quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Santificação: A fornalha ardente

No mesmo ano em que Daniel e seus companheiros entraram ao serviço do rei de Babilônia, os eventos ocorreram de maneira a provarem severamente a integridade destes jovens hebreus e patentearam, diante de uma nação idólatra, o poder e a fidelidade do Deus de Israel.

Enquanto o rei Nabucodonosor olhava para a frente com ansiosos pressentimentos a respeito do futuro, teve um sonho notável pelo qual “seu espírito se perturbou, e passou-lhe o seu sono” [Daniel 2:1]. Contudo, embora esta visão da noite tivesse feito profunda impressão sobre seu espírito, tornou-se-lhe impossível relembrar seus pormenores. Ele recorreu aos seus astrólogos e mágicos e, com promessas de grande riqueza e honra, ordenou-lhes que lhe contassem o sonho e sua interpretação. Mas eles disseram: “Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação” [Daniel 2:4].

O rei sabia que, se eles podiam realmente dar a interpretação poderiam contar o sonho também. O Senhor havia, em Sua providência, dado o sonho a Nabucodonosor e feito com que se esquecesse dos pormenores, ao passo que a terrível impressão lhe ficara na mente, a fim de desmascarar as pretensões dos sábios de Babilônia. O monarca ficou muito irado e afirmou-lhes que todos seriam mortos se, num dado tempo, o sonho não fosse revelado. Daniel e seus companheiros deveriam perecer com os falsos profetas; mas, com perigo da vida, Daniel aventurou-se a entrar na presença do rei, a fim de lhe implorar que concedesse tempo para revelar o sonho e a interpretação.

A este pedido, o monarca acedeu; e então Daniel reuniu seus três companheiros e, juntos, levaram o assunto perante Deus, buscando sabedoria da Fonte de luz e conhecimento. Embora estivessem na corte do rei, cercados de tentações, eles não esqueciam sua dependência de Deus. Eram inabaláveis quanto à consciência que tinham de que Sua providência os havia colocado onde estavam; de que estavam fazendo Seu trabalho, enfrentando as exigências da verdade e do dever. Tinham confiança em Deus. Haviam-se voltado para Ele em busca de força quando em perplexidade e perigo, e o Senhor lhes fora um auxílio sempre presente.
 
 
O segredo revelado
 
Os servos de Deus não pleitearam com Ele em vão. Haviam-nO honrado, e na hora da provação Ele os honrou, também. O segredo foi revelado a Daniel, e ele se apressou a requerer uma entrevista com o rei.

O cativo judeu está perante o monarca do mais poderoso império sobre o qual o Sol já brilhou. O rei está em grande aflição no meio de todas as suas riquezas e glória; mas o jovem exilado está calmo e sente-se feliz em seu Deus. Agora, mais que nunca, é o tempo para Daniel exaltar-se, para tornar preeminente sua própria bondade e superior sabedoria. Mas seu primeiro esforço foi declarar sua despretensão a todas as honras e exaltar a Deus como a fonte da sabedoria:
“O segredo que o rei requer, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos o podem descobrir ao rei; mas há um Deus nos Céus, o qual revela os segredos; Ele pois fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser no fim dos dias” [Daniel 2:27-28].

O rei escuta com solene atenção, enquanto é reproduzido cada pormenor do sonho; e quando a interpretação é fielmente dada, ele sente que pode confiar nela como uma revelação divina.

As solenes verdades comunicadas nesta visão da noite fizeram uma profunda impressão na mente do soberano e, em humildade e reverência, ele caiu prostrado e adorou, dizendo: “Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador dos segredos” [Daniel 2:47].
 
 
A imagem de ouro
 
Fora permitido que brilhasse sobre o rei Nabucodonosor luz direta do Céu, e por pouco tempo ele ficou influenciado pelo temor de Deus. Mas uns poucos anos de prosperidade encheram-lhe o coração de orgulho, e ele esqueceu o conhecimento do Deus vivo. Tornou-se para sua adoração de ídolos, com zelo e beatice aumentados.

Com os tesouros obtidos na guerra, ele fez uma imagem de ouro para representar aquela que havia visto em seu sonho, colocando-a na planície de Dura e ordenando a todos os governadores e povo que a adorassem, sob pena de morte. Esta estátua era de cerca de trinta metros de altura por três de largura, e aos olhos daquele povo idólatra ela apresentava aparência muito imponente e majestosa. Foi feita uma proclamação, convocando todos os oficiais do reino a fim de se reunirem para a dedicação da imagem e, ao som dos instrumentos musicais, prostrarem-se e adorarem-na. Se alguém deixasse de fazê-lo, seria imediatamente lançado dentro de uma fornalha ardente.
 
 
Não temeram a ira do rei
 
Chegou o dia aprazado e a vasta multidão está reunida, quando é trazida ao rei a notícia de que os três hebreus que ele havia colocado sobre a província de Babilônia se recusavam a adorar a imagem. Estes são os três companheiros de Daniel, aos quais o rei havia dado os nomes de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Cheio de ira, o monarca os chama a sua presença e, apontando para a fornalha ardente, diz-lhes qual será sua punição se recusarem obediência à sua vontade.

Em vão foram as ameaças do rei. Ele não pôde demover estes nobres homens de sua fidelidade ao grande Governador das nações. Eles haviam aprendido da história de seus pais que desobediência a Deus significava desonra, desastre e ruína; que o temor do Senhor não é somente o princípio da sabedoria, mas o fundamento de toda verdadeira prosperidade. Eles olham com calma para a fornalha inflamada e a multidão idólatra. Tinham confiado em Deus e Ele não os desamparará agora. Sua resposta é respeitosa, mas decidida: “Fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de outro que levantaste” [Daniel 3:18].

O orgulhoso monarca está cercado por seus grandes, os auxiliares do governo, e pelo exército que conquistou nações; e todos se unem em aplaudi-lo como tendo a sabedoria e o poder dos deuses. No meio desta imponente exibição, estão os três jovens hebreus, firmes em sua recusa quanto a obedecer ao decreto do rei. Haviam sido obedientes às leis de Babilônia, tanto quanto não entravam em conflito com as ordens de Deus; mas não se desviariam um fio de cabelo do dever para com seu Criador.

A ira do rei não conheceu limites. No próprio auge de seu poder e glória, ser assim desafiado pelos representantes de uma raça desprezada e cativa, era um insulto que seu espírito orgulhoso não podia suportar. Tendo a fornalha ardente sido aquecida sete vezes mais do que antes, nela foram lançados os três exilados hebreus. Tão furiosas eram as chamas, que os homens que os lançaram morreram queimados.
 
 
Na presença do infinito

De repente, o semblante do rei empalideceu de horror. Seus olhos se fixaram nas chamas ardentes e, voltando-se para seus lordes, disse:
“Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo?” A resposta foi: “É verdade, ó rei”. E então exclama o monarca: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nada há de lesão neles; e o aspecto do quarto é semelhante ao Filho dos deuses” [Daniel 3:24-25].


Quando Cristo Se manifesta aos filhos dos homens, um poder invisível fala a seu coração. Eles sentem que estão na presença do Infinito. Perante Sua majestade, tremem os reis e nobres e reconhecem que o Deus vivo é acima de todo poder terreno.

Com sentimentos de remorso e vergonha, o rei exclamou: “Servos do Deus Altíssimo, saí e vinde” [Daniel 3:26]. E eles obedeceram, apresentando-se ilesos perante aquela vasta multidão, não tendo nem mesmo o cheiro do fogo sobre suas vestes. Este milagre operou uma admirável mudança na mente do povo. A grande imagem de ouro, levantada com tanta pompa, foi esquecida. O rei publicou um decreto pelo qual qualquer pessoa que falasse contra o Deus destes homens seria morto, “porquanto não há outro Deus que possa livrar como Este” [Daniel 3:29].
 
 
Firme integridade e a vida santificada
 
Estes três hebreus possuíam genuína santificação. O verdadeiro princípio cristão não pára a fim de pesar as conseqüências. Não pergunta: “Que pensará de mim o povo se eu fizer isto?” ou quanto afetará meus planos, se eu fizer aquilo?” Com o mais intenso anseio os filhos de Deus desejam saber o que Ele quer que façam, para que suas obras O glorifiquem. O Senhor tomou amplas providências para que o coração e a vida de todos os Seus seguidores possam ser controlados pela graça divina e sejam quais luzes ardentes e brilhantes no mundo.

Estes fiéis hebreus possuíam grande habilidade natural, haviam gozado da mais elevada cultura intelectual e ocupavam uma posição de honra; mas tudo isto não os levou a se esquecerem de Deus. Suas faculdades se renderam à santificadora influência da graça divina. Por sua firme integridade, publicaram os louvores dAquele que os chamou das trevas para Sua maravilhosa luz. Em seu admirável livramento, foram exibidos, perante aquela vasta multidão, o poder e a majestade de Deus. O próprio Jesus Se colocou ao seu lado na fornalha ardente e, pela glória de Sua presença, convenceu o orgulhoso rei de Babilônia de que não podia ser outro senão o Filho de Deus. A luz do Céu havia estado a irradiar de Daniel e seus companheiros até que seus colegas compreenderam a fé que lhes enobrecia a vida e embelezava o caráter. Pelo livramento de Seus servos fiéis, o Senhor declara que tomará o lado dos oprimidos e subverterá todos os poderes terrenos que procurarem espezinhar a autoridade do Deus do Céu.
 
 
Uma lição para o pusilânime
 
Que lição há aqui para o pusilânime, vacilante, covarde na causa de Deus! Que encorajamento para aqueles que não se desviarão do dever por ameaças ou perigos! Estes caracteres fiéis e inabaláveis exemplificam a santificação, ao passo que eles não têm nenhum intuito de reclamar a elevada honra. A soma de bens que poderão ser praticados por devotos cristãos, conquanto comparativamente obscuros, não poderá ser avaliada sem que os registros da vida sejam revelados, quando se iniciar o juízo e os livros forem abertos.

Cristo identifica Seu interesse com os desta classe; não Se envergonha de chamá-los Seus irmãos. Deveria haver centenas onde agora existe um entre nós, tão intimamente aliados a Deus, sua vida em tal conformidade com Sua vontade que fossem luzes brilhantes e resplendentes, inteiramente santificados física, moral e espiritualmente.

Ainda prossegue o conflito entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Aqueles que se dizem cristãos devem sacudir a letargia que debilita seus esforços e enfrentar as solenes responsabilidades que repousam sobre eles. Todos os que fazem isto podem esperar que o poder de Deus se revele neles. O Filho de Deus, o Redentor do mundo, será representado em suas palavras e obras, e o nome de Deus será glorificado.

Como nos dias de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, também no período terminal da história terrena o Senhor operará poderosamente em favor daqueles que se postam inabalavelmente do lado do direito. Aquele que passeou com os valorosos hebreus na ígnea fornalha, estará com Seus seguidores onde quer que estejam. Sua permanente presença os haverá de confortar e sustentar. No meio do tempo de prova — prova tal qual nunca houve desde que há uma nação — Seus escolhidos permanecerão sem serem tocados. Satanás, com todas as hostes do mal, não poderá destruir nem o mais fraco dos santos. Anjos que excedem em poder, protegê-los-ão e, em seu favor, Yahweh Se manifestará como um "Deus dos deuses", capaz para salvar perfeitamente aqueles que nEle puseram sua confiança.

(Ellen G. White. Santificação, capítulo 4, p. 37-45)