segunda-feira, 1 de julho de 2013

[SUTILEZAS DO ERRO] Desprezo ostensivo pelo quarto mandamento

COMO CRISTO CONSIDEROU O SÁBADO

Toca às raias do absurdo a vesguice dialética do oponente em tentar demolir o dia de Deus, relegá-lo ao desprezo e aviltá-lo de toda a forma. Não titubeia, à pág. 64 do indigno libelo, em concluir que Cristo considerou desrespeitosamente o sábado. Cita S. Mar. 2:27, que reza: "O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado," pontificando com ares doutorais: 
"Isto quer dizer que o sábado ou dia de descanso, deve servir ao homem e não o homem estar sujeito a ele." Aí está uma puerilidade de causar pena.
Vejamos o que o Mestre quis dizer com estas palavras. Há aí duas proposições: uma do sábado servir ao homem; outra, do homem sujeitar-se ao sábado. Consideremos a primeira. É de clareza meridiana. O sábado foi instituído e oferecido ao homem como algo muito precioso, como um bem, um favor divino. 

Figueiredo traduz: 
"O sábado foi feito em contemplação do homem." 
O sentido evidente é que o sábado foi instituído para o bem-estar físico, moral e espiritual das criaturas humanas. O sábado é assim uma instituição a favor do homem, em seu benefício, uma bênção grandiosa. Só uma perversa distorção do texto poderia levar à conclusão de que o sábado deva ser considerado contrarie ao homem. Portanto, a ilação do acusador é infeliz, errônea e contrária ao sentido bíblico.

A segunda proposição contida no texto diz: "e não o homem por causa do sábado." Simples demais para ser entendida. Deus não criou o homem porque Ele tivesse um sábado necessitando ser guardado por alguém. Ao contrário, criara primeiro o homem, e depois o sábado para lhe às necessidades de repouso e recreação espiritual. Assim o sábado lhe seria uma bênção e não uma carga. 

O farisaísmo dos dias de Cristo obscurecera o verdadeira caráter do sábado. Os rabinos o acumularam de exigências esdrúxulas que o tornaram um fardo quase insuportável. A atitude de Cristo Para com o sábado foi a de escoimá-lo desses acréscimos, devolvendo-o à prístina pureza. A atitude de Cristo para com o Seu santo dia foi de reverência e não de desprezo.

E de passagem cabe aqui uma observação: o sábado foi feito por causa do homem, e isto não pode ser verdade em relação ao domingo, porque no primeiro dia da semana o homem ainda não fora criado! Cita em seguida S. Mat. 12:8: "O Filho do homem até do sábado é Senhor", e conclui desastradamente que Cristo é Senhor do sábado para mudá-lo, alterá-lo, suprimi-lo, enfim. Diríamos de início que, sendo o sábado um mandamento da lei de Deus, se Cristo o transgredisse de qualquer maneira Se tornaria um pecador, e nessa condição não poderia ser nosso Salvador!

Mas vamos ao raciocínio errôneo do oponente. Jesus declarou-Se Senhor do sábado! Solene e importantíssima declaração! Frise-se bem que Ele é Senhor do sábado e não do domingo, embora a cristandade semi-apostatada averbe este dia como o "dia do Senhor." Cristo, porém, reafirmou Sua soberania sobre o sábado. É o Autor do sétimo dia, consagrado ao repouso e, nessa qualidade, sabe o que é lícito ou não fazer nele. Os fariseus que censuraram os discípulos por apanharem espigas, foram além dos reclamos divinos, "além do que está escrito." Punham restrições descabidas à guarda do sábado. E Jesus, para mostrar-lhes Sua autoridade, apresenta-Se como Autor do sábado. Nada há de derrogatório na declaração do Mestre. Ao contrário, reafirma o valor e a vigência do sábado, escoimado, no entanto, das aderências talmúdicas.

BROADUS, renomado comentarista batista, tratando deste texto, assim conclui: 
"Mas o sábado permanece ainda, pois que existia antes de Israel, e era desde a criação um dia designado por Deus para ser santificado (Gên. 2:3) ..." [1]
Cristo jamais combateu o sábado, mas apenas a maneira de guardá-lo, a estreiteza dos fariseus. Diz STRONG, grande teólogo batista: 
"Nem nosso Senhor ou os apóstolos ab-rogaram o sábado do decálogo. A nova dispensação abole as prescrições mosaicas quanto à forma de guardar o sábado mas ao mesmo tempo declara sua observância de origem divina e como sendo uma necessidade da natureza humana.... Cristo não cravou na cruz qualquer mandamento do decálogo.... Jesus não Se defende da acusação de quebrar o sábado, declarando que este fora abolido, mas estabelece o verdadeiro caráter do sábado em atender uma necessidade humana fundamental." [2]
RYLE, erudito comentarista evangélico, tratando do texto, diz:
"Não devemos deixar-nos arrastar pela opinião comum de que o sábado é mera instituição judaica, que foi abolido ou anulado por Cristo. Não há uma só passagem das Escrituras que isso prove. Todos os casos em que nosso Senhor Se refere ao sábado, fala contra as opiniões errôneas que os fariseus propagaram a respeito de sua observância. Cristo depurou o quarto mandamento da superfluidade profana dos judeus.... O Salvador que despojou o sábado das tradições judaicas e que tantas vezes esclareceu o seu sentido, não pode ser inimigo do quarta mandamento. Pelo contrário, Ele engrandeceu e o exaltou." [3]
E o próprio opositor, incapaz de cobrir o Sol da verdade com a peneira de seus sofismas, se trai ao afirmar: "Jesus ia contra a letra e o formalismo dos judeus... Evidentemente para ensinar aos judeus que deviam dar ao Sábado uma interpretação espiritual e não formal..." Estamos de acordo com essa afirmação. Cristo não foi contra o dia, mas contra a maneira errônea e extremista de guardá-lo.


MANDAMENTO OMISSO?

À pág. 70 apresenta o acusador um quadro comparativo, ardilosamente engendrado e incompleto em que procura demonstrar que o quarto mandamento não consta do Novo Testamento. Será que o autor, lê com atenção o Novo Testamento? Pois nele, tanto Cristo como os apóstolos nos são apresentadas em várias ocasiões pregando ou adorando aos sábados, como se esse procedimento fosse a coisa mais natural. Por que não fez constar no quadro S. Luc. 23:56 que se refere à guarda do sábado "conforme o mandamento?" Para contraditar aquele gráfico omisso, apresentamos um quadro verdadeiro quanto à observância do sábado no Novo Testamento.


REUNIÕES NO SÁBADO MENCIONADAS NO NOVO TESTAMENTO
(Temos abaixo aproximadamente 90 reuniões religiosas no sábado "segundo o mandamento")


Texto: S. Mar. 1:21; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Cafarnaum; 
Data: 28 a.C.
Histórico: Cristo ensinava Seus discípulos no sábado. Ensino religioso. Realizou a cura do endemoninhado. Objetivos espirituais.

Textos: S. Mar. 3:1; S. Mat. 12:1; S. Luc. 6:6; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Cafarnaum; 
Data: 28 a.C.
Histórico: Cristo entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Curou o homem que tinha a mão ressequida, o que irritou os fariseus. Demonstração do poder de Deus, no dia de sábado.

Texto: S. Luc. 4:16 e 17; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Nazaré; 
Data: 28 a.C.
Histórico: Cristo foi à casa de culto. Diz o texto que o fez "segundo o Seu costume". Quer dizer que sempre ia ao culto no sábado. O que fez lá dentro foi puramente ato de culto. Leitura e exposição da Palavra de Deus. Não foi com objetivo de agradar os judeus, porque os desagradou bastante a ponto de ser expulso da sinagoga e da cidade. Quiseram atirá-Lo ao precipício.

Texto: S. Luc. 4:31; 
N.º de reuniões: ?; 
Local: Cafarnaum; 
Data: 28 a.C.
Histórico: Cristo usualmente ensinava nos sábados. Nenhuma insinuação quanto à mudança do dia de guarda.

Texto: S. Luc. 23:56; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Jerusalém; 
Data: 31 a.C.
Histórico: As santas mulheres seguidoras, de Cristo, inclusive Sua mãe respeitosamente guardaram o "sábado conforme o mandamento". Nada sabiam acerca do domingo!!!

Textos: Atos 13:14 e 42-44; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Antioquia; 
Data: 45 a.C.
Histórico: S. Paulo em reunião de culto. Como os judeus abandonassem a sinagoga, no sábado seguinte "quase toda a cidade" (gentios) se ajuntou para ouvir a Palavra de Deus. Boa oportunidade para Paulo lhes dizer que, como não estavam na sinagoga com os judeus, o dia de guarda seria o domingo ...

Texto: Atos 16:12 e 13; 
N.º de reuniões: 1; 
Local: Filipos; 
Data: 53 a.C.
Histórico: Reunião de culto ao ar livre. Longe de sinagogas, que talvez não houvesse na cidade. Os apóstolos procuraram um lugar tranqüilo para o culto sabático.

Texto: Atos 17:1 e 2; 
N.º de reuniões: 3; 
Local: Tessalônica; 
Data: 54 a.C.
Histórico: Na sinagoga. Reunião de culto. Paulo "segundo o seu costume" foi ao culto no sábado. O dia de guarda não se alterara na era cristã. Reunia-se indistintamente com judeus e gentios, ou sem eles ao ar livre. O que interessava era a guarda do dia ...

Texto: Atos 18:1-4; 
N.º de reuniões: 78; 
Local: Corinto; 
Data: 54 a.C.
Histórico: Temos aqui a considerar: v. 4 "todos os sábados"; v. 11 "ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando". Nesse ano e meio transcorreram 78 sábados, tempo mais que suficiente para Paulo ensinar que o dia de repouso fora mudado ...; v. 3 Paulo trabalhava em "fazer tendas". No sábado não trabalhava. Cumpria a lei de Deus que manda trabalhar seis dias. Logicamente não descansou no domingo. A Bíblia diz que o fazia no sábado e preferimos ficar com a Bíblia; v. 4 diz que Paulo estudava a Palavra de Deus "persuadindo tanto judeus como gregos". Também com os gentios no sábado.


PERPETUIDADE TEMPORÁRIA?

E lá vem à pág. 71 a cediça afirmação de que o sábado não é "perpétuo," porque em Êxodo 12:14; 30:21 e Lev. 23:21 o adjetivo "perpétuo" também é aplicada à "páscoa," "lavagem de mãos" e "festas judaicas," e estas coisas cessaram de existir. O acusador deve saber que o adjetivo hebraica olam, traduzido por "perpétuo" nos textos em tela e por "para sempre" em outros lagares, tem o seu sentido condicionado à natureza daquilo a que se aplica. 

Sendo assim, as festas cerimoniais teriam duração até ao tempo em que seriam necessárias. Jonas, ao descrever as peripécias pelas quais havia passado no interior do peixe, diz: "... os ferrolhos da Terra correram-se sobre mim para sempre [olam]" (Jonas 2:6). Esse "para sempre" durou apenas três dias e três noites. Foi uma duração curtíssima, não acham? No entanto, quando o mesmo adjetivo está janto de palavras que pela natureza, têm duração ilimitada, significa realmente "duração sem-fim". Junto de "Deus," "vida," "amor." etc. indica perpetuidade.

O "argumento" nada prova contra a permanência sabática, pois, segundo a Bíblia, o sábado será observado na Nova Terra pelos remidos (Isaías 66:23). A sua perpetuidade é sem-fim. O antagonista vai ao ponto de, à pág. 68, negar que o sábado da criação fosse o sétimo dia! Será que não leu em Êxodo 20:11 que o mandamento sabático se reporta aos dias da criação? 

E STRONG, em seu conhecido tratado teológico batista, relaciona o sábado do sétimo dia com a criação, reconhecendo 
"a importância e o valor do sábado como memorial do ato criador de Deus e necessariamente de Sua personalidade, soberania e transcendência... Feito na criação, aplica-se ao homem como tal, em todas as partes ..." [4]
Como foi infeliz e desastrado o acusador!


BLASFÊMIA

O cúmulo do contra-senso está à pág. 72 ao afirmar que o sábado não santifica o homem, e os que o observam decaem na vida espiritual. Mas a Palavra de Deus o desmente frontalmente, declarando que o sábado é um sinal de santificação. Notemos: 
  1. O dia foi santificado pelo próprio Deus (Gn 2:3);
  2. O quarto mandamento manda lembrar o sábado para o santificar (Êx 20:8; Is 58:13);
  3. Sinal entre Deus e Seu povo, pelo qual Deus os santifica (Ez 20:12);
  4. E é chamado dia santo (Êx 31:14; Ne 9:14). 

Preferimos crer na Bíblia. Seja Deus verdadeiro! Conclui o capítulo estranhando que afirmemos que os "santos do Altíssimo" são os milhares que pereceram na Idade Média, porquanto guardaram eles o domingo. Respondemos: Sim, eram santos do Altíssimo. Foram sinceros dentro da luz que tinham. A verdade do sábado foi restaurada séculos depois que eles viveram. E hoje que esta luz está sendo irradiada a todo o mando, quem deliberadamente se insurge contra ela estará debaixo do juízo de Deus!!!


REFERÊNCIAS:

  1. John A. Broadus, Comentário de Mateus, Vol. 1, pág. 345.
  2. A. H. Strong, Systematic Theology, pág. 409.
  3. C. Ryle, Comentário Expositivo do Evangelho Segundo Lucas, pág. 79.
  4. A. H. Strong, op. cit., pág. 408.


(Arnaldo Christianini. Sutilezas do erro, p. 10-123)