sábado, 17 de novembro de 2012

O grande desapontamento dos adventistas em 1844


Quando passou o tempo em que se esperou pela primeira vez a vinda do Senhor — a primavera de 1844 — os que haviam aguardado o Seu aparecimento acharam-se em perplexidade e dúvida. Muitos continuaram a investigar as Escrituras, examinando de novo as provas de sua fé. As profecias, claras e conclusivas, indicavam a vinda de Cristo como estando próxima. A bênção do Senhor na conversão e reavivamento entre os cristãos testemunhara que a mensagem era do Céu. Entrelaçada com as profecias bíblicas, que haviam considerado como tendo aplicação ao tempo do segundo advento, havia instrução animando-os a esperar pacientemente na fé segundo a qual o que então era obscuro ao seu entendimento, se tornaria claro no devido tempo. Entre essas profecias estava a de Habacuque 2:1-4. Ninguém, contudo, percebeu que a aparente demora — um tempo de tardança — é apresentado na mesma profecia. Após o desapontamento, o texto parecia muito significativo: “A visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não falhará; se tardar, espera-O, porque certamente virá, e não tardará. [...] O justo viverá pela sua fé.”

A profecia de Ezequiel representava também um conforto para os crentes. “Assim diz o Senhor Deus [...]: Os dias estão próximos e o cumprimento de toda profecia. [...] Porque Eu, o Senhor, falarei, e a palavra que Eu falar se cumprirá, e não será retardada.” “A palavra que falei se cumprirá” (Ezequiel 12:23-25, 28).

Os que esperavam se regozijaram. Aquele que conhece o fim desde o princípio lhes dera esperança. Não fossem essas porções das Escrituras, sua fé teria fracassado.



A parábola das dez virgens de Mateus 25 também ilustra a experiência do povo do advento. Aqui se faz referência à igreja que vive nos últimos dias. Sua experiência é ilustrada pelos incidentes de um casamento oriental.
“Então o reino dos Céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo. Cinco dentre elas eram néscias, e cinco prudentes. As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo; no entanto, as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas. E, tardando o noivo, foram todas tomadas de sono, e adormeceram. Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! saí ao seu encontro” (Mateus 25:1-6).

A vinda de Cristo, conforme anunciada pela mensagem do primeiro anjo, era entendida como representada pela vinda do esposo. A reforma espiritual que se generalizou sob a proclamação de Sua segunda vinda correspondeu à saída das virgens. Nessa parábola, todas haviam tomado suas lâmpadas, a Bíblia, e saíram “a encontrar-se com o noivo”. Mas, enquanto as néscias “não levaram azeite consigo”, “as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas”. A última classe tinha estudado as Escrituras a fim de aprender a verdade e possuía uma experiência pessoal, uma fé em Deus que não poderia ser derrotada pelo desapontamento e demora. Outros haviam sido movidos pelo impulso, sendo seus temores provocados pela mensagem. Haviam dependido da fé dos irmãos, satisfeitos com a luz vacilante das boas emoções, sem uma compreensão perfeita da verdade ou uma obra genuína da graça no coração. Estes haviam “saído” para encontrar o Senhor sob a perspectiva de recompensa imediata, mas não se achavam preparados para a demora e desapontamento. Sua fé fracassou.

“Tardando o noivo, foram todas tomadas de sono, e adormeceram.” Pela tardança do noivo é representada a passagem do tempo, o desapontamento, a aparente demora. Aqueles cuja fé se baseava no conhecimento pessoal da Bíblia, tinham sob os pés uma rocha que as ondas do desapontamento não poderiam destruir. “Foram todas tomadas de sono, e adormeceram”, uma classe no abandono de sua fé, a outra aguardando pacientemente até que luz mais clara fosse proporcionada. Os que eram superficiais não poderiam por mais tempo apoiar-se na fé dos irmãos. Cada qual tinha de, por si mesmo, ficar em pé ou cair.


Aparece o fanatismo

Por esse tempo começou a aparecer o fanatismo. Alguns manifestaram zelo fanático. Suas idéias extremadas não encontraram simpatia da grande corporação dos adventistas; serviram, no entanto, para acarretar o opróbrio à causa da verdade.

Satanás estava perdendo seus súditos e, no intuito de acarretar a ignomínia à causa de Deus, procurou enganar alguns que haviam professado a fé, levando-os a extremos. Seus agentes estavam a postos para apanhar todo erro, todo ato indecoroso, e apresentá-lo exageradamente ao povo, a fim de tornar odiosos os adventistas. Quanto maior fosse o número dos que professassem a fé no advento, ao mesmo tempo que seu poder lhes controlasse o coração, tanto maior a vantagem que obteria.

Satanás é o “acusador dos irmãos” (Apocalipse 12:10). Seu espírito inspira os homens a espreitar os erros e defeitos do povo do Senhor, conservando-os sob observação, enquanto deixa ignoradas as suas boas obras.

Nenhuma reforma, em toda a história da igreja, foi levada avante sem encontrar sérios obstáculos. Onde quer que o apóstolo Paulo fundasse uma igreja, alguns que professavam receber a fé introduziam heresias. Lutero também sofreu grande angústia causada por pessoas fanáticas que pretendiam ter recebido comunicações diretamente de Deus, e que posicionavam suas idéias acima das Escrituras. Muitos eram seduzidos pelas pretensões dos novos ensinadores e uniam-se aos agentes de Satanás na obra de derrubar o que Deus levara Lutero a edificar. Os irmãos Wesley enfrentaram os ardis de Satanás, que consistiam em arrastar pessoas desequilibradas e profanas a excessos de fanatismo.

Guilherme Miller não alimentava simpatias para com o fanatismo. “O diabo”, disse ele, “tem presentemente grande poder sobre a mente de alguns.” “Tenho muitas vezes obtido mais provas de uma piedade interior por meio de um olhar iluminado, um rosto umedecido, uma fala embargada, do que de todo o ruído da cristandade” (Bliss, p. 236, 237).

Na Reforma os seus inimigos atribuíam todos os males do fanatismo contra os mesmos que estavam a trabalhar com todo afã a fim de combatê-lo. Idêntico procedimento foi adotado pelos oponentes do movimento adventista. Não contentes em exagerar os erros dos extremistas, faziam circular boatos desfavoráveis que não tinham os mais leves traços de verdade. Sua paz se perturbava pela proclamação de que Cristo estava às portas. Temiam que fosse verdade, embora esperassem que não fosse. Este era o segredo da luta que moviam contra os adventistas.

O anúncio da mensagem do primeiro anjo tendia diretamente a reprimir o fanatismo. Os que participavam desses solenes movimentos estavam em harmonia; seu coração se enchia com o amor de uns para com os outros e para com Jesus, a quem esperavam ver brevemente. Uma só fé, uma só esperança demonstravam-se um escudo contra os assaltos de Satanás.


Correção do equívoco

 — “Tardando o noivo, foram todas tomadas de sono, e adormeceram. Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! saí ao seu encontro.” No verão de 1844 a mensagem foi proclamada nas próprias palavras empregadas pelas Escrituras.


A morte do cordeiro pascal era sombra da morte de Cristo, e este símbolo se cumprira, não somente quanto ao acontecimento, mas também quanto ao tempo. No dia catorze do primeiro mês judaico, no mesmo dia e mês em que, durante séculos o cordeiro pascal havia sido morto, Cristo instituiu a solenidade que deveria comemorar Sua própria morte como o “Cordeiro de Deus”. Naquela mesma noite Ele foi apanhado a fim de ser crucificado e morto.

De igual maneira, os tipos que se referem ao segundo advento devem cumprir-se ao tempo designado pelo serviço simbólico. A purificação do santuário, ou Dia da Expiação, ocorria no décimo dia do sétimo mês judaico, quando o sumo sacerdote, havendo efetuado expiação por todo o Israel — e assim removido seus pecados do santuário — saía e abençoava o povo. Desse modo, cria-se que Cristo apareceria para purificar a Terra pela destruição de pecado e pecadores, e glorificar com a imortalidade o Seu povo expectante. O décimo dia do sétimo mês, o grande Dia da Expiação, tempo da purificação do santuário, que em 1844 caía no dia 22 de Outubro, foi considerado como o tempo da vinda do Senhor. Os 2.300 dias terminariam no outono, e a conclusão parecia irresistível.


O clamor da meia-noite

Os argumentos produziram forte convicção, e o “clamor da meia-noite” foi proclamado por milhares de crentes. Semelhante à vaga da maré, o movimento alastrou-se de cidade em cidade, de vila em vila. O fanatismo desapareceu como a geada matutina diante do Sol a erguer-se. A obra assemelhava-se aos períodos de retorno ao Senhor que, entre o antigo Israel, se seguiam a mensagens de advertência por parte de Seus servos. Houve pouca alegria arrebatadora, porém mais profundo exame de coração, confissão de pecados e abandono do mundo. Houve irrestrita consagração a Deus.

De todos os grandes movimentos religiosos desde os dias dos apóstolos, nenhum foi mais livre de imperfeições humanas e dos enganos de Satanás do que o do outono de 1844.

Ao chamado: “Eis o noivo!”, os expectantes “se levantaram [...] e prepararam suas lâmpadas”; estudaram a Palavra de Deus com interesse mais profundo do que nunca. Não foram os mais talentosos, e sim os mais humildes e devotos, que se contaram entre os primeiros a obedecer ao chamado. Lavradores deixaram as colheitas no campo e mecânicos depuseram as ferramentas, saindo para dar a advertência. De modo geral as igrejas fecharam as portas a esta mensagem, e numeroso grupo dos que a receberam cortou sua ligação com elas. Os incrédulos que se congregaram nas reuniões adventistas sentiram o poder convincente que acompanhava a mensagem: “Eis o noivo!” A fé atraía resposta à oração. Como aguaceiros sobre a terra sedenta, o espírito de graça descia sobre os pesquisadores sinceros. Os que esperavam em breve estar face a face com seu Redentor sentiam solene alegria. O Espírito Santo sensibilizava os corações.

Os que receberam a mensagem chegaram ao tempo em que esperavam encontrar-se com o Senhor. Oravam muito uns com os outros. Reuniam-se muitas vezes em lugares isolados a fim de ter comunhão com Deus, e vozes de intercessão ascendiam aos Céus a partir de campos e bosques. A certeza da aprovação do Salvador, para eles, era mais necessária do que o alimento cotidiano, e se alguma nuvem escurecia seu espírito, não descansavam enquanto não fosse dissipada pela graça perdoadora.


Novamente o desapontamento

Contudo, uma vez mais passou o tempo de expectação e o Salvador não apareceu. Agora experimentavam o mesmo sentimento de Maria quando, indo ao túmulo do Salvador e encontrando-o vazio, exclamou em prantos: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde O puseram” (João 20:13).

O receio de que a mensagem pudesse ser verdadeira serviu de restrição ao mundo incrédulo. Mas, como não se vissem sinais da ira de Deus, recuperaram-se de seus temores e retomaram a difamação e o ridículo. Numerosa classe que havia professado crer, agora renunciou à fé. Os escarnecedores ganharam para suas fileiras os fracos e covardes, e todos estes se uniram para declarar que o mundo permaneceria o mesmo por milhares de anos.

Os crentes fervorosos e sinceros haviam abandonado tudo por Cristo e, conforme acreditavam, tinham dado a última advertência ao mundo. Com intenso desejo haviam orado: “Vem, Senhor Jesus.” Agora, reassumir o fardo dos cuidados e perplexidades da vida e suportar as zombarias de um mundo escarnecedor, representava uma prova terrível.

Quando Jesus cavalgou triunfantemente para Jerusalém, Seus seguidores acreditavam estar Ele prestes a ascender ao trono de Davi e libertar Israel dos opressores. Cheios de esperança, muitos estendiam suas vestes como um tapete no caminho de Cristo, ou, à Sua passagem, cobriam o solo com viçosos ramos de palmeira. Os discípulos estavam cumprindo o propósito de Deus, não obstante aguardava-os amargo desapontamento. Apenas decorridos alguns dias, tiveram de testemunhar a morte agonizante do Salvador, e conduzi-Lo à tumba. Suas esperanças morreram com Jesus. Antes de o Salvador triunfar sobre a sepultura, eles não puderam perceber que tudo havia sido predito pela profecia.


Mensagens apresentadas no tempo correto

De igual maneira, Miller e seus colaboradores cumpriram a profecia e proclamaram a mensagem que a Inspiração predisse que deveria ser apresentada ao mundo. Não o teriam feito, contudo, se tivessem compreendido completamente as profecias que indicavam seu desapontamento e outra mensagem a ser pregada a todas as nações antes que o Senhor viesse. As mensagens do primeiro e do segundo anjos foram dadas no tempo devido e cumpriram a obra a que foram designadas por Deus.

O mundo ficou na expectativa de que, se o tempo passasse e Cristo não aparecesse, todo o sistema adventista desapareceria. Mas, embora muitos deixassem a fé, alguns permaneceram firmes. Os frutos do movimento adventista — o espírito de exame do coração, a renúncia ao mundo e a reforma de vida — testificavam que ele procedia de Deus. Não ousavam negar que o Espírito Santo acompanhara a pregação do segundo advento. Não conseguiam perceber qualquer erro nos períodos proféticos. Seus oponentes não haviam conseguido subverter-lhes o sistema de interpretação profética. Não poderiam consentir em renunciar às posições alcançadas por intermédio de ardoroso e devoto estudo das Escrituras, feito por mentes iluminadas pelo Espírito de Deus e corações ardentes de Seu vivo poder, posições que haviam permanecido firmes diante do saber e da eloqüência.

Os adventistas acreditavam que Deus os levara a dar a advertência do juízo. Diziam eles: “O aviso provou o coração de todos os que o ouviram, despertando interesse pelo aparecimento do Senhor [...] de modo que todos os que examinassem o próprio coração soubessem de que lado teriam sido encontrados se o Senhor tivesse vindo — se teriam exclamado: ‘Eis que Este é o nosso Deus, a quem aguardávamos, e Ele nos salvará’, ou se teriam pedido às rochas e montanhas que caíssem sobre eles e os escondessem da face dAquele que estava assentado sobre o trono!” (The Advent Herald and Signs of the Times Reporter, v. 8, n 14 (13/11/1844)).

O sentimento daqueles que ainda criam que Deus os havia guiado é expresso pelas palavras de Guilherme Miller: 
“Minha esperança na vinda de Cristo é tão firme como sempre. Fiz apenas aquilo que, depois de anos de solene consideração, compreendi ser meu dever fazer.” “Muitos milhares, segundo a aparência humana, foram levados a estudar as Escrituras pela pregação da profecia do tempo; e por esse meio, mediante a fé e aspersão do sangue de Cristo, foram reconciliados com Deus” (Bliss, p. 256, 255, 277, 280, 281).

Crença mantida

O Espírito de Deus ainda permaneceu com aqueles que não negaram temerariamente a luz que haviam recebido, nem acusaram o movimento adventista. 
“Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque ainda dentro de pouco tempo Aquele que vem virá, e não tardará; todavia, o Meu justo viverá pela fé e, se retroceder, nele não se compraz a Minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hebreus 10:35-39).

Essa admoestação é dirigida à igreja nos últimos dias. Subentende-se claramente que haveria uma aparente tardança. O povo, a que a passagem aqui se refere, havia feito a vontade de Deus, seguindo a orientação de Seu Espírito e de Sua Palavra; não podiam, contudo, entender Seu propósito na experiência passada. Eram tentados a duvidar de que Deus efetivamente os estivesse conduzindo. A esse tempo eram aplicáveis as palavras: “O Meu justo viverá pela fé.” Abatidos por verem frustradas as esperanças, unicamente pela fé em Deus e em Sua Palavra poderiam permanecer em pé. Renunciar então à fé e negar o poder do Espírito Santo, que tinha acompanhado a mensagem, seria recuar para a perdição. A única maneira segura de proceder era acariciar a luz já recebida de Deus, prosseguir no exame das Escrituras e aguardar paciente e vigilantemente, pelo recebimento de luz adicional.

(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 175-180)