sábado, 26 de abril de 2014

Fernando L. Canale - A Divindade no Novo Testamento: Deus, o Pai

B. DEUS, O PAI

Se em Cristo "habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade" (Cl 2:9), o que dizer do Pai? Ele é Deus? Qual sua relação com Deus Filho?




I. A paternidade de Deus no Antigo Testamento

A ideia de Deus como Pai não é de todo alheia ao Antigo Testamento. Quando Deus é chamado de Pai no Antigo Testamento, está-se enfatizando o terno cuidado que Ele dispensa a Seu povo escolhido. No deserto, Deus levou Israel, "como um homem leva a seu filho" (Dt 1:31). Moisés chamou a atenção de Israel para o amoroso e providencial cuidado de Deus quando perguntou: "Não é Ele teu Pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?" (Dt 32:6). Como um pai, Deus Se compadece de Seus filhos (Sl 103:13) e os disciplina (Pv 3:12). O próprio Deus  revela Seu envolvimento pessoal e profundo Se dirigindo a Israel como "Meu filho" (Os 11:1, 8). O povo, por sua vez, reconhecia Yahweh como Pai (Is 63:16; 64:8; Ml 2:10). Diz-se que Yahweh é pai do rei (2Sm 7:14; Sl 2:7), ressaltando-se assim a íntima relação entre Deus - fonte da força, sabedoria e autoridade - e o rei, Seu representante.

Ainda que encontremos no Antigo Testamento vislumbres da natureza plural do único Deus, a presença de pessoas específicas não é óbvia. No Antigo Testamento, portanto, o termo Pai não é utilizado para indicar uma pessoa da Trindade divina. Tal emprego distintivo é típico da revelação do Novo Testamento em Cristo.


II. O Deus de Jesus Cristo

Jesus de Nazaré, em quem habita "toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9) apresentou Deus como Seu Pai. Ao orar, dirigia-Se a Deus como "Meu Pai" (Mt 26:39, 42; Lc 10:22) ou simplesmente "Pai" (Mc 14:36; Lc 10:21; Jo 11:41). No discurso sobre o pão da vida, chamou Deus de Pai (Jo 6:27). O Novo Testamento testifica que Deus é o Pai de Jesus Cristo. Paulo se referiu a Deus como "Pai de nosso Senhor Jesus Cristo" (Cl 1:3; Ef 1:17); Jesus, Deus encarnado, usou a palavra "Pai" ao se dirigir a Deus. Nesse sentido, a imagem de pai-filho revela os aspectos pessoais e relacionais da pluralidade divina do Deus único.


III. O envio do Filho

Jesus ensinou que o Pai O havia enviado ao mundo (Jo 5:36-37; 6:44, 57; 8:16, 18). O Pai enviou Cristo ao mundo para cumprir uma missão específica no tempo e no espaço: salvar o mundo (1 João 4:14). Mais especificamente, Ele devia Se tornar o "Autor da salvação eterna" (Hb 5:9). Cristo descreveu a Si mesmo como tendo descido do Céu (Jo 6:38), enfatizando assim a origem da missão crística no nível da imanência histórica.

Jesus afirmou que "Aquele que Me enviou é verdadeiro, Aquele a quem vós não conheceis. Eu O conheço, porque venho da parte dEle e fui por Ele enviado" (João 7:28-29). O envio do Filho é um ato divino, pertencente ao nível do relacionamento imanente de Deus com a criação; tem origem no ser transcendente de Deus. O envio do Filho como um ato histórico dá testemunho de um aspecto importante da vida dinâmica de Deus. Ajuda-nos a entender a realidade divina da renúncia real e suprema do Deus único. Paulo afirma que Deus "não poupou o Seu próprio Filho, antes, por todos nós O entregou" (Rm 8:32). Jesus declara que "Deus [Pai] amou ao mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito" (Jo 3:16). Essa renúncia divina é um ato tanto do Filho quanto do Pai; trata-se de um ato relacional praticado pela divindade propriamente dita.

A devida compreensão da cruz como um ato divino de redenção se baseia na renúncia de Deus (Pai e Filho). Só é possível compreender a realidade da renúncia divina quando se compreende a estrutura bíblica e trinitária do Deus único, que envolve o Pai, o Filho e o Espírito Santo como seres divinos, pessoais e conscientes, interagindo mutuamente entre Si e com o Universo criado.

A experiência divina de separação que ocorre na encarnação encontra seu clímax dramático na cruz. Ali Jesus exclamou: "Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?" (Mc 15:34). Tanto o Pai quanto o Filho sofreram na cruz. A doutrina da natureza trinitária de Deus é o pressuposto necessário para a devida compreensão da encarnação e da cruz. No entanto, são essas realidades históricas que tornam possível uma revelação mais explícita da pluralidade divina no Novo Testamento.


IV. A delegação do Filho

Jesus revelou que "o Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às Suas mãos" (Jo 3:35; 13:3), até mesmo o julgamento (Jo 5:22). É por isso que Jesus podia dizer: "Tudo quanto o Pai tem é Meu" (Jo 16:15). A delegação do Pai ao Filho e sua contraparte, a subordinação do Filho ao Pai, manifesta envolvimento da Divindade na realização da obra da salvação. Quando envia o Filho em Sua missão redentora, o Pai submete tudo às mãos do Filho, que, por sua vez, em Seu estado encarnado tem que aprender a obediência e subordinação ao Pai (Hb 5:8).

Ao delegar a tarefa da redenção ao Filho, o Pai enfatiza a natureza decisiva da tarefa de Cristo. Ao delegar tudo ao Filho, o Pai está Se vinculando aos resultados da missão salvadora de Cristo. Até mesmo quando Se acha pessoalmente envolvido no plano da salvação, o Pai não emprega Seus poderes divinos para determinar os resultados da missão de Cristo com o objetivo de eliminar o risco envolvido numa vida de obediência pela fé.

A ascensão de Cristo ao Céu não encerrou Sua subordinação ao Pai. A delegação correlativa e complementar do Pai ao Filho continuou após a ascensão de Cristo ao Céu. Depois de ressuscitar, Cristo declarou: "Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra" (Mt 28:18). Pedro escreveu que, depois da ressurreição, Jesus Cristo foi "para o Céu, [e] está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes" (1Pe 3:22). A entronização de Cristo à direita de Deus Pai é descrita como um período de transição que durará "até que os Seus inimigos sejam postos por estrado dos Seus pés" (Hb 10:13). Paulo chega mesmo a ressaltar que, nesse período de transição entre a ascensão e a segunda vinda, Cristo não ficará passivamente esperando apenas o tempo passar. Ao contrário, durante esse tempo "convém que Ele [Cristo] reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés" (1Co 15:25). "Quando, porém, todas as coisas Lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também Se sujeitará Àquele que todas as coisas Lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos" (v. 28).

Quando estiver concluída a tarefa de redenção confiada a Cristo, a delegação do Pai ao Filho como contraparte da subordinação do Filho ao Pai chegará ao fim. Embora aspectos inter-relacionados da vida intratrinitariana, a delegação do Pai ao Filho e a subordinação do Filho ao Pai não constituem a natureza trinitária de Deus, senão que as presumem.


V. A obra salvífica

Apesar de o Pai delegar ao Filho toda a autoridade para realizar a redenção, o Novo Testamento ensina com toda clareza que o Pai Se envolve de maneira direta e pessoal na obra da salvação. Afirma que o Pai possui presciência (Mt 24:36; Mc 13:32) e onipresença (Mt 6:32; Lc 12:30). O Pai ama Seus filhos, e Seu amor está neles (1Jo 2:15; 3:1). Ele revela verdades salvíficas (Mt 11:25; 16:17), cuida providencialmente de Seus filhos (Mt 6:26; 10:29), lidera o desenvolvimento da história (Mt 20:23), dirige pessoas a Cristo (Jo 6:45), providencia-lhes salvação, torna Seus filhos "idôneos para participar da herança dos santos na luz" (Cl 1:12, ARC), perdoa pecados (Mt 6:15; Mc 11:25), responde à oração (Mt 6:6, 18; 7:11; 18:19; Jo 15:16; 16:23), e "julga segundo as obras de cada um" (1Pe 1:17; Mt 10:32-33). Todas essas atividades devem ser compreendidas dentro do contexto da delegação do Pai ao Filho.


VI. Fórmulas binitarianas

A encarnação de Deus em Jesus de Nazaré esclareceu dramaticamente os vislumbres do Antigo Testamento a respeito da natureza plural de um Deus eterno e único. A encarnação revelou não só o fato de que Jesus de Nazaré era Deus habitando entre nós (Emanuel), mas também que a pluralidade abrangida em uma divindade eterna e única incluía especificamente a realidade de duas pessoas divinas, o Pai e o Filho. Baseando-se nisso, muitos sugeriram que a Divindade cristã deveria ser compreendida como binitariana e não trinitariana. Eis por que precisamos examinar as referências bíblicas ao Pai e ao Filho, que não incluem explicitamente o Espírito Santo.

É importante ter em mente que nosso conhecimento de Deus provém da habitação imanente de Deus com Seu povo. A presença histórica do Filho entre nós torna tanto possível quanto necessária a revelação de Deus Pai como pessoa distinta de Deus Filho como pessoa. Ao longo de todo o Novo Testamento, essa verdade é expressa  e incorporada de diferentes maneiras: trata-se de uma recorrente fórmula binitariana: "Deus Pai e o Senhor Jesus Cristo."

A fórmula binitariana recebe sua clássica expressão em 1 Coríntios 8:6: "Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos". À primeira vista, a fórmula parece reconhecer apenas a divindade do Pai, que Se chama Deus, enquanto aparentemente coloca o Filho em posição subordinada. Quando se associa, porém, o ensino do Novo Testamento sobre a divindade de Jesus Cristo com o fato de que o título "Senhor" no Novo Testamento corresponde ao "Yahweh" do Antigo Testamento, percebe-se que a fórmula está na verdade colocando lado a lado duas pessoas igualmente divinas.

A escolha do título "Senhor" para nomear a pessoa de Deus Filho é claramente designada para destacar a autoridade compartilhada pelo Pai com o Filho no cumprimento direto, histórico, do plano da salvação. Esse texto traça um paralelo entre a maneira de Deus o Pai e o Senhor Jesus se relacionarem com a criação. O Pai é apresentado como o princípio e o fim, enquanto o Senhor Jesus Cristo é apresentado como o realizador da criação e de nossa própria existência. O paralelismo revela uma complementação mútua de atividades entre o Pai e o Filho que acentua-Lhes a igualdade e a divindade permanente. A fórmula, então, nomeia o Deus cristão de modo binitário, o que inclui a pluralidade pessoal e relação específica de duas pessoas igualmente divinas.

Com variações secundárias, essa fórmula é utilizada na introdução de várias epístolas do Novo Testamento (Rm 1:17; 1Co 1:3; 2Co 1:2-3; Gl 1:3; Ef 1:2-3; Fp 1:2; 1Ts 1:1, 3; 2Ts 1:2; 1Tm 1:2; 2Tm 1:2; Fm 3; 1Pe 1:3). Quando assim empregada, a fórmula parece resumir o conceito básico de Deus que se forma a partir da encarnação de Deus em Jesus de Nazaré e do próprio testemunho de Jesus sobre Deus Pai celestial. Às vezes, porém, a fórmula aparece integrada em seu contexto teológico. As observações finais de Paulo aos Efésios, por exemplo, ressaltam a unidade da ação, afirmando que o amor e a fé são comunicados aos crentes tanto por Deus Pai como pelo Senhor Jesus Cristo (Ef 6:23; 1Ts 3:11; 2Ts 2:16), destacando assim a existência de ações partilhadas (1Jo 1:3; 2:24; 2Jo 9), nas quais ambas as pessoas divinas executam a obra da redenção. Outras vezes, a fórmula é empregada para expressar e incorporar os diferentes papéis salvíficos do Pai e do Filho (Fp 2:11; Cl 3:17; 1Ts 1:3; 3:13; 1Pe 1:3).

Pode-se perguntar por que os escritores do Novo Testamento empregaram uma fórmula binitariana em vez de uma trinitariana, se eles sabiam da existência da terceira pessoa da Trindade. Primeiramente, a diferença entre as duas fórmulas é mais uma questão quantitativa do que qualitativa. Ou seja, a inovação do conceito bíblico de Deus ocorre quando se diz que a pluralidade e a unicidade coexistem no mesmo ser divino. Uma vez descoberta essa coexistência, a diferença entre uma concepção binitariana e uma trinitariana equivale apenas à exclusão ou inclusão de uma terceira pessoa como constitutiva da pluralidade pessoal de um Deus único. Além disso, a fórmula binitariana não nega a existência nem a atividade da terceira pessoa divina, mas apenas enfatiza a estrutura específica necessária para se compreender o significado da encarnação. Ou seja, o Novo Testamento trata primeiro de tornar compreensível a autorrevelação de Deus em Jesus de Nazaré.

A fórmula binitariana é o pressuposto necessário para a encarnação. Visto que a tarefa principal dos apóstolos era esclarecer a encarnação de Deus em Cristo e suas implicações para a teologia de modo geral, não deve constituir surpresa encontrar a fórmula binitariana em todo o Novo Testamento. Já o conceito e a fórmula trinitariana aparecem como pressupostos necessários para se compreender o significado da atividade pós-ressurreição do representante de Cristo, o Espírito Santo. A preocupação específica e prática dos escritores do Novo Testamento talvez explique o uso menos frequente da fórmula trinitariana. A plena revelação da Divindade só se tornou completa depois que o próprio Jesus Cristo apresentou a pessoa divina do Espírito Santo.

— Fernando L. Carnale. Doutrina de Deus. Tratado de Teologia Adventista, p. 144-147