quinta-feira, 1 de maio de 2014

Cristo e o sábado

"O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado; de sorte que o Filho do homem é Senhor também do sábado" (Mc 2:27, 28).

A grande maioria das denominações cristãs observam o domingo como dia de "descanso" e adoração (embora a grande maioria dos guardadores do domingo realmente não descansem nesse dia). A "observância" do domingo é tão comum entre os cristãos modernos, que muitos acreditam que esse dia seja o "sábado cristão".

Isso não foi sempre assim. Ao contrário, como uma continuação da fé israelita, o cristianismo não descartou todos os símbolos de sua religião-mãe, incluindo o sábado, o sétimo dia. Durante algum tempo, a única Bíblia que os primeiros cristãos tinham para guiá-los era o Antigo Testamento. Não é de admirar que a questão de um dia de adoração alternativo não fosse introduzida no cristianismo até mais de um século depois de Cristo ter subido ao Céu. Além disso, foi somente no século IV, com o Édito de Constantino, que a observância do domingo se tornou a política da igreja dominante. Infelizmente, mesmo depois da Reforma Protestante, quase todo o cristianismo aderiu à guarda do domingo, apesar do ensino bíblico de que o sétimo dia continua sendo o verdadeiro sábado.


Sábado judaico? (Êx 20:8-11)

Embora muitos se refiram ao sétimo dia como o "sábado judaico", a Bíblia revela que o sábado precede os judeus em muitos séculos. Suas raízes remontam à própria criação.

O texto de Gênesis 2:1-3 declara que, depois que Deus havia concluído Seus atos de criação em seis dias, Ele descansou no sétimo dia e, em seguida, "abençoou Deus o sétimo dia e o santificou" (NVI). Isso mostra claramente a posição elevada do sábado na criação de Deus. Além da bênção, o sábado também foi "santificado". Em outras palavras, Deus aplicou algumas das Suas qualidades a esse monumento no tempo.

A diferença mais notável entre os dois textos sobre o mandamento do sábado (Êxodo 20:8-11 e Deuteronômio 5:12-15) é a razão para a observância desse dia. Êxodo faz uma referência direta a Gênesis 2:3, ao realçar o fato de que Deus "abençoou" e "santificou" o dia de sábado. Por outro lado, Deuteronômio 5:15 aponta para o livramento de Israel da escravidão no Egito como sendo uma razão para a guarda do sábado. Com base no texto de Deuteronômio, muitos acreditam que o sábado seja apenas para os judeus. No entanto, esse argumento ignora completamente o fato de que o texto de Êxodo aponta para a criação, quando Deus estabeleceu o sábado para toda a humanidade.

Além disso, a referência de Deuteronômio 5:15 à libertação do Egito é um símbolo da salvação que temos em Cristo. Por isso, o sábado é um símbolo não apenas da criação, mas também da redenção; dois temas interligados na Bíblia (Hb 1:1-3; Cl 1:13-20; Jo 1:1-14). Unicamente pelo fato de Jesus ser nosso Criador, Ele pode também ser nosso Redentor, e o sábado é o símbolo de Sua obra nesses dois aspectos.


Tempo para descanso e adoração (Lc 4:16)

De acordo com Colossenses 1:16 e Hebreus 1:2, o Cristo pré-encarnado esteve diretamente envolvido no processo da criação. Esses textos declaram que todas as coisas criadas vieram à existência por meio dEle. Além disso, Paulo declarou que Cristo participou da criação das coisas "invisíveis" (Cl 1:16, 17), o que, evidentemente, inclui o sábado. Embora Cristo tenha sido uma figura central no processo de criação, quando Se tornou humano, Ele Se sujeitou aos mandamentos de Seu Pai (Jo 15:10). Como as lições anteriores mostraram, Jesus Se opôs a certas tradições e aproveitava todas as oportunidades para corrigir o comportamento religioso que não estivesse fundamentado na vontade de Deus. Se Jesus quisesse abolir o mandamento do sábado, Ele teve muitas oportunidades para fazer exatamente isso.

A maioria dos textos sobre o sábado no Antigo Testamento fala do sábado como dia de descanso. A compreensão de "descanso" em muitas línguas modernas pode levar alguns a acreditar que devemos passar as horas do sábado dormindo e relaxando. Embora possamos fazer isso em algum momento no sábado, o verdadeiro significado de descanso é "cessação", "interrupção" ou "pausa". O sábado é o dia em que podemos fazer uma pausa na rotina dos primeiros seis dias e desfrutar tempo especial com o Criador.

Na época de Cristo, os judeus realizavam um culto de adoração a Deus a cada sábado (Lc 4:16). Os que viviam em Jerusalém participavam dos cultos especiais de oração no templo, onde a liturgia do sábado era diferente da que ocorria nos outros dias da semana. Judeus que viviam em outras partes do mundo desenvolveram a sinagoga como um lugar de encontro social e adoração. Aos sábados, desde que um mínimo de dez homens estivessem presentes (um minyan [número mínimo]), um culto de adoração poderia acontecer.

O que os seguintes textos nos informam sobre a guarda do sábado entre os primeiros cristãos? O que isso nos diz sobre a afirmação de que o sábado foi mudado para o domingo em honra à ressurreição? At 13:14, 42, 44; 16:13; 17:2; 18:4; Hb 4:9

Levando em conta suas raízes judaicas, era natural que os primeiros cristãos adorassem no dia prescrito no Antigo Testamento. No entanto, quase vinte anos após a ascensão de Jesus, ainda era "costume" de Paulo frequentar uma sinagoga aos sábados (At 17:2). Assim, nenhuma evidência bíblica mostra que os primeiros cristãos guardassem o domingo em lugar do sábado.


Tempo de alegria (Mc 2:27, 28)

Muitos que afirmam guardar o sábado nem sempre entendem o que implica a observância desse dia. Como faziam alguns dos fariseus no tempo de Jesus, as pessoas ainda hoje têm aprisionado o sábado atrás dos muros rígidos das normas e regulamentos (enquanto outros quase o transformaram em um dia igual a qualquer outro). O sábado deve ser ocasião de alegria, não um fardo, mas ainda assim é um dia para ser santificado.

Durante o tempo em que Jesus esteve na Terra, alguns dos líderes religiosos haviam envolvido o mandamento do sábado com 39 outros mandamentos. Eles argumentavam que, se as pessoas guardassem essas 39 leis, o sábado seria perfeitamente observado. Como resultado dessa bem intencionada legislação, o sábado, que foi planejado para ser deleitoso, de fato, tornou-se um jugo para muitos.

Quando Jesus e Seus discípulos passaram por um campo em dia de sábado, os discípulos decidiram satisfazer a fome colhendo grãos. Embora o campo não pertencesse a eles, essa ação era permitida pela lei de Moisés (Dt 23:25), ainda que os fariseus interpretassem isso como transgressão de outra lei mosaica que proibia arar e colher no sábado (Êx 34:21). Aparentemente, Jesus não participou do alimento. No entanto, Ele tomou tempo para defender a ação dos discípulos. Jesus lembrou aos fariseus que o próprio Davi e seus homens, quando estavam com fome, comeram o pão do santuário, o que era "proibido".

Em Marcos 2:27, 28, Jesus disse que o sábado foi feito para benefício do ser humano, não o inverso. Em outras palavras, o sábado não foi feito a fim de ser adorado, mas para oferecer oportunidades de adoração. Como dom de Deus para todos os seres humanos, o sábado não foi feito para oprimir, mas afim de proporcionar alívio e libertação. É realmente uma forma de experimentar nosso descanso e liberdade em Cristo.


Tempo de cura (Lc 13:16)

Quando Deus criou o mundo, declarou que tudo era "muito bom" (Gn 1:31), perfeito em todos os sentidos. No entanto, com a entrada do pecado, a criação foi corrompida com o mal, um impacto percebido em toda parte. Os seres humanos, embora criados à imagem de Deus, se tornaram sujeitos à doença, deterioração e morte. Costumamos dizer que a morte faz parte da vida. No entanto, a morte é a negação da vida, não parte dela. Jamais houve a intenção de que experimentássemos a morte.

Tendo em conta o plano original de Deus para a humanidade, não é nenhuma surpresa que alguns dos mais impressionantes milagres de cura de Jesus tenham ocorrido no sábado. Recapitule as histórias de cura no sábado em Marcos 3:1-6; Lucas 13:10-17; João 5:1-9; 9:1-14. Que lições esses milagres nos ensinam sobre o verdadeiro propósito do sábado?

Cada um dos milagres de cura no sábado é espetacular e serve para demonstrar o verdadeiro significado desse dia. Antes de Jesus curar o homem da mão atrofiada (Mc 3:1-6), fez uma pergunta retórica: "É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?" (Mc 3:4). Se uma pessoa tem oportunidade de aliviar o sofrimento no dia da libertação, por que não deveria fazê-lo? Na verdade, a cura da mulher encurvada demonstra poderosamente o propósito libertador do sábado (Lc 13:10-17). Quando criticado pela cura, Jesus perguntou: "Então, esta mulher, uma filha de Abraão a quem Satanás mantinha presa por dezoito longos anos, não deveria no dia de sábado ser libertada daquilo que a prendia?" (Lc 13:16, NVI).

O tema da libertação também está presente nos relatos da cura, junto ao tanque de Betesda, do homem que tinha estado doente durante 38 anos (Jo 5:1-9), e da cura do cego de nascença (Jo 9:1-14). Em resposta à acusação dos fariseus de que Jesus transgredia o sábado com Seus milagres de cura, Ele declarou: "Meu Pai continua trabalhando até hoje, e Eu também estou trabalhando" (Jo 5:17, NVI). Se Deus não aprovasse a cura, ela não teria acontecido. Quando se trata de aliviar a miséria humana, Deus não descansa.


Uma nova criação

O sábado não somente nos lembra da capacidade criadora de Deus, mas aponta para Suas promessas de restauração. Na realidade, a cada cura de uma pessoa no sábado, a promessa de restauração eterna era confirmada. De modo único, o sábado proporciona uma visão que remonta aos primórdios da história da Terra e se estende para o destino final da humanidade. Por isso, podemos dizer que o sábado aponta tanto para a criação quanto para a redenção.

Deus criou este mundo uma vez. Mas, devido ao pecado, Sua criação foi pervertida. No entanto, essa perversão não durará para sempre. Um elemento-chave do plano de salvação é a restauração, não apenas da Terra, mas também das pessoas feitas à Sua imagem, as quais receberão novamente essa imagem e viverão na Nova Terra. Este será o aspecto mais importante da restauração. O mesmo Deus que no princípio criou a Terra, feito que celebramos a cada sétimo dia, recriará a Terra. Medite neste fato: É tão importante lembrar a criação que somos orientados a fazer isso de uma forma especial, a cada semana.

O sábado "declara que Aquele que criou todas as coisas no Céu e na Terra, e por quem todas as coisas se mantêm unidas, é a cabeça da igreja, e que por Seu poder somos reconciliados com Deus. [...] o sábado é um sinal do poder de Cristo para nos fazer santos. E é dado a todos quantos Cristo santifica. Como sinal de Seu poder santificador, o sábado é dado a todos quantos, por meio de Cristo, se tornam parte do Israel de Deus" (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 288).


Estudo adicional

"Desde o início do grande conflito no Céu, tem sido o intento de Satanás subverter a lei de Deus. Foi para realizar isto que ele entrou em rebelião contra o Criador; e, embora fosse expulso do Céu, continuou a mesma luta na Terra. Enganar os homens, levando-os assim a transgredir a lei de Deus, é o objetivo que perseverantemente ele tem procurado atingir. Quer seja isto alcançado pondo de parte toda a lei, quer rejeitando um de seus preceitos, o resultado será finalmente o mesmo. Aquele que tropeça "em um só ponto" manifesta desprezo pela lei toda; sua influência e exemplo estão do lado da transgressão; torna-se "culpado de todos" (Tg 2:10; Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 582).

Lição da Escola Sabatina: Cristo e Sua lei. Lição n.° 5 - Cristo e o sábado (abril, maio e junho, 2014).