terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Feitiçaria antiga e moderna: Saul e a pitonisa de En-Dor


O relato escriturístico da visita de Saul à mulher de En-Dor [1Sm 28:1-25], tem sido uma fonte de perplexidade a muitos estudiosos da Bíblia. Há alguns que assumem a posição de que Samuel estava efetivamente presente na entrevista com Saul; mas a própria Bíblia oferece base suficiente para uma conclusão contrária. Se, como alguns pretendem, Samuel estava no Céu, ele deveria ter sido chamado dali, ou pelo poder de Deus, ou pelo de Satanás. Ninguém poderá crer por um momento sequer que Satanás tivesse poder para chamar do Céu o santo profeta de Deus para honrar os enganos de uma mulher perdida. Tampouco podemos concluir que Deus o chamasse à caverna da feiticeira; pois o Senhor já Se havia recusado a comunicar-Se com Saul, por meio de sonhos, por Urim, ou por profetas (1 Samuel 28:6). Tais eram os meios indicados por Deus para a comunicação, e Ele os não preteriria para transmitir a mensagem pela operação de Satanás.



A própria mensagem traz prova suficiente de sua origem. Seu objetivo não foi levar Saul ao arrependimento, mas impeli-lo à ruína; e isto não é a obra de Deus, mas a de Satanás. Ademais, o ato de Saul ao consultar uma pitonisa é citado nas Escrituras como um motivo por que ele foi rejeitado por Deus e abandonado à destruição: 
“Morreu Saul por causa da sua transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do Senhor, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar. E não buscou ao Senhor, pelo que o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé” (1 Crônicas 10:13-14). 
Aqui declara-se distintamente que Saul consultou o espírito de adivinhação, e não ao Senhor. Ele não se comunicou com Samuel, o profeta de Deus; mas, mediante a feiticeira, entreteve comunicação com Satanás. Este não podia apresentar o verdadeiro Samuel, mas apresentou um falsificado, que serviu ao seu objetivo de enganar.

Quase todas as formas da antiga feitiçaria e encantamentos baseavam-se na crença da comunicação com os mortos. Aqueles que praticavam as artes da necromancia pretendiam ter relações com os espíritos dos mortos, e obter por meio deles conhecimento de acontecimentos futuros. A este costume de consultar os mortos se faz referência na profecia de Isaías: 
“Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; — não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?” (Isaías 8:19).

Essa mesma crença na comunicação com os mortos formou a pedra fundamental da idolatria gentílica. Os deuses dos gentios acreditava-se que eram os espíritos deificados dos heróis mortos. Assim a religião dos gentios era um culto aos mortos. Isto se evidencia pelas Escrituras. No relato do pecado de Israel em Bete-Peor, declara-se: 
“E Israel deteve-se em Sitim, e o povo começou a prostituir-se com as filhas dos moabitas. E convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. Juntando-se pois Israel a Baal-Peor”. (Números 25:1-3). 
O salmista nos diz a que espécie de deuses estes sacrifícios eram oferecidos. Falando da mesma apostasia dos israelitas, diz ele: 
“Juntaram-se com Baal-Peor, e comeram os sacrifícios dos mortos“, isto é, sacrifícios que tinham sido oferecidos aos mortos. (Salmos 106:28).

A deificação dos mortos tem tido lugar preeminente em quase todo sistema de paganismo, como também tem a suposta comunicação com os mortos. Acreditava-se que os deuses comunicavam sua vontade aos homens, e davam-lhes também conselhos, quando consultados. Desta natureza eram os famosos oráculos da Grécia e de Roma.

A crença na comunicação com os mortos é ainda mantida, mesmo nos países professos cristãos. Sob o nome de Espiritismo, a prática de comunicar-se com os seres que pretendem ser os espíritos dos mortos, tem-se espalhado largamente. É ela calculada a ganhar as simpatias daqueles que depuseram seus queridos na sepultura. Seres espirituais algumas vezes aparecem a pessoas sob a forma de seus amigos falecidos, e relatam incidentes ligados com sua vida, e efetuam atos que realizavam quando vivos. Deste modo levam os homens a crerem que seus amigos mortos são anjos que pairam sobre eles, e com eles se comunicam. Aqueles que assim pretendem ser espíritos dos mortos, são considerados com certa idolatria, e para muitos sua palavra tem maior valor do que a Palavra de Deus.

Muitos há contudo, que consideram o espiritismo como um simples engano. As manifestações pelas quais ele apóia suas pretensões a um caráter sobrenatural, são atribuídas à fraude por parte do médium. Mas, conquanto seja verdade que os resultados da velhacaria tenham sido muitas vezes apresentados como manifestações genuínas, tem havido também provas notáveis de poder sobrenatural. E muitos que rejeitam o espiritismo como resultado da esperteza ou astúcia humana, quando defrontados com manifestações que não possam explicar sob este ponto de vista, serão levados a reconhecer suas pretensões.

O espiritismo moderno, e as formas da antiga feitiçaria e adoração de ídolos — tendo todos a comunicação com os mortos como seu princípio vital — fundam-se naquela primeira mentira pela qual Satanás seduziu Eva no Éden: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes [...] sereis como Deus”. (Gênesis 3:4-5). Baseados na falsidade e perpetuando esta, são semelhantemente oriundos do pai da mentira.

Aos hebreus era expressamente proibido empenhar-se, sob qualquer forma, em pretensa comunicação com os mortos. Deus fechou eficazmente esta porta quando disse: 
“Os mortos não sabem coisa nenhuma. [...] E já não têm parte alguma neste século, em coisa alguma do que se faz debaixo do Sol”. (Eclesiastes 9:5-6).
 
“Sai-lhes o espírito, e eles tornam-se em sua terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos”. (Salmos 146:4). 
E o Senhor declarou a Israel: 
“Quando uma alma se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir após deles, Eu porei a Minha face contra aquela alma, e a extirparei do meio do seu povo”. (Levítico 20:6).

Os “espíritos familiares” não eram espíritos dos mortos, mas anjos maus, mensageiros de Satanás. A antiga idolatria, que, como vimos, compreende tanto o culto aos mortos como a pretensa comunicação com eles, declara-se na Bíblia ter sido culto aos demônios. O apóstolo Paulo advertindo seus irmãos contra o participarem de qualquer maneira da idolatria de seus vizinhos pagãos, diz: 
“As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios”. (1 Coríntios 10:20). 
O salmista, falando de Israel, diz que “sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios”; e no versículo seguinte explica que os sacrificaram “aos ídolos de Canaã”. (Salmos 106:37-38). Em seu suposto culto aos mortos, estavam na realidade adorando demônios.

O espiritismo moderno, repousando sobre a mesma base, não é senão um reavivamento, sob uma nova forma, da feitiçaria e culto aos demônios que Deus condenou e proibiu na antiguidade. Acha-se ele predito nas Escrituras, que declaram que “nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”. (1 Timóteo 4:1). Paulo, em segunda carta aos tessalonicenses, indica a operação especial de Satanás pelo espiritismo, como um acontecimento a ocorrer imediatamente antes do segundo advento de Cristo. Falando da segunda vinda de Cristo, declara que ela é “segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira”. (2 Tessalonicenses 2:9). E Pedro, descrevendo os perigos a que a igreja estaria exposta nos últimos dias, diz que, assim como houve falsos profetas que levaram Israel ao pecado, haverá falsos ensinadores “que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou. [...] E muitos seguirão as suas dissoluções”. (2 Pedro 2:1-2). Aqui o apóstolo indicou uma das mais assinaladas características dos ensinadores espíritas. Eles se recusam a reconhecer a Cristo como o Filho de Deus. Com relação a tais instrutores o amado João declara: 
“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho. Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai”. (1 João 2:22-23). 
O espiritismo, negando a Cristo, nega tanto ao Pai como ao Filho, e a Bíblia denuncia-o como manifestações do anticristo.

Pela predição da sorte de Saul, dada mediante a mulher de En-Dor, planejava Satanás enredar o povo de Israel. Esperava que se lhes inspirasse confiança na feiticeira, e fossem levados a consultar a mulher. Assim se desviariam de Deus como seu conselheiro, e colocar-se-iam sob a guia de Satanás. O engodo pelo qual o espiritismo atrai as multidões é o seu pretenso poder de descerrar o véu do futuro, e revelar aos homens o que Deus ocultou. Deus desvendou em Sua Palavra diante de nós os grandes acontecimentos do futuro — tudo que nos é essencial sabermos; e deu-nos um guia seguro para nossos pés por entre todos os seus perigos; é, porém, intuito de Satanás destruir a confiança dos homens em Deus, torná-los descontentes com sua condição na vida, e levá-los a procurar conhecimento daquilo que Deus sabiamente lhes encobriu, e desprezar o que Ele revelou em Sua santa Palavra.

Há muitos que se tornam inquietos quando não podem saber o desfecho definido das questões. Não podem suportar a incerteza, e em sua impaciência recusam-se a esperar para verem a salvação de Deus. A apreensão de males impele-os quase à loucura. Dão lugar aos seus sentimentos de rebelião, correm de um lado para outro, com mágoa intensa, procurando entendimento a respeito daquilo que não foi revelado. Se tão-somente confiassem em Deus, e vigiassem e orassem, encontrariam consolo divino. Seu espírito se acalmaria pela comunhão com Deus. Os cansados e oprimidos encontrariam descanso para suas almas, se tão-somente fossem a Jesus; mas, quando rejeitam os meios que Deus ordenou para o seu conforto, e recorrem a outras fontes, esperando saber o que Deus recusou revelar, cometem o erro de Saul, e deste modo apenas obtêm conhecimento do mal.

Deus não Se agrada com esta conduta, e Ele o exprimiu nos termos mais explícitos. Esta impaciente pressa de rasgar o véu do futuro revela falta de fé em Deus, e deixa a alma aberta às sugestões do máximo enganador. Satanás leva os homens a consultar os que têm espíritos familiares; e, revelando coisas ocultas do passado, inspira confiança em seu poder para predizer coisas vindouras. Pela experiência adquirida através dos longos séculos, ele pode raciocinar partindo das causas aos efeitos, e predizer muitas vezes, com certo grau de precisão, alguns dos acontecimentos futuros da vida do homem. Assim está ele habilitado a enganar pobres almas transviadas, e levá-las sob seu poder, e conduzi-las cativas à sua vontade.

Deus nos deu esta advertência pelo Seu profeta: 
“Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; — não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos? À Lei e ao Testemunho! se eles não falarem segundo esta Palavra, não haverá manhã para eles”. (Isaías 8:19-20).

Aqueles que têm um Deus santo, infinito em sabedoria e poder, irão aos adivinhos, cujo saber vem de sua intimidade com o inimigo de nosso Senhor? Deus mesmo é a luz de Seu povo; Ele lhes manda fixar os olhos, pela fé, nas glórias que estão veladas à vista humana. O Sol da justiça envia ao coração Seus brilhantes raios; eles têm luz do trono dos Céus, e não têm o desejo de desviar-se da fonte de luz aos mensageiros de Satanás.

A mensagem do demônio a Saul, posto que fosse uma denúncia de pecado e uma profecia de castigo, não visava corrigi-lo, mas instigá-lo ao desespero e à ruína. Muitas mais vezes, porém, presta-se melhor aos intuitos do tentador atrair os homens à destruição pela lisonja. O ensino dos deuses-demônios, nos antigos tempos, favorecia a mais baixa licenciosidade. Os preceitos divinos, que condenam o pecado e impõem a justiça, eram postos de lado; a verdade era considerada levianamente, e a impureza não somente era permitida como também ordenada. O espiritismo declara que não há morte, pecado, juízo, ou condenação; que “os homens são semideuses não decaídos”; que o desejo é a mais elevada lei; e que o homem é apenas responsável a si. As barreiras que Deus ergueu para proteger a verdade, a pureza e a reverência, são afastadas, e muitos assim se tornam audazes no pecado. Não sugere tal ensino uma origem semelhante à do culto aos demônios?

O Senhor apresentou a Israel os resultados de entreterem comunicação com os espíritos maus, nas abominações dos cananeus: eles eram sem afeição natural, idólatras, adúlteros, homicidas e abomináveis por todo pensamento corrupto e prática revoltante. Os homens não conhecem seu próprio coração; pois “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso”. (Jeremias 17:9). Mas Deus compreende as tendências da natureza depravada do homem. Naquele tempo, como agora, Satanás estava vigilante para acarretar condições favoráveis à rebelião, a fim de que o povo de Israel se tornasse tão aborrecível a Deus como foram os cananeus. O adversário das almas está sempre alerta para abrir canais à torrente livre de males sobre nós; pois deseja que sejamos arruinados e condenados diante de Deus.

Satanás estava decidido a conservar a posse da terra de Canaã; e, quando se tornou ela a habitação dos filhos de Israel, e a lei de Deus se fez a lei do país, ele odiou a Israel com ódio cruel e funesto, e tramou a sua destruição. Pela operação de espíritos maus, deuses estranhos foram introduzidos; e, por causa da transgressão, o povo escolhido foi finalmente disperso da terra da promessa. Esta história Satanás está esforçando para repetir em nosso tempo. Deus está tirando Seu povo das abominações do mundo, a fim de que guardem Sua lei; e, por causa disto, a ira do “acusador de nossos irmãos” não tem limites. 
“O diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo”. (Apocalipse 12:10-12). 
A terra antitípica da promessa está precisamente diante de nós, e Satanás está resolvido a destruir o povo de Deus, e separá-lo de sua herança. O aviso: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Marcos 14:38), nunca foi mais necessário do que hoje.

A palavra do Senhor ao antigo Israel é também dirigida a Seu povo nesta época: 
“Não vos virareis para os adivinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles” (Levítico 19:31); “pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor”. (Deuteronômio 18:12).

(Ellen G. White. Patriarcas e Profetas, p. 503-507)