sábado, 26 de abril de 2014

Fernando L. Canale - A Divindade no Novo Testamento: Deus, o Filho

A autorrevelação de Deus em Jesus como realidade concreta e histórica trouxe nova luz para a compreensão de Deus. A revelação de Deus em Jesus Cristo não modificou a abordagem básica do Antigo Testamento quanto à compreensão da Divindade, que inclui tanto a ideia de unicidade quanto de distinções pessoais, mas simplesmente se apropriou dela.


Na realidade, o Novo Testamento aprofunda o conceito dinâmico da pluralidade divina já apresentado no Antigo Testamento, ao mesmo tempo em que afirma a unicidade de Deus. O resultado é a revelação de Deus como Trindade. O Novo Testamento aceita a ideia da unicidade divina sem novas elaborações, ao mesmo tempo em que expande a área da pluralidade divina. A revelação concreta da pessoa eterna de Deus Filho em Jesus Cristo abriu a porta para uma revelação mais específica de um "Outro" divino. A ascensão de Cristo ao Céu pedia uma explicação para a continuidade da presença histórica e pessoal de Deus, constantemente manifesta no santuário do Antigo Testamento e na encarnação do Novo Testamento. A revelação específica e o envio da eterna pessoa de Deus Espírito Santo foram necessários para explicar a continuidade histórica da imanência pessoal de Deus.


A. DEUS, O FILHO

Jesus Cristo homem nasceu de Maria (Mt 1:16). Aqueles que O conheceram como criança e jovem adulto tiveram dificuldade em aceitar Jesus como profeta (Mc 6:3-5). De acordo com o Novo Testamento, porém, o homem Jesus foi a revelação mais clara e direta de Deus à humanidade (João 1:18; 14:8-9; Hb 1:2-3). Ele é Deus encarnado. Em um sentido muito real, nossa compreensão da Trindade divina vem da cristologia. Quando se percebe a divindade da pessoa de Cristo dentro do contexto revelatório da pluralidade na unicidade divina no Antigo Testamento, prepara-se o terreno para a nova revelação sobre a pessoa do Pai e a pessoa do Espírito Santo.

Sem o contexto do Antigo Testamento e a revelação histórica específica do Filho eterno em Jesus Cristo, conforme apresentada pelos escritores do Novo Testamento, tratar do Pai e do Espírito Santo não seria suficiente para revelar a natureza interna e trinitária do ser divino. Esses dois passos são necessários para que os seres humanos obtenham uma compreensão mais profunda de Deus.


I. Divindade

Diversas passagens do Novo Testamento se referem a Cristo como Deus (João 1:1, 18; 20:28; Hb 1:8-9; 2Pe 1:1; 1 João 5:20). João ensina não apenas a preexistência de Cristo (João 17:5), mas expressa isso de uma forma absoluta como se faz somente a Deus (João 1:1-2; 8:58; Cl 1:17). Atribui a Cristo características divinas:
  • Eternidade (Hb 1:11-12);
  • Posse de vida não derivada (João 1:4; 14:6); e
  • Poder divino para criar (João 1:3; Hb 1:2; Cl 1:16).
A introdução da carta aos hebreus afirma que o Filho "é o resplendor de Sua glória [de Deus] e a expressa imagem de Sua pessoa" (Hb 1:3, ARC). Paulo descreve Cristo como "subsistindo em forma de Deus" (Fp 2:6). As declarações "Eu Sou" parecem ser outra maneira de o próprio Cristo chamar a atenção para Sua natureza divina. Quando reivindicou para Si mesmo a designação "Eu Sou", Cristo utilizou o mesmo nome usado por Yahweh ao revelar-Se a Moisés em uma teofania, declarando ser esse Seu próprio nome pessoal: "Eu Sou o Que Sou" ('ehyeh 'asher ehyeh) (Êx 3:14). Essa frase é empregada em declarações oficiais que enfatizam atributos divinos, tais como:
  • Onipotência (João 6:20-21);
  • Eternidade (João 8:58);
  • Presciência (João 13:19);
  • Manifestação de honra e poder divinos (João 18:5, 6, 8); e
  • de Jesus como a fonte da salvação (João 8:24).

Por fim, o Novo Testamento confirma a divindade de Cristo equiparando-O ao Yahweh do Antigo Testamento. O cântico de louvor que o Céu entoa a Yahweh pela redenção (Is 44:23), é aplicado em Filipenses 2:10 à adoração de Cristo. Hebreus 1:10-12 cita a declaração sobre o poder criador e a eternidade de Yahweh registrada no Salmo 102:25-27, aplicando esses atributos a Cristo. Para reforçar essa linha de argumento, Hebreus 1:8-9 equipara Cristo a Deus ('elohim), ao citar o Salmo 45:6-7.

Paulo resume o testemunho neotestamentário da divindade de Cristo declarando abertamente o mistério da encarnação de Deus em Jesus Cristo: "NEle habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade" (Cl 2:9). Desde o ponto de partida, "Deus conosco" (Mt 1:23; Is 7:14) como Jesus de Nazaré (João 1:14), a incipiente concepção de pluralidade divina evolui em especificidade e complexidade até revelar a natureza trinitária do ser divino.


II. Filiação

O conceito histórico da imanência divina é o contexto necessário para se compreender a surpreendente revelação neotestamentária de Deus em Jesus de Nazaré. Uma compreensão estrita da unicidade de Deus pode levar à conclusão de que Yahweh, o único Deus, está agora em Jesus Cristo. Sendo assim, a encarnação abrangeria o ser inteiro de Deus. O Novo Testamento mostra, porém, com inúmeras provas que, embora a plenitude da divindade habite em Jesus de Nazaré, não se deve entender com isso que abranja o ser inteiro de Deus. A divindade de Jesus de Nazaré torna mais específica a ideia veterotestamentária de pluralidade no Deus único, revelando assim a natureza trinitária do ser divino.

Os prólogos do evangelho de João e da epístola aos Hebreus apresentam Jesus de Nazaré como a encarnação de Deus. Ambos revelam uma dualidade divina, ou seja, que a Divindade inclui pelo menos duas pessoas divinas: o Pai e o Filho. João apresenta a natureza divina de Jesus de Nazaré não só como o Verbo que "era Deus", mas também como o Verbo que "estava com Deus" (João 1:1). O "Outro" é o "Logos". A introdução da epístola aos Hebreus apresenta o "Outro" divino, não como Logos, mas como o "Filho" (Hb 1:2), que é o resplendor da Sua glória [de Deus], e a expressa imagem da Sua pessoa (v. 3). O "Filho" é encarnado em Jesus de Nazaré (Hb 2:9). Visto que o "Outro" divino na condição de "Logos" ou de "Filho" está encarnado em Jesus de Nazaré, a "plenitude da Divindade" (Cl 2:9) que habita nEle não abrange todo o ser divino.

A encarnação nos traz uma revelação mais profunda da natureza plural de Deus. João testifica: "E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a Sua glória, glória como do unigênito do Pai" (João 1:14). O relacionamento pai-filho é escolhido não apenas para nomear as duas pessoas divinas envolvidas, mas principalmente para caracterizar a relação especial existente entre Eles.

João 1:18 apresenta o mesmo relacionamento pai-filho como independente da encarnação: "Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem O revelou". Mateus também aponta para um relacionamento pai-filho anterior à relação revelatória de Deus com Sua criação e dela independente: "Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho O revelar" (Mt 11:27; Lc 10:22).

Essas declarações colocam a pluralidade revelada pela designação pai-filho na própria natureza do Deus único. Elas ultrapassam o nível da imanência de Deus em direção à Sua transcendência. Esses textos também revelam que, dentro do nível da transcendência de Deus, a pluralidade abrange dois centros de consciência, capazes de perceberem um ao outro de um modo único. Ainda que a expressão "pai-filho", escolhida para exprimir a pluralidade divina, seja extraída do nível humano da existência, o seu referente é o próprio Deus. Essa expressão revela que existe uma dualidade na espécie de realidade que designamos por pessoa e um relacionamento permanente entre elas como constituintes da própria natureza de Deus.

O relacionamento entre Pai e Filho existe tanto em nível de transcendência como de imanência. Em todo o Novo Testamento, a paternidade e a filiação se tornam designações para o Deus único. É por isso que o título "Filho de Deus" se refere à pessoa divina encarnada como Jesus de Nazaré (Mt 14:33; Mc 3:11; Lc 4:41; 1Co 1:9; Hb 4:14).

A forma como o Novo Testamento expressa a pluralidade divina com base na encarnação levanta perguntas sobre a compreensão apropriada e a distinção mútua entre a pessoa do Pai e a pessoa do Filho. Suscita perguntas também sobre o modo como as duas pessoas divinas se relacionam uma com a outra. A ideia bíblica de pluralidade no ser divino envolve a realidade de relacionamentos mútuos e divinos. O significado analógico das palavras "Pai" e "Filho" parece sugerir que haja uma preeminência do Pai sobre o Filho. Essa preeminência de Deus Pai sobre Deus Filho, sugerida pela analogia do relacionamento humano pai-filho, parece contar com o apoio de algumas passagens que transmitem a impressão de que o Filho é gerado pelo Pai e a Ele está subordinado.


III. "Nascido" do Pai

Dentro do contexto humano, o relacionamento pai-filho implica a geração do filho pelo pai e pela mãe. Ário afirmava que o Filho [Jesus] fora gerado pelo Pai. Ainda que essa posição tenha sido rejeitada como herética, o ensino cristão ortodoxo manteve a ênfase subordinacionista incorporada a seu conceito da eterna geração do Filho. A geração do Filho pelo Pai não pode, contudo, ser analogicamente deduzida a partir do processo de geração humana. Tal dedução produziria uma teoria especulativa inteiramente destituída de fundamento bíblico.

Apesar disso, algumas expressões bíblicas parecem sugerir uma espécie de geração, como, por exemplo, quando se chama Deus Filho de "primogênito" (prototokos, Cl 1:15; Rm 8:29; Hb 1:6; Ap 1:5) e "unigênito" (monogenes, João 1:14, 18; 3:16, 18; 1 João 4:9 [KJV]). Mas prototokos também é usado em sentido metafórico (LXX [Septuaginta], de Êx 4:22; Sl 89:27) e, quando aplicado a Cristo, exprime superioridade e preeminência. Semelhantemente, monogenes não contém a ideia de procriação, mas de singularidade e, quando aplicado a Cristo, enfatiza Sua relação singularíssima com o Pai. Quanto a Hebreus 1:5, a passagem não comunica nenhuma ideia de geração física ou espiritual. Não há, portanto, nenhuma base para a ideia de que o Pai gerou o Filho.


IV. A natureza da subordinação do Filho

Diversas passagens mostram o filho em explícita subordinação ao Pai. O próprio Jesus declarou que "o Filho nada pode fazer de Si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai" (João 5:19, 36). Confessou que nada fazia por Sua própria autoridade, mas falava como o Pai Lhe havia ensinado (João 8:28; 12:50; 15:15). Agiu como o Pai Lhe ordenara (João 14:31; 10:18; 12:49-50) e a Ele orou (João 17:1). Jesus chegou a afirmar claramente: "O Pai é maior do que Eu" (João 14:28).

Essas afirmações mostram, de maneira inconteste, que existe uma relação de subordinação entre Deus Filho e Deus Pai. mas a subordinação expressa nesses textos não deve ser entendida em um sentido ontológico, como se a realidade de Deus Filho dependesse da realidade de Deus Pai. A ideia bíblica de subordinação de Deus Filho a Deus Pai pertence não à estrutura interior da realidade divina, mas à esfera de execução do plano da salvação.

O plano da salvação exigia que Deus Filho assumisse forma humana, tornando-Se "obediente até à morte e morte de cruz" (Fp 2:8). "Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna" (Hb 5:8). Assim sendo, as declarações que sugerem a subordinação de Deus Filho a Deus Pai devem ser compreendidas como resultado da encarnação, expressão de Sua obediência ao Pai. Sem essa subordinação, a própria encarnação não teria alcançado seu propósito salvífico.

A subordinação do Filho ao Pai parece ir além da encarnação. Paulo explica que, ao vir o fim, Cristo vai "entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder" (1Co 15:24). Essa subordinação ocorre dentro do nível da imanência de Deus, onde tanto o Pai quanto o Filho administram seu governo providencial dentro da história criada. A subordinação funcional do Filho não significa, porém, uma dependência ontológica nem a inferioridade do Filho. Em sentido amplo, a subordinação do Filho ao Pai talvez expresse a unidade da vida trinitária interna, enquanto a Divindade realiza a salvação em e por meio da história do grande conflito.

Não encontramos na Bíblia, portanto, nenhuma base para a ideia de que há uma subordinação ontológica do Filho ao Pai ou que a realidade divina do Pai tem de alguma forma primazia de origem sobre a realidade divina do Filho. 

— Fernando L. Carnale. Doutrina de Deus. Tratado de Teologia Adventista, p. 140-144