terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Reforma Protestante nos Países Baixos e Escandinávia


Nos países baixos a tirania papal suscitou protesto muito cedo. Setecentos anos antes de Lutero, o pontífice romano foi destemidamente acusado por dois bispos, os quais, tendo sido enviados em embaixada a Roma, se tornaram conhecedores do verdadeiro caráter da “Santa Sé“: 
“Sentais-vos no templo como Deus; em vez de pastor vos fizestes lobo para as ovelhas. [...] Enquanto devíeis ser servo dos servos, como chamais a vós mesmos, esforçais-vos por vos tornar senhor dos senhores. [...] Trazeis o desdém aos mandamentos de Deus” [Gerard Brandt, History of the Reformation in and About the Low Countries, livro 1, p. 6].

De século em século, surgiram outros para fazer soar este protesto. A Bíblia valdense foi traduzida em versos para a língua holandesa. Declararam “que havia nela grande vantagem; nada de motejos, fábulas, futilidades, enganos, mas palavras de verdade”. Assim escreveram os amigos da antiga fé, no décimo segundo século [Gerard Brandt, History of the Reformation in and About the Low Countries, livro 1, p. 6].

Começaram então as perseguições de Roma; mas os crentes continuaram a multiplicar-se, declarando que a Bíblia é a única autoridade infalível em matéria de religião e que “nenhum homem deveria ser coagido a crer, mas sim ser ganho pela pregação” [Martynm, v. 2, p. 87].

Menno Simons
Os ensinos de Lutero encontraram nos Países Baixos homens ardorosos e fiéis para pregar o evangelho. Menno Simons, educado como católico romano e ordenado ao sacerdócio, era completamente ignorante em relação à Escritura, e não queria lê-la com medo de cair em heresia. Entregando-se ao desregramento, esforçou-se por fazer silenciar a voz da consciência, mas em vão. Depois de algum tempo foi levado ao estudo do Novo Testamento; isto, juntamente com os escritos de Lutero, levou-o a aceitar a fé reformada.

Pouco depois testemunhou a morte de um homem, executado porque havia sido rebatizado. Isto o levou a estudar na Bíblia a questão do batismo infantil. Viu que o arrependimento e a fé eram requeridos como condições para o batismo.

Menno retirou-se da igreja romana e dedicou a vida a ensinar as verdades que recebera. Tanto na Alemanha quanto nos Países Baixos surgira uma classe de fanáticos, ultrajando a ordem e a decência, e levando a efeito a insurreição. Menno se opôs com tenacidade aos ensinos errôneos e ferozes planos dos fanáticos. Durante vinte e cinco anos atravessou os Países Baixos e porção norte da Alemanha, exercendo vasta influência, e exemplificando em sua própria vida os preceitos que ensinava. Era um homem de integridade, humilde e gentil, sincero e fervoroso. Grande número se converteu através de seus labores.

Na Alemanha Carlos V havia condenado a Reforma, mas os príncipes mantiveram-se como uma barreira contra sua tirania. Nos Países Baixos seu poder foi maior. Editos perseguidores seguiam-se uns aos outros em rápida sucessão. Ler a Bíblia, ouvi-la ou pregá-la, orar a Deus em secreto, deixar de curvar-se perante as imagens, ou cantar um salmo, eram puníveis com a morte. Milhares pereceram sob Carlos V e Filipe II.

Certa ocasião uma família inteira foi levada perante os inquisidores, acusada de não assistir à missa e de fazer culto em casa. O filho mais moço respondeu: 
“Pomo-nos de joelhos e oramos para que Deus nos ilumine a mente e perdoe os pecados; oramos pelo nosso soberano, para que seu reino seja próspero e sua vida feliz; oramos pelos nossos magistrados, para que Deus os preserve.” O pai e um dos filhos foram condenados à fogueira [Wylie, livro 18, cap. 6].

Não somente homens, mas mulheres e moças ostentavam coragem inflexível. 
“Esposas tomavam lugar junto aos suplícios de seus maridos e, enquanto estes suportavam o fogo, elas balbuciavam palavras de consolação, ou cantavam salmos para animá-los. Jovens se deitavam vivas nas sepulturas, como se estivessem a entrar em seu quarto para o sono noturno; ou saíam para o cadafalso e para a fogueira, trajando seus melhores vestidos, como se fossem para o casamento” [Wylie, livro 18, cap. 6].

A perseguição servia para aumentar o número das testemunhas da verdade. Ano após ano o monarca persistia em sua obra cruel, mas em vão. Guilherme de Orange finalmente trouxe à Holanda a liberdade de culto a Deus.


Reforma na Dinamarca

Nos países do norte o evangelho encontrou entrada pacífica. Estudantes de Wittenberg, voltando para casa, levaram a fé reformada para a Escandinávia. Os escritos de Lutero também propagaram luz. O povo robusto do norte deixou a corrupção e as superstições de Roma para acolher as verdades vitais da Bíblia.

Hans Tausen
[Hans] Tausen, “o reformador da Dinamarca”, desde a infância deu mostras de vigoroso intelecto e entrou para o claustro. O exame demonstrou possuir ele talento que prometia bons serviços para a igreja. Concedeu-se ao jovem estudante permissão para escolher uma universidade da Alemanha ou dos Países Baixos, com a condição de que não fosse para Wittenberg e assim se expusesse à heresia. Era o que pensavam os frades.

Tausen foi para Colônia, um dos baluartes do romanismo. Ali logo se desgostou. Aproximadamente por esse mesmo tempo, leu os escritos de Lutero com deleite e desejou grandemente o privilégio de receber instrução pessoal do reformador. Mas para fazer isto, deveria arriscar a perda do apoio de seu superior. Decidiu-se logo, e pouco tempo depois era estudante em Wittenberg.

Retornando à Dinamarca, não revelou seu segredo, mas esforçou-se por levar os companheiros a uma fé mais pura. Abria a Bíblia e pregava-lhes a Cristo como a única esperança de salvação para o pecador. Grande foi a ira do prior, que nele havia fundado elevadas esperanças como defensor de Roma. Foi imediatamente removido de seu mosteiro para outro, e confinado à cela. Através das barras da cela, Tausen comunicava aos companheiros o conhecimento da verdade. Fossem aqueles padres dinamarqueses peritos no plano da igreja de como tratar a heresia, a voz de Tausen jamais teria sido de novo ouvida; mas, em vez de o confiar a alguma masmorra subterrânea, expulsaram-no do mosteiro.

Um edito real, recentemente promulgado, oferecia proteção aos ensinadores da nova doutrina. As igrejas lhe foram abertas, e o povo se reunia em multidão para ouvi-lo. O Novo Testamento em dinamarquês circulava amplamente. Esforços feitos para destruir a obra tiveram como resultado estendê-la, e não muito tempo depois a Dinamarca declarava aceitar a fé reformada.


Progresso na Suécia

Também na Suécia, jovens de Wittenberg levavam a água da vida a seus conterrâneos. Dois líderes da Reforma na Suécia, Olavo e Lourenço Petri, haviam estudado com Lutero e Melâncton. Tal como o grande reformador, Olavo despertava o povo com sua eloqüência, ao passo que Lourenço, assim como Melâncton, era refletido e calmo. Ambos revelavam inflexível coragem. Os padres católicos instigavam o povo ignorante e supersticioso. Olavo Petri, em várias ocasiões, mal pôde escapar com vida. Os reformadores, contudo, eram protegidos do rei, que havia tomado posição em favor de uma reforma e assim recebeu com agrado aqueles hábeis auxiliares na batalha contra Roma.

Na presença do monarca e dos principais homens da Suécia, Olavo Petri defendeu com grande habilidade a fé reformada. Declarou que os ensinos dos Pais da Igreja deveriam ser recebidos somente se estivessem de acordo com as Escrituras; que as doutrinas essenciais da fé são apresentadas na Bíblia de modo claro, assim que todos são capazes de entendê-las.

Esse debate serve para mostrar-nos “a qualidade dos homens que formavam a maior parte do exército dos reformadores. Longe de serem iletrados, sectaristas, controversistas ruidosos, eram homens que haviam estudado a Palavra de Deus e sabiam muito bem como manejar as armas com que o arsenal da Bíblia os supria. [Eram] eruditos e teólogos, homens que se assenhoreavam perfeitamente de todo o sistema de verdades evangélicas, e que ganharam vitória fácil sobre os sofismas das escolas e dos dignitários de Roma” [Wylie, livro 10, cap. 4].

O rei da Suécia aceitou a fé protestante, e a assembléia nacional declarou-se em seu favor. Por desejo do rei, os dois irmãos levaram a cabo a tradução de toda a Bíblia. Foi ordenado pela Dieta que por todo o reino os ministros explicassem as Escrituras e que às crianças nas escolas se ensinasse a leitura da Bíblia.

Liberta da opressão de Roma, a nação atingiu força e grandeza que nunca antes havia alcançado. Um século mais tarde, esta nação até ali fraca — a única da Europa que ousou prestar auxílio — foi em livramento da Alemanha nas terríveis lutas da Guerra dos Trinta Anos. Todo o Norte da Europa parecia a ponto de cair novamente sob a tirania de Roma. Foram os exércitos da Suécia que habilitaram a Alemanha a conquistar a tolerância aos protestantes e a restaurar a liberdade de consciência nos países que haviam abraçado a Reforma.


(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 106-)