autorias é inaceitável com base em explícita declaração interna. Onde há anonimidade ou falta de informação dentro de um dado documento bíblico ou grupo de escritos, o restante da Escritura terá prioridade na identificação da autoria, data, lugar e unidade do respectivo escrito ou grupo de escritos sobre qualquer antiga ou moderna tradição ou opinião de estudiosos.

Conquanto a determinação de autoria, data, lugar e unidade de cada livro da Bíblia seja muito valiosa por diferentes razões, isto não deve de modo algum obscurecer o fato de que Deus é o Autor da Bíblia.
O profeta humano, munido de sua experiência e formação foi apenas o instrumento inspirado para apresentar a verdade revelada e objetiva num modo confiável e acurado de maneira que "as declarações do homem são a Palavra de Deus" (l ME 21).


IV. O Texto Bíblico e a Questão do Contexto

Em interpretação o significado do contexto é de grande importância.

(l) Contexto da palavra. O contexto da palavra na oração pode ser chamado contexto léxico. Há um significado recíproco entre cada palavra numa oração e sua relação sintática. O significado da palavra pode ser encontrado com o auxilio de léxicos, e o relacionamento sintático pode ser tornado mais claro com o auxílio de gramáticas. Cada oração é o contexto mais próximo da palavra. As palavras encontram o seu significado na oração e em seu relacionamento uma com a outra dentro da oração e então na unidade ou parágrafo a que a oração pertence.

O inter-relacionamento da palavra com a oração, etc, não permite que um "significado original" se introduza, a menos que o contexto mesmo apóie tal "significado original". Cada palavra pode ser comparada com palavras idênticas ou relacionadas na mesma língua dentro da Bíblia (hebraico, aramaico, grego) ou fora da Bíblia em línguas cognatas. Esses estudos lingüísticos e etmológicos são altamente instrutivos e têm provido abundantes novos conhecimentos. Onde não há substituto para isto, o perigo de se ler a terminologia bíblica através das lentes de usos extra-bíblicos ou de línguas cognatas deve ser evitado. O contexto mais amplo dentro do livro e da Bíblia como um todo precisam permanecer como normativos.

(2) Contexto da ideia. Passando dos termos em suas orações as idéias, conceitos, motivos e pensamentos que expressam, temos de investigar o contexto da idéia no dado livro ou documento em estudo dentro do contexto mais amplo da Escritura. Como parte do estudo do contexto da idéia da Escritura, como expresso nas várias partes da Bíblia, em seu relacionamento com o tópico em estudo, há também lugar para o estudo da idéia em contextos fora da Bíblia nas culturas do mundo antigo, O estudioso descobrirá muitas vezes vários pontos de contato, mudanças, adaptações, oposição, ou singularidade. A idéia de "concerto", por exemplo, podia ecoar de diferentes modos na mente das pessoas antigas, dependendo da cultura e o ambiente da pessoa. Houve tempo em que muita coisa do Velho Testamento era explicado por alguns eruditos com base na cultura babilônica, ou em outros casos por meio da cultura egípcia, ugarítica, helenítica, etc. Embora muitas culturas tenham vários pontos de contato próximos ou menos próximos, não é absolutamente verídico, que a verdade e a fé bíblicas sejam apenas um reflexo ou reinterpretação de seus ambientes. A Bíblia é a revelação única e pessoal de Deus que transcende todo pensamento humano. O contexto bíblico é determinativo para o contexto do "pensamento" do que o escritor bíblico escreveu.

(3) Contexto literário. Os escritores bíblicos empregaram uma grande variedade de convenções literárias tais como prosa e poesia, com seus idiomatísmos, símiles, metáforas, personificações, quiasmas e coisas semelhantes. O contexto literário relaciona-se também com segmentos literários maiores tais como um poema, um canto fúnebre ou lamentação, uma carta, um dito, um evangelho, etc. Esses diferentes tipos de composição e estilos literários, isto é, uma vasta variedade de formas literárias, são evidentes na Escritura e foram usados sob a guia do Espírito Santo pelos escritores inspirados para comunicar verbalmente as verdades divinas. Um estudo dessas convenções literárias, se conduzido adequadamente, é um valioso instrumento de exegese. O uso de adequadas formas literárias não nega a realidade do que é narrado ou a historicidade dos acontecimentos. Assim é que fatos e verdades narrados por meio de poemas, por exemplo, não significa que sejam menos verdadeiros ou menos confiáveis do que quando narrados em prosa.

O escudo dessa variedade de formas Literárias e assim o seu contexto literário não firma o uso do método da crítica das formas empregada no estudo do Velho Testamento ou no do Novo. O desenvolvimento e uso corrente da crítica das formas, esboçado acima reconstitui os contextos sócio-culturais de materiais bíblicos e interpreta-os na base dessa reconstituição. Na crítica das formas do Velho e do Novo Testamento, pressuposições próximas do método como (1) a prioridade da poesia sobre a prosa, (2) a afirmação de que quanto mais antigo o material mais breve será ele, (3) a tendência evolutiva de que as coisas se desenvolveram das formas mais simples para as mais complexas, e (4) a demanda de consistência dentro de uma unidade literária, forçam o texto bíblico para dentro de uma cama procrústea ou de um molde alheio. Uma saudável metodologia no estudo da forma literária recusará empregar tais pressuposições metodológicas e as conclusões deles resultantes.

(4) Contexto bíblico. Temos afirmado que a Bíblia é um caso singular em que é manifestada a união do divino com o humano. A Bíblia como Palavra de Deus não pode ser interpretada como se fosse um livro qualquer. O contexto mais apropriado para a compreensão e interpretação de qualquer parte da Escritura é a Escritura como um todo. O velho Testamento é deste modo a chave para o Novo Testamento, assim como o Novo Testamento desvenda os mistérios do Velho Testamento. Isto não significa que só o Novo Testamento deve ser compreendido à luz do Velho Testamento mas que o Velho Testamento não pode ser compreendido à luz do Novo.

Alguns exegetas só desejariam mover-se do Velho Testamento para o Novo num sentido de revelação progressiva em que o Novo Testamento tenha valor superior ao Velho.
Outros gostariam de interpretar o Velho Testamento apenas por meio do Novo Testamento ou de um uso seleto do Novo Testamento no sentido de um "cânon dentro do cânon". A verdade do assunto é que o Velho e o Novo Testamento projetam luz um sobre o outro (PJ 128). O Velho Testamento e o evangelho consubstanciado e o Novo Testamento o evangelho desdobrado (PJ 128). Um é tão essencial quanto o outro (2 ME 104). Revelação progressiva no sentido de a revelação mais recente ser superior em valor ou autoridade não é bíblica, mas a revelação bíblica de Deus é progressiva no sentido de que há um constante desdobramento da verdade pelos autores inspirados mais recentes.

(5) Contexto moderno. Básico ao assunto de contexto é o reconhecimento de que o significado original do texto da Escritura determina seu significado. O significado original não deve ser alegorizado ou interpretado em virtude da pressuposição de que o contexto do leitor ou ouvinte moderno é tão diferente do contexto dos escritores inspirados do passado e seus ouvintes que não há suficiente continuidade e homogeneidade para garantir uma aplicação direta do ensino da Bíblia para a fé e a vida de hoje. A Bíblia é mais do que uma fonte de idéias cristãs, ou do que um mero livro de texto de modelos de comportamentos num antigo meio sócio-cultural, que nada provê além de diretrizes gerais que exigem drástica reinterpretação e tradução para nosso contexto sócio-cultural que se supõe ser totalmente diferente. Os elementos de continuidade entre o mundo da Bíblia e nosso mundo são muito mais significativos do que quaisquer mudanças. O quadro que a Bíblia apresenta da humanidade e sua situação não é diferente do dos seres humanos no mundo moderno. O diagnóstico dos problemas, e suas soluções, permanece válido e altamente relevante hoje.


V. O Texto Bíblico em Palavras, Orações e Unidades.

Há uma relação recíproca entre palavras, suas formas gramaticais e as relações numa oração (sintaxe). As relações entre palavras e oração são de fundamental importância para o interpretador. Na língua hebraica as relações são diferentes das que ocorrem na língua grega, e ambas diferem das línguas modernas. Um estudo adequado de palavras e orações exige um estudo minucioso das línguas bíblicas.

As línguas antigas do Oriente Próximo (línguas semíticas tanto do noroeste como do leste) têm contribuído e espera-se que continuem a contribuir grandemente para melhor compreensão das palavras bíblicas. As palavras bíblicas, entretanto, expressam o "novo conteúdo" da revelação divina e assim não se pode esperar que comuniquem meros padrões de pensamento do mundo antigo. O contexto bíblico e a verdade bíblica permanecem normativos para o uso de palavras em suas orações e unidades.

Entende-se que uma unidade contenha uma série de orações e trate de uma dada ideia ou de um aspecto de uma ideia maior. A compreensão de uma unidade tem um efeito espiralante no sentido da compreensão das orações de que é composta, bem como do todo maior ao qual ela pertence.

A classificação de unidades é melhor conseguida através de critérios internos. O texto bíblico na forma canônica em que é apresentado é normativo. As convenções literárias usadas pelos escritores bíblicos no contexto das Escrituras formam a. base para classificação de unidades literárias em prosa histórica, narrativa, sonho, visão, provérbio, carta, evangelho, parábola, hino,lei, oração sermão e assim por diante.

A interpretação de unidades envolve um estudo e apreciação de (1) antecedentes bíblicos e extra bíblicos históricos, culturais e religiosos, (2) a organização e data da unidade dentro do livro bíblico, se identificável, (3) a forma literária e contexto, (4) as palavras e orações e (5) os motivos teológicos e a mensagem total com o contexto da Escritura como um todo.


VI. Os Livros Bíblicos e Suas Mensagens

Os livros bíblicos são compostos de unidades com seus componentes menores de orações e palavras. A compreensão de livros inteiros da Bíblia depende da interpretação das unidades de que são constituídos. O livro de Isaías pode ser compreendido em sua unidade como é determinado pelos critérios bíblicos, e suas várias unidades (capítulos ou partes deles) tem sido investigadas. O significado cumulativo de todas as suas partes forma a mensagem total do livro de Isaías. O evangelho de Mateus, do mesmo modo, será  estudado em sua inteireza na busca de sua mensagem.

O que determina o significado e as mensagens dos livros bíblicos não é a suposta pré-história reconstituída, oral ou escrita, do texto canônico e seu pressuposto processo de desenvolvimento a seu normativo estágio ou estágios canônicos como e de interesse chave no método crítico-histórico, mas antes a mensagem normativa em sua forma canônica que chega a nós no texto bíblico. A compreensão de livros bíblicos e suas mensagens deriva de sua forma, bíblica e canônica dentro do contexto bíblico mais amplo.


VII. A Teologia da Bíblia em Sua Inteireza

O alvo final de toda interpretação bíblica não é apenas penetrar no significado de suas palavras, orações, unidades e livros. A meta final é descobrir as verdades totais e as mensagens de toda a Escritura. O intento não é apenas compreender o que os autores inspirados individualmente compreenderam eles mesmos, porque foi revelado aos profetas que "não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do Céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar" I. S. Pedro 1:11, 12, mas também a divina intenção do pleno conteúdo das palavras, Pedro indica que os profetas do passado "ansiaram por compreender o pleno significado de suas mensagens (PR 731). "Os profetas não compreendiam plenamente a significação das revelações a eles confiados" (GC 343, ed. 1971). O "pleno significado" da revelação que desvenda as mais antigas palavras dos profetas em revelação dada por Deus por intermédio do Espírito Santo num tempo posterior. A inspiração é um guia seguro para o pleno sentido de qualquer parte da Escritura. O pleno sentido, por exemplo, manifesta-se numa palavra profética mais antiga que se declara mais tarde ser cumprida de modo particular, como Isaías 7: 14 em S. Mateus 1:22. 23 ou Salmo 2:7 em Hebreus 1:5 (comp. com Atos 13:33; Romanos 8:29), ou Oséias 11:1 em S. Mateus 2:15, etc. Há continuidade e homogeneidade entre a predição messiânica de Isaías 7:14 e seu cumprimento. Embora o significado de 'almah seja mais restrito na tradução "virgem", ela não é mal aplicada, mal interpretada, nem reflete um significado errôneo. Oséias 11:1, "do Egito chamei o Meu Filho," foi aplicado por Oséias a nação como um todo, enquanto que em S. Mateus 2:3,5 o cumprimento tipológico é afirmado com toda a nação personalizada na pessoa de Jesus Cristo.

Nenhum novo significado é aplicado à profecia mais antiga, mas através da inspiração o "pleno sentido" ou significado maior é desdobrado sem qualquer errônea aplicação ou reinterpretação onde um significado estranho é superimposto sobre o significado original. O genuíno e normativo "pleno sentido" da Escritura como objetivado por Deus é seguramente desvelado através da divina inspiração mediante uma revelação posterior. Este procedimento salvaguarda a Escritura de interpretação subjetiva e particular, e assegura a plena interpretação da Escritura baseada no princípio da analogia da fé.

A teologia da Bíblia é formada de mensagens ou temas em cada livro bíblico ou grupo de escritos que derivam do mesmo escritor bíblico. Deste modo cada livro ou grupo de escritos faz sua própria especial contribuição e assim revela as riquezas, variedades, e diversidades. Permite-se assim que cada pensamento da Escritura emirja e seja ouvido. Sobre o princípio estas teologias de "livro por livro e grupo por grupo", provêem a oportunidade de reconhecer a variedade bem como a unidade do auto desvendamento divino revelando a vontade de Deus sempre a desenrolar-se e o ampliamento dos vários temas e tópicos. Uma vez que os vários temas e tópicos da Escritura tenham emergido em seu contexto individual dentro dos respectivos livros ou grupos de escritos, cada tema ou tópico deve então ser estudado em sua totalidade na Escritura em ordem cronológica, de modo que as várias facetas em sua plenitude, variedade e unidade, possam ser vistas. Em última análise a Bíblia tem apenas um evangelho e apenas uma mensagem. Diferentes escritores inspirados variarão em suas expressões conforme as respectivas circunstâncias e propósitos, mas há acordo sobre os pontos básicos das verdades escriturísticas em sua plena riqueza. Há apenas "um só Senhor, uma só fé..." Efésios 4:5