domingo, 16 de dezembro de 2012

Fernando L. Canale - A Divindade no Antigo Testamento

Na Bíblia, a radical afirmação da unicidade de Deus não determina o conteúdo da natureza divina. Ao associar a unicidade de Deus com a interpretação atemporal de Sua eternidade, a teologia clássica chegou à conclusão de que a natureza de Deus deve ser simples; isto é, não se pode pensar em Deus como tendo partes ou componentes. A simplicidade excluiria qualquer forma de pluralidade ou composição.

Não obstante as vigorosas afirmações da unicidade divina, o pensamento bíblico não concebe a natureza de Deus em termos de simplicidade, mas de complexa pluralidade. A complexidade pessoal do Deus único, claramente articulada no NT, já era expressa pelo AT, embora de maneira muito menos específica. Consideremos algumas das alusões veterotestamentárias à pluralidade pessoal do Deus único, expressas de maneira adicional e definitiva no NT.

Jacó lutando com o Anjo do SENHOR (Gustave Doré, 1855 - Granger Collection, New York) 



O PLURAL DE PLENITUDE E A DIVINDADE

No relato da criação, Deus Se refere a Si mesmo na forma plural. "Também disse Deus: Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança" (Gn 1:26). Outros exemplos ocorrem em outras partes do Gênesis: "Eis que o homem se tornou como um de Nós" (Gn 3:22); "Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem" (Gn 11:7). Por último, "o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono" (Is 6:1) no templo celestial (v. 1-4), revelou-Se a Isaías e manifestou Sua missão ao perguntar: "A quem enviarei, e quem há de ir por Nós?" (v. 8).

Embora outras interpretações tenham sido sugeridas para essas referências às ações divinas no plural, quando se entende que elas são "plurais de plenitude", é possível perceber que "a distinção no Ser divino com referência a uma pluralidade de pessoas é representada aqui como uma ideia embrionária" (Hasel, 65). De si mesmo, então, o emprego da forma plural com relação a Deus aponta para um conceito de divindade em que a simplicidade adotada pela teologia clássica é substituída por um conceito de Divindade única que envolve pluralidade e complexidade.


O ANJO DO SENHOR

Uma linha  mais interessante de evidências que procura esclarecer o conceito veterotestamentário de pluralidade com relação à essência de Deus encontra-se nas diversas passagens que tratam do Anjo do SENHOR. O conceito de mal'ak YHWH incorpora o papel de anjos direcionados para uma missão com a capacidade divina de Se revelar de maneira pessoal, direta e visível, adotando uma forma criada.

Deus tomou, por exemplo, a forma de homem quando Se revelou a Abraão (Gn 18:1-5) e a Jacó (Gn 32:24-30). Em todas as partes da Bíblia, os anjos são seres criados, que não devem receber adoração (Cl 2:18; Ap 19:10). Os seres angélicos tem a tarefa específica de realizar os propósitos específicos de Deus relacionados com a história humana (Hb 1:14).

A designação "anjo do SENHOR" ou "anjo de Deus" é frequentemente empregada com relação a seres angélicos (conferir 2Sm 14:17; 24:16; 1Rs 19:7; 2Re 1:3, 15; 1Cr 21:12, 15, 16). Em algumas ocasiões específicas, porém, o Anjo do SENHOR é equiparado a Yahweh. Em Juízes 2:1-5, o Anjo do SENHOR aparece como Aquele que libertou Israel do Egito e estabeleceu a aliança com os hebreus, enquanto outros textos identificam Yahweh como o agente destes mesmos acontecimentos (Êx 6:6; 13:3; Dt 5:12; 7:19; Js 2:10; 1Rs 8:9).

Deus apareceu pessoalmente a Moisés na sarça ardente. Nessa grandiosa teofania (Êx 3:2-15), apareceu a Moisés "o Anjo do SENHOR numa chama de fogo" (v. 2), mas logo em seguida Yahweh é Aquele que Se revela a Moisés (v. 4, 6). A mesma equiparação direta do Anjo do SENHOR e Yahweh ocorre em outros textos (Gn 16:7-14; 22:9-18; Jz 6:11-24). Quando a equiparação específica do Anjo do SENHOR com Yahweh é compreendida com base nos conceitos bíblicos de eternidade, imutabilidade e presença histórica, salienta-se a capacidade divina de Se apresentar e agir diretamente no âmbito da ordem temporal da história humana.

Embora a equiparação do Anjo do SENHOR com Yahweh não comprove a pluralidade da essência de Deus, prepara, mesmo que indiretamente, o terreno necessário para discernir-se a revelação dual de Yahweh.


A REVELAÇÃO DUAL DE YAHWEH

Em Gênesis 16, o Anjo do SENHOR não somente é considerado por Agar como idêntico a Yahweh (v. 13), mas também o mesmo do Anjo do SENHOR, que é Yahweh, refere-Se a Yahweh na terceira pessoa (v. 11), sugerindo assim a existência de uma diferença possível entre o Anjo do SENHOR que é Yahweh e o próprio Yahweh. Em Êxodo 23, Yahweh promete aos israelitas "enviar um Anjo adiante deles" (v. 20). 

A relação de Israel com esse anjo é muito especial. Israel deve obedecer ao Anjo do SENHOR, que é retratado não como um intermediário entre Yahweh e o povo, mas como a própria fonte de revelação e perdão (v. 21). Por último, Yahweh declara que neste Anjo está o Seu nome (v. 21). O "nome" designa a natureza de Deus, diretamente associada com o nome Yahweh, usado na aliança (Êx 3:14-15). É possível perceber que nessa passagem Yahweh fala de outro [também chamado de] Yahweh, que é o Anjo enviado pelo SENHOR.

Ao falar sobre o domínio do Messias, no Salmo 110:1, Davi apresenta Yahweh dirigindo-Se ao Messias como "Meu Senhor". Jesus, procurando apresentar aos fariseus provas da origem divina do Messias, tiradas do AT, citou essa passagem, na qual Deus Se dirige ao Messias como "Meu Senhor" (Mt 22:44). Ao que parece, o Salmo 110 não apenas sugere a natureza divina do Messias, mas também, ao fazê-lo, revela a existência de uma dualidade de "Senhores". Essa dualidade é desenvolvida anos depois, quando Zacarias, numa visão do Senhor, vê "o sumo sacerdote  Josué, o qual estava diante do Anjo do SENHOR, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor" (Zc 3:1). 

A seguir, o Anjo do SENHOR equiparado com o "Senhor", dirige-se a Satanás: "Mas o Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreenda, ó Satanás" (v. 2). O texto parece sugerir a existência de duas pessoas denominadas de Yahweh, um identificado como o Anjo do SENHOR, responsável por atividades redentivas junto ao povo, e o outro identificado como Deus transcendente.

A pluralidade de Deus - sugerida pela forma plural da palavra hebraica para Deus (Elohim), mais a ideia específica de uma dualidade pessoal entre o Anjo do SENHOR que é Yahweh e o próprio Yahweh - não dissolve o conceito de unicidade de Deus em politeísmo. Pelo contrário, a incipiente revelação da presença de pluralidade na ideia bíblica de Deus deve ser compreendida sobre o fundamento provido da ideia de unicidade.

Desde o princípio, o pensamento bíblico não concorda com a equiparação grega de unicidade com simplicidade, exigida pela interpretação atemporal do ser divino. Baseando-se na interpretação histórica da imanência como comunhão pessoal, o AT concebe a unicidade de Deus não como contraditória, mas como compatível com a pluralidade pessoal e dinâmica da Divindade.

A natureza trinitária de Deus no AT não se expressa de maneira específica e profunda  como acontece no registro do NT. A partir da perspectiva privilegiada da revelação divina em Cristo, fornecida no NT, é possível interpretar  os conceitos sobrepostos de unicidade e pluralidade como alusões veterotestamentárias à doutrina trinitária de Deus. Seja como for, as duas linhas de revelação, a que revela a unicidade de Deus e a que revela pluralidade dentro da unicidade de Deus, não se anulam; pelo contrário, fornecem um pano de fundo apropriado para a surpreendente revelação de Deus trazida pela encarnação.

(Fernando L. Carnale. Doutrina de Deus. in: Tratado de Teologia Adventista, p. 138-1140)