domingo, 15 de março de 2015

Mateus 19:16-17 ensina que somos salvos através da obediência aos mandamentos de Deus?

"E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentosE ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades." (Mateus 19:16-22)

A pergunta "que farei eu de bom?" reflete o típico conceito farisaico de justiça pelas obras como passaporte para a vida eterna. O jovem rico tinha cumprido conscienciosamente todos os requisitos da lei, pelo menos de maneira formal, e também todos aqueles impostos  pelos rabinos, mas estava consciente de que algo faltava em sua vida. Ele admirava Jesus e pensava seriamente em se tornar um de Seus discípulos.

A maneira pela qual o jovem se dirigiu a Jesus era bastante incomum. Basta observar a maneira que Nicodemos se dirigiu a Cristo (João 3:2). Não parece haver nenhum registro na literatura rabínica em que os rabinos tenham sido tratados como "bons". Em contraste, na Mishnah, o próprio Deus é mencionado como "o que é bom e concede o bem" (Berakoth, 9.2, ed. Soncino, Talmude, p. 327). 

A situação do jovem na vida e seu ofício de confiança do público indicam que ele não chamou Jesus de "bom Mestre" por ignorância ou descuido. Era óbvio que ele tinha um motivo para fazê-lo, e Jesus tentou extrair dele uma declaração pública desse motivo. A explicação de Jesus: "Bom, só existe um" procurava ajudar o jovem a perceber claramente a importância de sua saudação. Jesus reconheceu a sinceridade e o discernimento do rapaz e pensou em fortalecer sua fé, recebendo dele uma declaração ainda mais clara.

A suprema bondade é uma característica de Deus, unicamente (Êxodo 34:6; Salmos 23:6, Romanos 2:4). Jesus não repudiou Sua divindade, como poderia parecer à primeira vista, mas, sim, esclareceu e enfatizou o significado completo da declaração do moço.

Quando Jesus disse "entrar na vida" estava claramente se referindo a "entrar no reino dos Céus" (Mateus 5:20). Tendo em vista o fato de que Jesus inclui tanto esta vida como a vida por vir em suas observações sobre as recompensas do discipulado (Mateus 19:29; Marcos 10:30; Lucas 18:30), pode ser apropriado concluir que tanto o reino da graça como o reino da glória estão incluídos aqui.

A palavra traduzida por "mandamentos" (verso 17), no grego é entolai e significa literalmente "preceitos", "ordens" ou "mandamentos". Os entolai são os requisitos específicos, individuais ou mandamentos, impostos aos homens, pela "lei" (do grego, nomos). É da vontade de Deus que as pessoas reflitam Seu caráter, o que pode ser resumido em uma palavra: "amor" (1 João 4:7-12). Para refletir o caráter, ou o "amor" de Deus, devemos amá-Lo supremamente e ao nosso próximo como a nós mesmos. Se perguntamos como devemos expressar nosso amor para com Deus e os semelhantes, Deus nos dá a resposta nos dez mandamentos (Êxodo 20:3-17), que Cristo explicou e exaltou (Isaías 40:21) no Sermão do Monte (Mateus 5:17-48).

Todas as leis civis de Moisés no Antigo Testamento, e a instruções de Cristo e dos apóstolos no Novo Testamento esclarecem as exigências divinas estabelecidas nos dez mandamentos e as aplicam aos problemas práticos da vida diária. O jovem professava amar a Deus, mas o verdadeiro teste desse amor, disse Jesus, seria encontrado em seu trato com os semelhantes (1 João 4:20). "Se Me amais", diz Jesus, "guardareis os Meus mandamentos" (João 14:15).

"Quais", foi a pergunta do jovem rico. Em resposta a essa pergunta, Jesus citou especificamente vários dos dez mandamentos, tratando dos relacionamentos com o semelhante. Sem dúvida, aos olhos dos homens, o jovem rico era honesto, mas aos olhos de Deus, que lê o coração, ele não tinha de fato em mente os interesses de seus semelhantes.

O mandamento mencionado por Jesus "amarás o teu próximo como a ti mesmo" não faz parte do decálogo, mas resume todos os mandamentos que Jesus havia acabado de mencionar. Embora o jovem ainda não percebesse, esses preceitos de conduta iam ao cerne de seu problema. Ele não amava tanto os outros quanto a si mesmo. No entanto, ele sentia que tinha praticado "tudo isso". Ele tinha observado a letra da lei, mas não o seu espírito, e considerava que vivia em harmonia com seus princípios. Jesus tentou abrir os olhos do rapaz para o fato de que os princípios da lei devem ser aplicados conscienciosamente a todas as relações práticas da vida. 

Fica evidente pelas palavras do jovem rico que ele não estava consciente de qualquer imperfeição de sua parte com relação à obediência aos mandamentos de Deus. Quando o jovem rico pergunta "Que me falta ainda?", percebe-se nele excesso de confiança de que havia apenas um passo entre ele e a perfeição. Mas, embora tivesse obedecido diligentemente a letra da lei, ele ainda sentia que isso não era o suficiente. Ele sentia que faltava algo, mas ele sinceramente não sabia o que era. Sua vida tinha sido de pureza, honestidade e veracidade. Mas sua atitude para com os semelhantes tinha sido essencialmente negativa: ele não havia roubado seus bens, não tinha dado falso testemunho contra eles, não tinha tirado sua esposa ou sua vida. 

É verdade que a letra da lei é negativa na forma, mas seu espírito pede ação positiva. Não é suficiente evitar nutrir ódio ou ferir nossos semelhantes: o evangelho nos convida a amá-los e ajudá-los como amamos a nós mesmos. Esse jovem não tinha o amor de Deus no coração, sem o qual a observância de todas essas coisas não tinham nenhum valor real aos olhos de Deus.

Quando Jesus disse: "Se queres ser perfeito" estava reconhecendo que o jovem realmente era sincero e sabia o que estava envolvido na pergunta: "Que me falta ainda?". A perfeição tinha sido o ideal do moço. Mas, como Paulo salienta, a perfeição não pode ser alcançada  pelas obras (Gálatas 2:21; Hebreus 7:11). Se, portanto, o jovem queria atingir a perfeição, ele não devia esperar obtê-la pela realização de obras meritórias. Ele devia passar por uma completa mudança de coração e vida. Sua mente devia ser transformada, seus objetivos, mudados.

No caráter do jovem rico que parecia amável aos olhos dos homens, Deus enxergava o egoísmo. A menos que a influência maligna do egoísmo fosse removida, o jovem rico não poderia alcançar nenhum progresso rumo à perfeição. A doença pode variar de pessoa a pessoa, e o remédio pode, portanto, variar também. Quando Pedro, André, Tiago e João foram chamados para seguir o Mestre, Ele não lhes pediu que vendessem seus barcos e equipamentos de pesca, pelo motivo de que essas coisas não eram um obstáculo que eles O seguissem. No entanto, quando chamados, "deixaram tudo" a fim de poderem seguir o Mestre (Lucas 5:11).

Aquilo que a pessoa ama mais do que a Cristo torna-a indigna de Cristo. Até mesmo as mais importantes responsabilidades terrenas estão em segundo lugar na tarefa de seguir a Cristo no caminho do discipulado (Lucas 9:61-62). Paulo considerou tudo como "perda", a fim de "ganhar a Cristo" (Filipenses 3:7-10). Para garantir a posse do tesouro celestial ou para comprar a pérola de grande valor (Mateus 13:44-46), a pessoa deve estar pronta para vender "tudo o que tem". Mas isso, o jovem rico não estava disposto a fazer. Diante dele estava sua cruz, mas ele se recusou a levá-la.

Jesus disse: "vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no Céu". Aqui o Mestre apresentou ao rapaz a escolha entre o tesouro terrestre e o celestial. Mas o jovem  queria os dois e, quando descobriu que não poderia ter os dois, "retirou-se triste". A dolorosa descoberta de que não poderia servir a Deus e a Mamom (Mateus 6:24) foi demais para ele. 

Literalmente, pesaroso ou ofendido o jovem rico se retirou da presença do Salvador. Seu desapontamento foi grande quando percebeu o sacrifício exigido. A ansiosa alegria com a qual ele havia corrido até Jesus se transformou em tristeza e escuridão. O preço da "vida eterna" que o jovem tinha ido buscar, era maior do que ele estava disposto a pagar.

As posses do jovem rico constituíam a coisa mais importante em sua vida. Eram seu ídolo e, nesse relicário, ele escolheu depositar a adoração e a devoção de seu coração. Foi para libertá-lo das garras do deus da riqueza que Jesus propôs que ele vendesse tudo o que tinha. Essa era a única esperança de alcançar o Céu. Ele tinha grandes posses, mas, sem sabedoria celestial para administrá-las corretamente, ele descobriria que eram mais uma maldição do que uma benção. Posteriormente, ele perderia até mesmo o que tinha (Mateus 25:28-30).

(Texto ligeiramente modificado do Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 5, p. 483-487)


Ellen G. White, escritora cristã e um dos fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia esclarece que:
"Nossa aceitação por Deus só é segura por meio de Seu Filho amado, e as boas obras são apenas o resultado da atuação de Seu amor que perdoa o pecado. Não constituem um crédito para nós, e nada nos é atribuído por nossas boas obras que possamos usar para reivindicar uma parte na salvação de nossa alma. A salvação é o dom gratuito de Deus para o crente, que lhe é concedido unicamente por amor a Cristo. A alma perturbada pode encontrar paz pela fé em Cristo, e sua paz será proporcional a sua fé e confiança. Não pode apresentar suas boas obras como argumento para a salvação de sua alma." (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 199)