domingo, 14 de outubro de 2012

Fernando L. Canale - A unicidade de Deus

Não há na Bíblia um lugar específico em que se examine toda a doutrina de Deus. A teologia propriamente dita é desenvolvida seguindo-se o relato histórico das intervenções e revelações pessoais de Deus no texto sagrado. A doutrina da Trindade, que é o centro da doutrina de Deus em particular e da teologia cristã em geral, não constitui exceção.

Mas quando Deus Se revelou em Jesus Cristo, um conhecimento da natureza trinitária de Deus se tornou necessário para a igreja cristã. A encarnação de Jesus Cristo envolveu mais do que a habitação de Deus com a humanidade; ela trouxe consigo conhecimento sobre o Pai e o Espírito Santo como pressuposto necessário para uma compreensão apropriada da encarnação de Jesus Cristo, da cruz, da ressurreição e do ministério celestial.

O fato de a natureza trinitária da Divindade se tornar conhecida mediante a encarnação não significa que ela não tivesse existido antes ou que não estivesse diretamente envolvida na obra da salvação. Visto que Deus é eterno e imutável, Sua natureza trinitária nunca se alterou nem passou a existir.

Voltaremos agora a atenção para o ensino bíblico da Trindade. As teorias e as doutrinas teológicas sobre a Trindade, geradas pela infeliz combinação entre dados bíblicos e ideias filosóficas, serão analisadas na seção histórica. Porém, antes de examinar especificamente os dados revelados sobre a encarnação, é necessário considerar o conceito bíblico da unicidade de Deus e as alusões veterotestamentárias à pluralidade do ser divino.


EVIDÊNCIA NO ANTIGO TESTAMENTO

A "unicidade" de Deus diz respeito à singularidade do ser divino. Ou seja, a "unicidade" de Deus designa o fato de que, segundo a Bíblia, existe um único Deus, em contraste com mais de um. A clássica declaração do AT sobre a unicidade de Deus, também seguida por algumas no NT, proclama que Deus é um: "Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR" (Dt 6:4). Moisés, porém, já havia explicado que "só o SENHOR é Deus" e que "nenhum outro há" (Dt 4:39).

Quando Davi soube que seria renovada a promessa pactual feita com o SENHOR, louvou a Deus e reconheceu: "Não há outro Deus além de Ti" (2Sm 7:22; 1Cr 17:20). Por intermédio do profeta Isaías, o próprio YAHWEH [no original hebraico YHWH] intimou Israel a Lhe reconhecer a exclusividade. Disse Ele: "Sou Eu mesmo, e que antes de Mim deus nenhum se formou, e depois de Mim nenhum haverá" (Is 43:10; cf. 42:8). O que se deduz desses textos é que, de acordo com o AT, só existe um Deus absoluto tanto para Israel como para toda a criação. Essas declarações nada falam, porém, sobre a natureza interior do único Deus absoluto.


EVIDÊNCIA DO NOVO TESTAMENTO

Apesar de Deus haver revelado de maneira surpreendente a complexidade interna do Seu ser através da pessoa de Jesus Cristo, a concepção básica de um Deus uno, já expressa nos tempos do Antigo Testamento, é mantida em todas as partes do NT. 

O próprio Jesus, quando perguntado qual era o principal mandamento, remeteu Seus ouvintes a Dt 6:4: "O principal é: "Ouve, ó Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR" (Mc 12:29). Discutindo a função da lei em sua carta aos gálatas, Paulo afirma categoricamente que "Deus é um" (Gl 3:20). Por último, Tiago afirma também que "Deus é um só" (Tg 2:19).

A ideia veterotestamentária da unicidade de Deus permanece inalterada no NT. YAHWEH, Deus de Israel, é o Deus da cristandade. Ele é o único Deus. Não há outro. Às vezes "unicidade" pode ter o sentido de unidade (por exemplo, João 10:30; 17:21, 23). 

["Eu e o Pai somos um" (João 10:30. "A fim de que todos sejam um; e como és Tu, ó Pai, em Mim e Eu em Ti, também sejam eles em Nós" (João 17:21). "Eu neles, e Tu em Mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade" (João 17:23).]

Mas se a "unicidade" expressa nesses textos for concebida apenas como um conjunto de "unicidades" independentes que se reúnem para formar a unidade, a singularidade específica, característica da Divindade única a respeito da qual testificam esses versos, acaba se dissolvendo em uma pluralidade de deuses.

A unicidade de Deus desempenha papel decisivo e sistemático na determinação do referente para as revelações bíblicas sobre Deus. Ou seja, visto que o Deus da Bíblia é um e não muitos, todas as diversas revelações sobre Ele, apresentadas ao longo da Bíblia, referem-se à mesma realidade divina, e não a uma pluralidade de seres divinos.

(Fernando L. Carnale. Doutrina de Deus. in: Tratado de Teologia Adventista, p. 137-138)