segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A verdade avança na Grã-Bretanha


William Tyndale
Enquanto Lutero abria ao povo da Alemanha uma Bíblia até então fechada, [William] Tyndale era impelido pelo Espírito de Deus a fazer o mesmo na Inglaterra. A Bíblia de Wycliffe havia sido traduzida do texto latino, que continha muitos erros. O custo de cópias manuscritas era tão elevado que houve apenas uma circulação restrita.

Em 1516 o Novo Testamento foi impresso pela primeira vez no idioma original grego. Muitos erros das versões anteriores foram corrigidos, dando-se mais clareza ao texto. Isto levou muitos dentre as classes mais cultas a compreender melhor a verdade e deu novo impulso à obra da Reforma. Mas o povo comum ainda estava, em grande parte, privado da palavra de Deus. Tyndale deveria completar a obra de Wycliffe, dando a Bíblia a seus compatriotas.

Destemidamente ele pregou suas convicções. À pretensão romanista de que a igreja dera a Bíblia, e de que somente ela a poderia explicar, respondeu Tyndale: 
“Longe de nos haverdes dado as Escrituras, sois vós que a tendes escondido de nós; sois vós que queimais os que as ensinam e, se pudésseis, queimaríeis as próprias Escrituras” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 18, cap. 4).

A pregação de Tyndale despertou grande interesse. Mas os padres se esforçaram para destruir sua obra. “Que se deve fazer?” exclamava ele. 
“Não posso estar em toda parte. Oh! se os cristãos possuíssem as Sagradas Escrituras em sua própria língua, poderiam por si mesmos resistir a esses sofismas. Sem a Bíblia é impossível firmar o leigo na verdade” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 18, cap. 4).

Novo propósito toma posse então de seu espírito. “Não falará o evangelho a língua da Inglaterra entre nós? [...] Deveria a igreja ter menos luz ao meio-dia do que à aurora? [...] Os cristãos devem ler o Novo Testamento em sua língua materna” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 18, cap. 4). Apenas pela Bíblia poderiam os homens chegar à verdade.

Um erudito católico, em controvérsia com ele, exclamou: “Seríamos melhores estando sem as leis de Deus do que sem as do papa.” Tyndale respondeu: 
“Desafio o papa e todas as suas leis; e, se Deus poupar minha vida, dentro em pouco farei com que um rapaz que conduz o arado saiba mais das Escrituras do que vós” (Anderson, Annals of the English Bible (edição revista; 1862), p. 19).

Tyndale traduz o Novo Testamento em inglês

Expulso de casa pela perseguição, foi a Londres, e ali prosseguiu por algum tempo em seus labores, sem ser molestado. Mas de novo os romanistas o obrigaram a fugir. Toda a Inglaterra parecia fechar-se contra ele. Na Alemanha começou a imprimir o Novo Testamento. Quando proibido de imprimir numa cidade, ia para outra. Finalmente tomou o caminho de Worms onde, poucos anos antes, Lutero havia defendido o evangelho perante a Dieta. Naquela cidade havia muitos amigos do reformador. Três mil exemplares do Novo Testamento foram logo concluídos, e seguiu-se outra edição.

A Palavra de Deus foi secretamente levada para Londres e circulou por todo o país. Os romanistas tentaram suprimir a verdade, mas em vão. O bispo de Durham comprou de um livreiro todo o seu estoque de Bíblias com o propósito de destruí-las, supondo que desta forma embaraçaria a obra. Mas o dinheiro assim obtido foi usado para a compra de material para uma nova e melhor edição. Quando mais tarde Tyndale foi preso, foi-lhe oferecida a liberdade sob a condição de revelar os nomes dos que o haviam auxiliado a enfrentar as despesas com a impressão de Bíblias. Ele respondeu que o bispo de Durham fizera mais do que qualquer outra pessoa ao pagar elevado preço pelos livros deixados em seu poder.

Tyndale finalmente testemunhou de sua fé mediante a morte de mártir; mas as armas que preparou habilitaram outros soldados a batalhar por todos os séculos, chegando mesmo ao nosso tempo.

[Hugh] Latimer sustentava do púlpito que a Bíblia deveria ser lida na língua do povo. 
“Não tomemos quaisquer atalhos, mas dirija-nos a Palavra de Deus; não andemos segundo nossos antepassados, nem busquemos saber o que fizeram, mas sim o que deveriam ter feito” (Hugh Latimer, “First Sermon Preached Before King Edward VI.”).

Barnes e Frith, Ridley e Cranmer, líderes da Reforma na Inglaterra, eram homens de saber, grandemente estimados pelo zelo e piedade na comunhão romana. Sua oposição ao papado resultou de seu conhecimento dos erros da “Santa Sé”.


Infalível autoridade das Escrituras

O grande princípio mantido por aqueles reformadores — o mesmo que fora sustentado pelos valdenses, por Wycliffe, Huss, Lutero, Zuínglio e pelos que a eles se uniram — foi a autoridade infalível das Escrituras. Por seus ensinos provavam todas as doutrinas e todas as reivindicações. A fé na Palavra de Deus sustentava aqueles homens santos ao renderem a vida na fogueira. “Consola-te”, exclamou Latimer a seu companheiro de martírio, quando as chamas estavam a ponto de fazer silenciar-lhes a voz; 
“Acenderemos neste dia na Inglaterra uma luz que, pela graça de Deus, espero que jamais se apague” (Work of Hugh Latimer, v. 1, p. xiii.).

Durante séculos, depois que as igrejas da Inglaterra se submeteram a Roma, as da Escócia mantiveram sua liberdade. No décimo segundo século, contudo, o papado estabeleceu-se ali, e em nenhum país foram mais densas as trevas. Todavia, ali chegaram raios de luz penetrando a escuridão. Os lolardos, vindos da Inglaterra com a Bíblia e os ensinos de Wycliffe, fizeram muito para preservar o conhecimento do evangelho. Com a inauguração da Reforma, vieram os escritos de Lutero e o Novo Testamento redigido por Tyndale. Esses mensageiros atravessaram silenciosamente as montanhas e vales, reacendendo o facho da verdade prestes a extinguir-se, e desfazendo a obra que quatro séculos de opressão haviam realizado.

Os chefes romanistas, apercebendo-se subitamente do perigo que ameaçava a sua causa, levaram à fogueira alguns dos mais nobres dentre os filhos da Escócia. Aquelas moribundas testemunhas, por todo o país, fizeram o coração do povo vibrar no propósito firme de se libertar das algemas de Roma.


João Knox

Hamilton e Wishart, ao lado de grande número de discípulos mais humildes, renderam a vida na fogueira. Mas de junto da pira ardente de Wishart veio alguém a quem as chamas não reduziriam ao silêncio, alguém que, abaixo de Deus, vibraria o golpe de morte ao domínio papal, na Escócia.

João Knox desviara-se das tradições da igreja para alimentar-se das verdades da Palavra de Deus. Os ensinos de Wishart haviam confirmado sua determinação de abandonar Roma e unir-se aos reformadores perseguidos.

Havendo seus companheiros insistido em que ele pregasse, tremeu diante da responsabilidade. Foi somente depois de dias de intenso conflito que consentiu. Mas, uma vez aceito o cargo, foi avante com inflexível coragem. Este genuíno reformador não temia a face do homem. Quando posto face a face com a rainha da Escócia, João Knox não foi ganho por meio de afagos; não se subjugou diante de ameaças. Ele havia ensinado o povo a receber uma religião proibida pelo Estado, declarou ela, e desta forma transgredira o mandamento de Deus, que ordena aos súditos obedecer a seus príncipes. Knox respondeu com firmeza: 
“Se toda a semente de Abraão houvesse sido da religião de Faraó, de quem foram súditos durante muito tempo, pergunto-vos, senhora, que religião teria havido no mundo? Ou se todos os homens nos dias dos apóstolos houvessem sido da religião dos imperadores romanos, que religião teria havido sobre a face da Terra?”

Disse Maria: “Interpretais as Escrituras de uma maneira, e eles [os ensinadores católicos] interpretam-nas de outra; a quem deverei crer, e quem será juiz?”

“Crereis em Deus, que fala claramente em Sua Palavra”, respondeu o reformador. [...] “A Palavra de Deus é clara por si mesma; e se aparecer qualquer ambigüidade em algum lugar, o Espírito Santo, que nunca é contrário a Si mesmo, em outros lugares explica a mesma coisa de maneira mais clara” (David Laing, The Collected Works of John Knox, v. 2, p. 281, 284.).

Com intrépida coragem o destemido reformador, sob risco da própria vida, manteve seu propósito, até que a Escócia ficou livre do papado.

Na Inglaterra, o estabelecimento do protestantismo como religião nacional diminuiu a perseguição, mas não a deteve completamente. Conservaram-se não poucas das formas de Roma. Foi rejeitada a supremacia do papa, mas em seu lugar o monarca foi entronizado como cabeça da igreja. Ainda havia amplo desvio da pureza do evangelho. A liberdade religiosa ainda não fora compreendida. Ainda que só raramente os governadores protestantes recorressem às horríveis crueldades que Roma empregava, o direito de cada homem adorar a Deus segundo os ditames de sua própria consciência não era ainda reconhecido. Os dissidentes foram perseguidos durante centenas de anos.


Destituição de milhares de pastores

No século 17, milhares de pastores foram destituídos e o povo foi proibido de assistir a qualquer reunião religiosa exceto às que eram sancionadas pela Igreja. Na profundidade agasalhadora da floresta, aqueles perseguidos filhos do Senhor se congregavam para apresentar sua oração e seu louvor. Muitos sofreram pela fé. As cadeias ficaram repletas, famílias foram divididas. Mas a perseguição não conseguia fazer silenciar seu testemunho. Muitos partiram para a América, através do Oceano, e ali lançaram os fundamentos da liberdade civil e religiosa.

Num calabouço repleto de criminosos, João Bunyan respirava a atmosfera do Céu e escreveu sua maravilhosa alegoria do peregrino, viajando da terra da destruição para a cidade celestial. O Peregrino e Graça Abundante ao Principal dos Pecadores têm guiado muitos à senda da vida.

Em tempo de grandes trevas espirituais, Whitefield e os irmãos Wesley apareceram como portadores da luz de Deus. Sob o domínio da igreja estabelecida, o povo havia caído num estado que dificilmente se distinguia do paganismo. As classes mais elevadas zombavam da piedade; as classes mais baixas eram abandonadas ao vício. A igreja não possuía coragem ou fé para apoiar a esmorecida causa da verdade.


Justificação pela fé

A grande doutrina da justificação pela fé, tão claramente ensinada por Lutero, fora quase inteiramente perdida de vista. O princípio romanista da confiança nas boas obras para a salvação tomou seu lugar. Whitefield e os Wesley buscavam sinceramente o favor de Deus. Isto, segundo lhes fora ensinado, deveria ser conseguido mediante vida virtuosa e pela observância das ordenanças da religião.

Quando Carlos Wesley certa vez caiu enfermo e previu a aproximação da morte, foi interrogado sobre aquilo em que depositava a esperança de vida eterna. Sua resposta: 
“Tenho empregado meus melhores esforços para servir a Deus.” O amigo pareceu não ficar completamente satisfeito com a resposta. Wesley pensou: “Pois quê? [...] Despojar-me-ia ele de meus esforços? Nada mais tenho em que confiar” (John Whitehead, Life of the Rev. Charles Wesley, p. 102). 

Tais eram as densas trevas que haviam baixado sobre a igreja, desviando os homens de sua única esperança de salvação — o sangue do Redentor crucificado.

Wesley e seus companheiros foram levados a ver que a lei de Deus se estende tanto aos pensamentos quanto às palavras e ações. Com oração e diligentes esforços aplicavam-se a subjugar os males do coração natural. Viviam vida de renúncia e humilhação, observando com exatidão todas as medidas que julgavam poder ser um auxílio para obter aquela santidade que lhes asseguraria o favor de Deus. Mas foram vãos os seus esforços em libertar a si mesmos da condenação do pecado ou em quebrar seu poder.

Os fogos da verdade divina, quase extintos sobre os altares do protestantismo, deveriam reacender-se do antigo facho legado pelos cristãos boêmios. Alguns destes, encontrando refúgio na Saxônia, mantiveram a antiga fé. Destes cristãos foi que a luz chegou a Wesley.

João e Carlos foram enviados em missão à América. A bordo do navio havia um grupo de morávios. Violentas tempestades acossaram-nos na travessia, e João, posto face a face com a morte, sentiu que não tinha a certeza de paz com Deus. Os alemães manifestavam uma calma e confiança que lhe eram estranhas. 
“Muito tempo antes”, disse ele, “eu já havia observado a grande seriedade de sua conduta. [...] Houve então uma oportunidade para provar se eram movidos pelo espírito do temor, ou de orgulho, ira e vingança. Em meio ao salmo com que iniciaram seu culto, o mar enfureceu-se, reduzindo a pedaços a vela principal, cobrindo o navio e derramando-se pelos conveses como se o grande abismo já nos houvesse tragado. Terrível alarido surgiu entre os ingleses. Os alemães continuaram calmamente a cantar. Perguntei a um deles depois: ‘Vocês não ficaram com medo?’ Ele respondeu: ‘Não, graças a Deus.’ Perguntei: ‘Mas, e as mulheres e crianças não ficaram com medo?’ Ele respondeu brandamente: ‘Não, nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer’” (John Whitehead, Life of the Rev. Charles Wesley, p. 10)

O coração de Wesley é “estranhamente aquecido”

Ao voltar para a Inglaterra, Wesley chegou a um entendimento mais claro da fé bíblica, sob a instrução de um morávio. Numa reunião da Sociedade Morávia de Londres, foi lida uma declaração de Lutero. Enquanto Wesley ouvia, acendeu-se a fé em seu coração. 
“Senti o coração aquecido de maneira estranha”, disse ele. “Senti que confiava em Cristo, e em Cristo somente, para a salvação; e foi-me concedida certeza de que Ele tirara os meus pecados, sim, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte” (John Whitehead, Life of the Rev. Charles Wesley, p. 52)

Ele encontrara agora a graça que labutara por alcançar pelas orações e jejuns, obras de caridade e abnegação; era ela um dom, “sem dinheiro e sem preço”. Seu coração ardia com o desejo de espalhar por toda parte o conhecimento do glorioso evangelho da livre graça de Deus. 
“Considero o mundo todo minha paróquia”, disse ele; “em qualquer parte em que me encontre, julgo próprio, justo e de meu dever indeclinável, declarar a todos os que desejam ouvir, as alegres novas da salvação” (John Whitehead, Life of the Rev. Charles Wesley, p. 74)

Continuou em sua vida austera e abnegada, agora não mais como a base, e sim como o resultado da fé; não como raiz, mas como o fruto da santidade. A graça de Deus em Cristo será manifestada em obediência. A vida de Wesley foi dedicada à pregação das grandes verdades que recebera — justificação pela fé no sangue expiatório de Cristo e no poder renovador do Espírito Santo operando no coração, produzindo frutos em uma vida de conformidade com o exemplo de Cristo.

Whitefield e os Wesley foram desdenhosamente chamados de “metodistas” por seus descrentes colegas de estudo — um nome atualmente considerado honroso. O Espírito Santo compelia-os a pregar a Cristo, e a Ele crucificado. Milhares se converteram verdadeiramente. Era necessário que essas ovelhas fossem protegidas dos lobos devoradores. Wesley não tinha intenção de formar uma nova denominação, mas organizou os conversos no que se chamou a União Metodista.

Misteriosa e probante foi a oposição que esses pregadores encontraram de parte da igreja estabelecida — entretanto a verdade teve entrada onde as portas teriam de outra forma permanecido fechadas. Alguns do clero despertaram de sua letargia moral e se tornaram zelosos pregadores em suas próprias paróquias.

Nos dias de Wesley, homens de diferentes dons não se harmonizaram em todos os pontos de doutrina. As diferenças entre Whitefield e os Wesley ameaçaram certa vez estabelecer separação, mas como aprenderam a humildade na escola de Cristo, o perdão e a caridade mútuos os reconciliaram. Não tinham tempo para discutir enquanto o erro e a iniquidade proliferavam por toda parte.


Wesley escapa da morte

Homens de influência empregaram suas capacidades contra eles. Muitos dentre o clero manifestaram decidida hostilidade, e as portas das igrejas fecharam-se contra a fé pura. O clero, denunciando-os do púlpito, suscitou os elementos das trevas e iniquidade  Reiteradas vezes João Wesley escapou da morte por um milagre da misericórdia de Deus. Quando parecia não haver meio de escape, um anjo em forma humana vinha a seu lado, a plebe recuava, e o servo de Cristo saía em segurança do lugar de perigo.

De seu livramento em uma dessas ocasiões, disse Wesley: 
“Embora muitos se esforçassem por lançar mão de meu colarinho e vestes, para arrojar-me por terra, não puderam de maneira nenhuma firmar-se; apenas um segurou firme a aba de meu colete, que logo lhe ficou na mão; a outra aba, em cujo bolso havia uma nota de banco, foi rasgada apenas pela metade. [...] Um homem robusto, bem atrás, me bateu várias vezes com uma grossa vara de carvalho, com a qual, caso tivesse me acertado uma única vez, na parte posterior da cabeça, teria se poupado de maiores esforços. Mas todas as vezes as pancadas se desviaram para o lado, não sei como; pois não podia mover-me nem para a direita, nem para a esquerda” (John Wesley, Works, v. 3, p. 297, 298.).

John Wesley
Os metodistas daqueles dias suportaram ridículo e perseguição, e muitas vezes até mesmo violência. Em alguns casos, avisos públicos eram afixados, convocando os que desejavam ajudar a quebrar as janelas e saquear as casas metodistas, a se reunirem em determinado tempo e lugar. Promovia-se perseguição sistemática contra um povo cuja única falta era a de procurar conduzir os pecadores para a senda da santidade.

O declínio espiritual ocorrido na Inglaterra precisamente antes do tempo de Wesley foi em grande parte o resultado do ensino segundo o qual Cristo abolira a lei moral e os cristãos não mais se acham sob a obrigação de guardá-la. Outros declaravam não ser necessário que os ministros exortassem à obediência de seus preceitos, uma vez que aqueles a quem Deus elegera para a salvação “seriam, pelo impulso irresistível da graça divina, levados à prática da piedade e virtude”, ao passo que os que estavam destinados à condenação eterna “não tinham força para obedecer à lei divina”.

Outros, sustentando que “os eleitos não podem cair da graça, nem privar-se do favor divino”, chegavam à conclusão ainda mais horrível de que “as ações ímpias que cometem não são realmente pecaminosas [...] e que em conseqüência não têm motivo quer para confessar os pecados, quer para romper com os mesmos pelo arrependimento” (McClintock & Strong, Cyclopedia, art. “Antinomians”). Declaravam, portanto, que mesmo um dos mais vis pecados, “universalmente considerado como violação enorme da lei divina, não é pecado à vista de Deus”, se cometido por um dos eleitos de Deus. “Estes não podem fazer coisa alguma que seja desagradável a Deus ou proibida pela lei.”

Essas monstruosas doutrinas são essencialmente as mesmas que o ensino posterior de que não há lei divina imutável como norma do que é reto, mas que a moralidade é indicada pela própria sociedade e está constantemente sujeita a mudança. Todas essas idéias são inspiradas por aquele que mesmo entre os habitantes celestiais, sem pecado, iniciou sua obra de procurar derrubar as justas restrições da lei de Deus.

A doutrina dos decretos divinos, que fixam inalteravelmente o caráter dos homens, havia conduzido muitos à rejeição da lei de Deus. Wesley se opôs perseverantemente a esta doutrina, que conduz ao antinomismo [doutrina que afirmava ser a fé e não os atos, a única condição da salvação]. “A graça de Deus trouxe salvação a todos os homens.” “Deus nosso Salvador [...] quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem, o qual Se deu a Si mesmo em preço de redenção por todos.” Cristo, “a luz verdadeira [...] ilumina a todo homem” (Tito 2:11; 1 Timóteo 2:3-6; João 1:9). Os homens decaem da salvação pela recusa voluntária da luz da vida.


Em defesa da lei de Deus

Em resposta à alegação de que pela morte de Cristo o Decálogo foi abolido, juntamente com a lei cerimonial, Wesley disse: 
“A lei moral, contida nos Dez Mandamentos e encarecida pelos profetas, Cristo não aboliu. Ela é uma lei que jamais poderá ser destruída, que permanece firme como fiel testemunha do Céu.”

Wesley advogou a perfeita harmonia entre lei e evangelho. 
“Por um lado a lei nos abre continuamente caminho para o evangelho; por outro, o evangelho continuamente nos conduz ao cumprimento mais exato da lei. A lei, por exemplo, exige de nós amar a Deus e ao próximo, sermos mansos, humildes e santos. Sentimos não ser capazes destas coisas; [...] mas vemos a promessa de que Deus nos concederá esse amor, e nos fará humildes, mansos e santos; lançamos mão deste evangelho, destas alegres novas; [...] e ‘a justiça da lei se cumpre em nós’, pela fé em Cristo Jesus. [...]”
“Entre os mais acérrimos inimigos do evangelho de Cristo”, disse Wesley, “estão os que [...] ensinam os homens a destruir [...] não apenas um dos menores ou dos maiores mandamentos, mas todos eles, de uma vez. [...] Estes honram a Cristo exatamente como o fez Judas, quando disse: ‘Eu Te saúdo, Mestre, e O beijou.’ [...] Não é outra coisa senão traí-Lo com um beijo, falar de Seu sangue e arrancar-Lhe a coroa; considerar levianamente qualquer parte de Sua lei, sob o pretexto de fazer avançar o evangelho” (Wesley, Sermão 25).

Harmonia entre Lei e Evangelho

Aos que insistiam em que “a pregação do evangelho responde a todos os fins da lei”, Wesley replicava: 
“Isto não corresponde ao objetivo primário da própria lei, a saber: convencer os homens do pecado, despertar aos que ainda dormem às bordas do inferno. [...] É absurdo, portanto, oferecer médico aos que estão sãos, ou que ao menos se imaginam assim. Deveis primeiramente convencê-los de que estão doentes; de outra maneira não vos agradecerão o trabalho. É igualmente absurdo oferecer Cristo àqueles cujo coração está são, não tendo ainda sido quebrantado” (Wesley, Sermão 35).

Enquanto pregava o evangelho da graça de Deus, Wesley, a exemplo de seu Mestre, procurava “engrandecer a lei, e torná-la gloriosa” (Is 42:21). Excelentes foram os resultados que lhe foi permitido contemplar. No final de mais de meio século aplicado ao ministério, seus adeptos alcançavam mais de meio milhão de pessoas. Mas a multidão que foi erguida da ruína e degradação do pecado para uma vida mais elevada e pura, mediante seus labores, nunca será conhecida antes que a família toda dos resgatados seja reunida no reino de Deus. A vida de Wesley apresenta a todo cristão uma lição de inapreciável valor.

Queira Deus que a fé, o incansável zelo, o espírito abnegado e a devoção desse servo de Cristo se reflitam nas igrejas de hoje.

(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 110-118)