terça-feira, 19 de maio de 2015

John M. Fowler - A parábola do filho perdido

Aclamada na História como a mais bela narrativa contada sobre a natureza perdoadora do amor, a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32), narrada apenas por Lucas, pode, com razão, ser chamada de a parábola do pai amoroso e de dois filhos perdidos. Um filho preferiu a vida desordenada numa terra distante em vez do amor do pai. O outro filho escolheu ficar em casa, mas não conhecia plenamente o amor do pai nem o significado de ter um irmão. A parábola pode ser estudada em sete partes, sendo que quatro delas tratam do pródigo, duas do pai e uma do irmão mais velho.

1. “Dá-me” (Lc 15:12). 

A decisão do filho mais novo de requerer do pai sua parte na propriedade não foi uma atitude repentina, impulsiva. Frequentemente, o pecado ocorre após um longo tempo de concentração da mente em prioridades errôneas. O filho mais novo deve ter ouvido amigos falarem sobre o brilho e o glamour de terras distantes. A vida no lar era muito rígida. Ali havia amor, mas o amor impunha limites; a terra distante lhe oferecia uma vida sem restrições. O pai era demasiadamente protetor, e seu amor cerceava muito. O filho desejava liberdade e, na busca pela liberdade irrestrita estava a semente da rebelião.

2. “Por que eu?” (Lc 15:13-16). 

O filho pegou toda a sua parte em dinheiro e partiu para uma “terra distante”. A terra distante é um lugar longe da casa do pai. Os olhos solícitos do amor, a cerca protetora da lei e a graça, sempre presente, a envolver, são estranhos à terra distante. A terra distante é de vida dissoluta (Lc 15:13). A palavra grega traduzida como “dissolutamente” (asotos) aparece outras três vezes no Novo Testamento como substantivo, traduzida como “dissolução” relacionada à embriaguez (Ef 5:18), “dissolução” associada à rebelião (Tt 1:6) e como “devassidão”, que inclui libertinagem, sensualidade, bebedeiras, orgias e farras, e idolatria repugnante (1Pe 4:3, 4). Esses prazeres da vida imoral acabaram com a saúde e com a riqueza do filho, e logo ele ficou sem dinheiro, sem amigos e sem comida. Sua vida brilhante terminou na sarjeta. Sem comida, ao ponto de viver em perpétua penúria, ele achou emprego para cuidar de porcos, um destino cruel para um judeu.

3. “Faze-me” (Lc 15:17-19, ARC). 

Mas até o pródigo ainda é filho, e tem o poder de escolher dar meia-volta. Assim, o filho, “caindo em si”, lembrou-se de um lugar chamado lar, de uma pessoa conhecida como pai, de um laço de relacionamento chamado amor. Ele voltou a pé para casa, com um discurso preparado, para suplicar ao pai: “Faze-me”. Isto é, faça de mim o que o senhor quiser, mas deixe-me estar diante de seus olhos vigilantes, dentro do cuidado de seu amor. Que melhor lar existe do que o coração do pai?

4. A volta para casa (Lc 15:17-20) foi uma viagem de arrependimento. 

A viagem começou quando ele caiu em si. O reconhecimento de onde ele estava, em comparação com o que era o lar do pai, o levou a decidir: “Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai.” O filho pródigo voltou para casa com um discurso de quatro partes que define o verdadeiro significado do arrependimento.
  1. Em primeiro lugar, há um reconhecimento do pai como “meu pai” (v. 18). O filho pródigo então precisa apoiar-se e confiar no amor e no perdão de seu pai, assim como precisamos aprender a confiar no amor e no perdão de nosso Pai celestial.
  2. Em segundo lugar, há confissão: o que o pródigo fez não foi um erro de discernimento, mas um pecado contra Deus e o pai (v. 18).
  3. Em terceiro lugar, há contrição: “Já não sou digno” (v. 19). O reconhecimento da própria indignidade, em contraste com a dignidade de Deus, é essencial para que o verdadeiro arrependimento ocorra.
  4. Em quarto lugar, há petição: “Faze-me” (v. 19, ARC). O alvo do arrependimento é submissão à vontade de Deus, qualquer que seja ela. O filho voltou ao lar.

5. O pai expectante (Lc 15:20, 21). 

A espera e a vigília, a dor e a esperança, começaram no momento em que o pródigo pôs os pés fora de casa. A espera terminou quando o pai o viu “ainda longe”, e então, “compadecido dele, correndo, o abraçou e beijou” (v. 20). Nenhuma outra imagem captura o caráter de Deus como essa de um pai expectante.

6. A família regozijante (Lc 15:22-25). 

O pai abraçou o filho, vestiu-o com uma nova roupa, colocou-lhe um anel no dedo e sapatos nos pés, e mandou dar uma festa. A família estava comemorando. Se sair de casa foi a morte, a volta foi uma ressurreição e, como tal, digna de ser comemorada. O filho era, de fato, um pródigo, mas, apesar disso, um filho, e por todo filho arrependido há alegria no Céu (v. 7).

7. O filho mais velho (Lc 15:25-32). 

O filho mais novo estava perdido quando saiu de casa para ir a uma terra distante; o filho mais velho estava perdido porque, embora estivesse fisicamente em casa, seu coração estava numa terra distante. Um coração assim é irado (v. 28), queixoso, cheio de justiça própria (v. 29), e se recusa a reconhecer um irmão. Em vez disso, reconhece apenas “esse teu filho”, um desperdiçador sem caráter (v. 30). A atitude do filho mais velho para com o pai é a mesma dos fariseus que acusaram Jesus: “Este recebe pecadores e come com eles” (v. 2).

A palavra final do pai para o filho mais velho reflete a atitude do Céu para com todos os pecadores arrependidos: “Era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (v. 32).

John M. Fowler. Lição da Escola Sabatina: O evangelho de Lucas. Abril, maio e junho, 2015.