terça-feira, 4 de setembro de 2012

A Reforma na França, o chamado de Calvino e a ordem dos Jesuítas


O protesto de Espira e a Confissão de Augsburgo foram seguidos por anos de conflitos e trevas. Enfraquecido por divisões, o protestantismo parecia destinado à destruição.

Entretanto, no momento de seu triunfo aparente, o imperador foi afligido com a derrota. Foi forçado a conceder tolerância às doutrinas cuja destruição fora o anelo de sua vida. Via agora seus exércitos assolados pelas batalhas, os tesouros exauridos, seus muitos reinos ameaçados de revolta, enquanto, por toda parte, a fé que ele se esforçara em vão por suprimir, estava se estendendo. Carlos V estivera a batalhar contra o Poder onipotente. Deus dissera: “Haja luz”, mas o imperador havia procurado perpetuar as trevas. Consumido pela longa luta, abdicou do trono e sepultou-se num claustro.

Na Suíça, ao mesmo tempo em que muitos cantões aceitaram a fé reformada, outros se apegaram com cega persistência ao credo de Roma. A perseguição deu lugar à guerra civil. Zuínglio e muitos outros que a ele se haviam unido na Reforma caíram no campo sangrento de Cappel. Roma estava triunfante e em muitos lugares parecia prestes a recobrar tudo que perdera. Mas Deus não abandonou Sua causa nem Seu povo. Suscitou, em outros países, obreiros para levar avante a Reforma.

Jacques Lefèvre
Na França, um dos primeiros a receber a luz foi Lefèvre, professor na Universidade de Paris. Em suas pesquisas da literatura antiga, sua atenção foi dirigida para a Bíblia, e introduziu o estudo desta entre os seus alunos. Ele empreendera a preparação de uma história dos santos e mártires, conforme apresentados pelas lendas da igreja. Já havia alcançado considerável progresso nessa obra quando, imaginando que poderia obter auxílio na Bíblia, começou a estudá-la. Nesta encontrou, de fato, os santos, mas não segundo apresentados no calendário católico romano. Desgostoso, abandonou a tarefa que se propusera, e dedicou-se à Palavra de Deus.

Em 1512, antes que Lutero ou Zuínglio houvessem iniciado a obra da Reforma, Lefèvre escreveu: 
“É Deus que dá, pela fé, a justiça que, somente pela graça, justifica para a vida eterna” [Wylie, livro 13, cap. 1]. 
Ao mesmo tempo que ensinava pertencer unicamente a Deus a glória da salvação, declarava também que pertence ao homem o dever de obediência.

Alguns dentre os discípulos de Lefèvre ouviam avidamente suas palavras e, muito tempo depois que a voz do mestre silenciou, prosseguiram anunciando a verdade. Um destes foi Guilherme Farel. Filho de pais piedosos e devoto romanista, ardia em zelo para destruir a todos os que ousassem opor-se à igreja. “Eu rangia os dentes qual lobo furioso”, escreveu ele mais tarde, “quando ouvia alguém falar contra o papa.” Mas a adoração de santos, o culto junto aos altares e o adorno de santos relicários com dádivas, não lhe trouxeram paz ao coração. Fortalecia-se nele a convicção do pecado, a qual todos os atos de penitência não conseguiam banir. Escutou as palavras de Lefèvre: 
“A salvação é de graça.” “É unicamente a cruz de Cristo que abre as portas do Céu e fecha as do inferno” [Wylie, livro 13, cap. 2].

Por uma conversão semelhante à de Paulo, Farel volveu-se do cativeiro da tradição para a liberdade dos filhos de Deus. 
“Em vez de ter o coração assassino de um lobo devorador, voltou tranqüilamente, qual cordeiro manso e inofensivo, tendo o coração de todo desviado do papa e entregue a Jesus Cristo” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 12, cap. 3].

Enquanto [Jacques] Lefèvre espalhou a luz entre os alunos, Farel saiu para anunciar a verdade em público. Um dignitário da igreja, o bispo de Meaux, logo se uniu a eles. Outros ensinadores uniram-se na proclamação do evangelho, conquistando-se assim adeptos nos lares dos artífices e camponeses, tanto quanto no palácio do rei. A irmã de Francisco I aceitou a fé reformada. Com grandes esperanças os reformadores aguardaram o tempo em que a França seria ganha para o evangelho.


Novo testamento em francês

Suas esperanças, porém, não deveriam realizar-se. Provas e perseguições aguardavam os discípulos de Cristo. Entretanto, houve um tempo de paz, de modo que pudessem adquirir forças a fim de enfrentar a tempestade; a Reforma obteve rápidos progressos. Lefèvre empreendeu a tradução do Novo Testamento; ao mesmo tempo em que a Bíblia alemã de Lutero saía do prelo em Wittenberg, era publicado o Novo Testamento em francês, em Meaux. Em breve os camponeses deste lugar estavam de posse das Santas Escrituras. Os trabalhadores no campo e os artífices nas cidades, suavizavam a labuta diária conversando acerca das preciosas verdades da Bíblia. Embora pertencessem à mais humilde classe, camponeses indoutos e de rudes trabalhos que eram, viu-se em sua vida o poder reformador e enobrecedor da graça divina.

A luz acendida em Meaux derramou seus raios ao longe. Aumentava todos os dias o número de conversos. O rancor da hierarquia foi por algum tempo contido pelo rei, mas os líderes papais finalmente prevaleceram. Ateou-se a fogueira. Muitos testificaram da verdade entre as chamas.

Nos salões senhoriais do castelo e do palácio, houve pessoas da nobreza por quem a verdade era mais apreciada que a riqueza, posição social, ou a própria vida. Luís de Berquin era de nascimento nobre, devotado ao estudo, polido nas maneiras e de moral irrepreensível. “Ele coroava todas as suas virtudes por devotar ao luteranismo uma aversão especial.” Mas, providencialmente, guiado à Bíblia, maravilhou-se de encontrar ali “não as doutrinas de Roma, mas as de Lutero”. Entregou-se completamente à causa do evangelho.

Os romanistas da França arrojaram-no à prisão como herege, mas foi posto em liberdade pelo rei. Durante anos, Francisco claudicou entre Roma e a Reforma. Berquin foi três vezes aprisionado pelas autoridades papais, tão-somente para ser libertado pelo monarca, que se recusava a sacrificá-lo à maldade do clero. Berquin foi repetidamente advertido do perigo que o ameaçava na França, e com ele se insistiu para que seguisse os passos dos que haviam encontrado segurança no exílio voluntário.


Corajoso Berquin

O zelo de Berquin, contudo, apenas se tornou mais forte. Decidiu-se por medidas ainda mais ousadas. Não somente permaneceria na defesa da verdade, como ainda atacaria o erro. Os mais ativos de seus oponentes eram os ilustrados monges do departamento teológico da Universidade de Paris, que se contavam entre as mais elevadas autoridades eclesiásticas da nação. Dos escritos desses doutores, Berquin extraiu doze proposições que declarou publicamente estarem “em oposição à Bíblia”, e apelou ao rei no sentido de agir como juiz na controvérsia.

O monarca, contente pela oportunidade de humilhar o orgulho dos altivos monges, ordenou aos romanistas que defendessem sua causa pela Escritura Sagrada. Esta arma pouco lhes adiantaria; tortura e fogueira eram as armas que melhor sabiam manejar. Agora viam-se prestes a cair no fosso em que haviam imaginado submergir Berquin. Procuravam em torno de si algum meio de escape.

“Exatamente por este tempo uma imagem da virgem apareceu mutilada na esquina de uma das ruas.” Multidões acorreram ao local, com expressões de lamento e indignação. O rei ficou profundamente abalado. “São estes os frutos das doutrinas de Berquin”, exclamavam os monges. “Tudo está a ponto de ser subvertido — religião, leis, o próprio trono — por esta conspiração luterana” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 12, cap. 3].

O rei saiu de Paris, e os monges ficaram assim em liberdade para executar sua vontade. Berquin foi julgado e condenado à morte; sob o receio de que Francisco se interpusesse para salvá-lo, a sentença foi executada no próprio dia de seu pronunciamento. Ao meio-dia reuniu-se imensa multidão para testemunhar o evento, e muitos viram com espanto e temor que a vítima fora escolhida dentre as mais valorosas e nobres famílias da França. Espanto, ira, escárnio e ódio figadal entenebreciam o rosto daquela multidão agitada, mas não havia sinal de tristeza naquelas faces. O mártir estava cônscio apenas da presença do Senhor.

O semblante de Berquin estava radiante com a luz do Céu. Trajava “uma capa de veludo, um gibão de cetim e damasco, e meias douradas” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 2, cap. 16]. Estava para dar testemunho de sua fé perante o Rei dos reis, e nenhum sinal de lamento devia empanar sua alegria.

Enquanto o cortejo se movia vagarosamente através das ruas apinhadas, as pessoas notavam com admiração o alegre triunfo que o mártir trazia no olhar e no porte. “Esse está”, diziam, “como alguém que se senta num templo e medita sobre coisas santas.”


Berquin na fogueira

Junto à fogueira, Berquin esforçou-se por dirigir algumas palavras ao povo; mas os monges começaram a gritar, e os soldados a bater as armas, e o rumor abafou a voz do mártir. Assim, em 1529, a mais alta autoridade eclesiástica da culta Paris “deu à populaça de 1793 o indigno exemplo de sufocar no cadafalso as palavras sagradas do moribundo” [Wylie, livro 13, cap. 9]. Berquin foi estrangulado, e seu corpo consumido pelas chamas.

Ensinadores da fé reformada partiram para outros campos. Lefèvre tomou o rumo da Alemanha. Farel voltou para sua cidade natal, na França oriental, a fim de disseminar a luz no lugar de sua infância. A verdade por ele ensinada encontrou ouvintes. Logo foi ele banido da cidade. Atravessou as aldeias, ensinando nas casas particulares e nos prados isolados, encontrando abrigo nas florestas e entre as cavernas rochosas que haviam sido sua guarida nos tempos de rapaz.

Como nos dias apostólicos, a perseguição contribuiu “para o progresso do evangelho” (Filipenses 1:12). Expulsos de Paris e Meaux, eles “iam por toda parte pregando a palavra” (Atos dos Apóstolos 8:4). E assim a luz teve acesso a muitas das remotas províncias da França.


O chamado de Calvino

John Calvino
Em uma das escolas de Paris havia um jovem pensativo, quieto e que dava mostras de notável correção de vida, ardor intelectual e devoção religiosa. Seu gênio e aplicação logo o fizeram o orgulho de sua escola, e tinha-se como certo que João Calvino seria um dos mais habilidosos defensores da igreja.

Mas um raio da luz divina penetrou pelas paredes do escolasticismo e superstição em que Calvino se achava encerrado. Olivetan, primo de Calvino, unira-se aos reformadores. Os dois parentes discutiam as questões que estavam perturbando a cristandade. “Não há senão duas espécies de religião no mundo”, disse Olivetan, o protestante. “Aquela [...] que os homens inventaram, e na qual [...] eles se salvam por cerimônias e boas obras; a outra religião é a que está revelada na Bíblia, e que ensina o homem a esperar pela salvação unicamente da livre graça de Deus.”

“Não quero nenhuma das tuas novas doutrinas”, exclamou Calvino; “achas que tenho vivido em erro todos os meus dias?” [Wylie, livro 13, cap. 9]. 

Contudo, sozinho em seu quarto, ponderou nas palavras do primo. Viu-se sem intercessor na presença do Juiz santo e justo. Boas obras, as cerimônias da igreja, tudo era impotente para expiar o pecado. Confissão e penitência não podiam reconciliar seu coração com Deus.


Testemunho junto à fogueira

Visitando casualmente uma das praças públicas, Calvino testemunhou ali a queima de um herege. Entre as torturas daquela morte cruel e sob a mais terrível condenação da igreja, o mártir manifestou fé e coragem que o jovem estudante dolorosamente contrastou com seu próprio desespero e escuridão. Na Bíblia, sabia ele, os “hereges” fundamentavam sua fé. Resolveu estudá-la e descobrir o segredo da alegria deles.

Na Bíblia ele encontrou a Cristo. “Ó Pai”, exclamou Calvino, “Seu sacrifício apaziguou a Tua ira; Seu sangue lavou minhas impurezas; Sua cruz suportou minha maldição; Sua morte fez expiação por mim. [...] Tocaste-me o coração, a fim de que eu abominasse todos os outros méritos, com exceção dos de Jesus” [Martyn, v. 3, cap. 13].

Resolveu dedicar a vida ao evangelho. Sendo naturalmente tímido, desejava também dedicar-se ao estudo. Os ardorosos rogos dos amigos, entretanto, o persuadiram finalmente a tornar-se pregador público. Suas palavras foram como o orvalho que caía para refrigerar a terra. Encontrava-se então numa cidade provinciana, sob a proteção da princesa Margarida, a qual, amando o evangelho, estendia seu amparo aos discípulos do mesmo. O trabalho de Calvino começou nos lares do povo. Os que ouviam a mensagem levavam as boas novas a outros. Ia ele avançando, e lançava o fundamento de igrejas que deveriam dar corajoso testemunho da verdade.

Paris deveria receber outro convite para aceitar o evangelho. O apelo de Lefèvre e Farel fora rejeitado, mas de novo a mensagem deveria ser ouvida por todas as classes naquela grande capital. O rei não havia ainda tomado inteiramente sua posição ao lado de Roma e contra a Reforma. Margarida decidiu que a fé reformada seria pregada em Paris. Ordenou a um ministro protestante que pregasse nas igrejas da cidade. Sendo isto proibido pelos dignitários papais, abriu ela as portas do palácio. Foi anunciado que todos os dias seria pregado um sermão, e o povo era convidado a comparecer. Milhares reuniam-se diariamente.

O rei ordenou que duas das igrejas de Paris fossem abertas. Nunca antes a cidade fora tão comovida pela Palavra de Deus. Temperança, pureza, ordem e laboriosidade estavam ocupando o lugar de embriaguez, libertinagem, contenda e ociosidade. Ao passo que muitos aceitavam o evangelho, a maioria o rejeitava. Os romanistas conseguiram readquirir a ascendência. De novo se fecharam as igrejas e ateou-se a fogueira.

Calvino ainda estava em Paris. Finalmente as autoridades resolveram levá-lo às chamas. Ele não tinha idéia do perigo, quando amigos vieram precipitadamente a seu quarto, com a notícia de que oficiais estavam a caminho para prendê-lo. Naquele instante ouviu-se uma pancada à porta. Não havia um momento a perder. Amigos detiveram os oficiais à porta, enquanto outros ajudavam o reformador a descer por uma janela, e assim ele conseguiu chegar rapidamente à cabana de um trabalhador, amigo da Reforma. Disfarçou-se nos trajes de seu hospedeiro e, levando ao ombro uma enxada, partiu em viagem. Caminhando rumo ao sul, encontrou novamente refúgio nos domínios de Margarida.

Calvino não poderia permanecer inativo por muito tempo. Logo que a tempestade amainou um pouco, procurou novo campo de trabalho em Poitiers, onde as novas opiniões já encontravam aceitação. Pessoas de todas as classes ouviam alegremente o evangelho. Aumentando o número de ouvintes, foi considerado mais seguro reunirem-se fora da cidade. Uma caverna ao lado de uma garganta, onde árvores e pedras salientes tornavam a reclusão ainda mais completa, foi o local escolhido para as reuniões. Nesse ponto isolado a Bíblia era lida e explicada. Ali, pela primeira vez, foi celebrada a ceia do Senhor pelos protestantes da França. Dessa pequena igreja foram enviados fiéis evangelistas.

Mais uma vez Calvino voltou a Paris, mas encontrou fechadas para o trabalho praticamente todas as portas. Finalmente resolveu partir para a Alemanha. Apenas deixara a França, quando irrompeu sobre os protestantes uma tempestade. Os reformadores franceses decidiram-se a desferir contra a superstição de Roma um golpe audaz, que despertaria a nação inteira. Em uma noite foram afixados por toda a França cartazes que atacavam a missa. Esse movimento zeloso, mas mal-interpretado, ofereceu aos romanistas o pretexto para exigirem a completa destruição dos “hereges”, considerando-os como agitadores perigosos à estabilidade do trono e à paz da nação.

Um dos cartazes foi colocado à porta do quarto particular do rei. A audácia sem precedentes, de introduzir à presença do rei estas asserções surpreendentes, suscitou a ira real. Sua raiva encontrou expressão nestas terríveis palavras: 
“Sejam sem distinção agarrados todos os que são suspeitos de luteranismo. Vou exterminar a todos” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 2, cap. 30]. O rei decidiu pôr-se completamente do lado de Roma.

Reinado do terror

Um pobre adepto da fé reformada, que se havia acostumado a convocar todos os crentes para as assembléias secretas, foi apanhado. Sob a ameaça de morte instantânea na fogueira, foi-lhe ordenado que conduzisse o emissário papal à casa de todos os protestantes na cidade. O medo às chamas prevaleceu, de modo que ele concordou em fazer-se traidor dos irmãos. Morin, o detetive real, junto com o traidor, vagarosa e silenciosamente passou pelas ruas da cidade. Chegando defronte da casa de um luterano, o traidor fazia um sinal, mas nenhuma palavra era proferida. O cortejo fazia alto, a casa era invadida, a família era arrastada e acorrentada, e o terrível séquito prosseguia em procura de novas vítimas. “Morin fez abalar toda a cidade. [...] Era o reinado do terror” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 2, cap. 30].

As vítimas foram mortas com tortura cruel, sendo ordenado especialmente que o fogo fosse abaixado, a fim de prolongar-lhes a agonia. Morreram, porém, como vencedores. Sua constância foi inabalável, imperturbada a sua paz. Os perseguidores sentiram-se derrotados. 
“Toda a Paris habilitou-se a ver que espécie de homens as novas opiniões produziram. Não havia púlpito como a fogueira do mártir. A serena alegria que iluminava o rosto daqueles homens ao se encaminharem [...] para o lugar da execução, [...] pleiteava com irresistível eloqüência em prol do evangelho” [Wylie, livro 13, cap. 20].

Os protestantes eram acusados de conspirar para o massacre dos católicos, subverter o governo e assassinar o rei. Sequer uma sombra de provas podia ser apresentada em apoio às alegações. Contudo, as crueldades infligidas aos inocentes protestantes acumularam um peso de retribuições e, séculos mais tarde, ocasionaram a mesma sorte que eles haviam predito estar iminente sobre o rei, seu governo e seus súditos. Porém, foi produzida pelos incrédulos e os próprios romanistas. A supressão do protestantismo deveria trazer sobre a França essas horrendas calamidades.

Suspeita, desconfiança e terror invadiam agora todas as classes sociais. Centenas fugiram de Paris, constituindo-se exilados voluntários de sua terra natal, dando assim em muitos casos a primeira demonstração de que favoreciam a fé reformada. Os romanistas olharam em redor de si com espanto, ao pensar nos “hereges” que, sem o suspeitarem, haviam sido tolerados entre eles.


Declara-se abolida a imprensa

Francisco I deleitara-se em reunir em sua corte homens de letras de todos os países. Agora, inspirado pelo zelo em suprimir a heresia, este patrono do saber promulgou um edito declarando abolida a imprensa em toda a França! Francisco I representa um exemplo, dentre os muitos registrados, de que a cultura intelectual não é salvaguarda contra a intolerância e perseguição religiosas.

Os padres exigiram que a afronta feita aos altos Céus, com a condenação da missa, fosse expiada com sangue. O dia 21 de Janeiro de 1535 foi marcado para a terrível cerimônia. Diante de cada porta havia uma tocha acesa em honra ao “santo sacramento”. Antes de raiar o dia, formou-se a procissão, no palácio do rei.

“A hóstia era levada pelo bispo de Paris, sob magnificente pálio, [...] carregado por quatro príncipes de sangue. [...] Em seguida à hóstia caminhava o rei. [...] Francisco I naquele dia não levava a coroa, nem vestes de Estado” [ Wylie, livro 13, cap. 21]. Em cada altar ele se curvava em humilhação, não pelos vícios que lhe aviltavam a vida, nem pelo sangue inocente que lhe manchava as mãos, mas pelo “pecado mortal” de seus súditos que haviam ousado condenar a missa.

No grande salão do palácio do bispo o próprio monarca discursou com palavras de comovedora eloqüência, deplorando “o crime, a blasfêmia, o tempo de tristeza e desgraça” que sobrevieram à nação. Apelou a que todo súdito leal o auxiliasse na extirpação da pestilenta “heresia” que ameaçava a França de ruína. Lágrimas abafaram-lhe as palavras, e toda a assembléia chorou, exclamando em uníssono: 
“Viveremos e morreremos pela religião católica!” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 4, cap. 12].

“A graça que traz a salvação” aparecera, mas a França, depois de iluminada por seu fulgor, desviou-se, preferindo as trevas à luz. Tinham chamado ao mal bem, e ao bem mal, até se tornarem vítimas voluntárias de seu próprio engano. Haviam rejeitado voluntariamente a luz que os teria salvo do engano, da nódoa pelo crime de sangue.

Novamente se formou a procissão. “A pequenas distâncias haviam-se erigido cadafalsos, nos quais certos cristãos protestantes deveriam ser queimados vivos, e arranjos foram feitos para que as fogueiras fossem acesas no momento em que o rei se aproximasse e a procissão parasse para testemunhar a execução” [Wylie, livro 13, cap. 21]. 

Não houve vacilação por parte das vítimas. Ante a exigência de retratação, um dentre os mártires respondeu: 
“Creio unicamente no que os profetas e apóstolos anteriormente pregaram, e no que creu a multidão dos santos. Minha fé tem uma confiança em Deus que resistirá a todos os poderes do inferno” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 4, cap. 12].

Atingindo seu ponto de partida, no palácio real, a multidão dispersou-se e o rei e os prelados retiraram-se, congratulando-se com as realizações do dia, e propondo-se a prosseguir até a completa destruição da “heresia”.

O evangelho da paz que a França rejeitara, havia de ser efetivamente desarraigado, e terríveis seriam os resultados. Em 21 de Janeiro de 1793, passou pelas ruas de Paris outra procissão. 
“De novo era o rei a figura principal; novamente havia tumulto e aclamações; repetiu-se o clamor pedindo mais vítimas; reergueram-se negros cadafalsos; e de novo encerraram-se as cenas do dia com horríveis execuções; Luís XVI, lutando de mãos com seus carcereiros e executores, era arrastado para o cepo e ali seguro violentamente até cair o machado e sua cabeça decepada rolar no tablado” [Wylie, livro 13, cap. 21]. Perto do mesmo local dois mil e oitocentos seres humanos pereceram pela guilhotina.

A Reforma apresentara ao mundo a Bíblia aberta. O amor infinito manifestara aos homens os princípios do Céu. Quando a França rejeitou a dádiva do Céu, lançou as sementes da ruína. A inevitável operação de causa e efeito resultou na Revolução e no Reinado do Terror.

O ousado e ardoroso Farel fora obrigado a fugir da terra de seu nascimento para a Suíça. Todavia continuou a exercer decidida influência sobre a Reforma na França. Com o auxílio de outros exilados, os escritos dos reformadores alemães foram traduzidos para o francês e, juntamente com a Bíblia francesa, foram impressos em grande quantidade. Através de colportores estas obras foram extensamente vendidas na França.

Farel entrou para o seu trabalho na Suíça com as humildes vestes de mestre-escola, cautelosamente introduzindo as verdades da Bíblia. Houve alguns que creram, mas os padres se apresentaram para deter o trabalho, e o povo supersticioso se ergueu para se opor ao mesmo. 
“Este não pode ser o evangelho de Cristo”, insistiam os padres, “sendo que a pregação disto não traz paz, mas guerra” [Wylie, livro 14, cap. 3].

De vila em vila ia ele, suportando fome, frio e cansaço, e por toda parte em perigo de vida. Pregava nas praças, nas igrejas, e por vezes nos púlpitos das catedrais. Mais de uma vez foi espancado quase até morrer. Contudo, prosseguia. Uma após outra, via vilas e cidades que haviam sido redutos do papado, abrirem suas portas ao evangelho.

Farel desejara implantar as normas protestantes em Genebra. Se esta cidade pudesse ser ganha, seria um centro para a Reforma na França, na Suíça e na Itália. Muitas das cidades e aldeias vizinhas foram ganhas.

Com um único companheiro, entrou em Genebra. Mas foi-lhe permitido pregar apenas dois sermões. Os padres chamaram-no perante um concílio eclesiástico, ao qual chegaram com armas escondidas debaixo das vestes, decididos a tirar-lhe a vida. Fora do salão foi reunida uma multidão furiosa para garantir sua morte, caso conseguisse escapar ao concílio. A presença dos magistrados e de uma força armada, contudo, salvou-o. Cedo, na manhã seguinte, foi conduzido através do lago para um lugar de segurança. Assim terminou seu primeiro esforço para evangelizar Genebra.

Para a próxima prova foi escolhido um instrumento mais humilde — um jovem tão modesto na aparência, que foi tratado friamente até mesmo pelos professos amigos da Reforma. Mas que poderia ele fazer onde Farel havia sido rejeitado! “Deus [...] escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1 Coríntios 1:27).


Froment, o mestre-escola

Froment iniciou seu trabalho como mestre-escola. As crianças repetiam em seus lares as verdades que ele ensinava na escola. Logo os pais foram ouvir a explicação da Bíblia. Novos Testamentos e folhetos foram livremente distribuídos. Depois de algum tempo esse obreiro também foi obrigado a fugir, mas as verdades que ensinara tinham alcançado a mente das pessoas. A Reforma havia sido plantada. Os pregadores retornaram, e o culto protestante foi finalmente estabelecido em Genebra. A cidade já se havia declarado pela Reforma quando Calvino entrou por suas portas. Estava ele a caminho de Basiléia quando foi obrigado a tomar um desvio por Genebra.

Nessa visita Farel reconheceu a mão de Deus. Embora Genebra houvesse aceitado a fé reformada, a obra de regeneração devia ainda ser realizada no coração pelo poder do Espírito Santo, e não por decretos de concílios. O povo de Genebra repelira a autoridade de Roma, mas não se mostrava tão pronto para renunciar aos vícios que haviam florescido.

Em nome de Deus, Farel conjurou solenemente o jovem evangelista a que ficasse e ali trabalhasse. Calvino recuou, alarmado. Temia o contato com o espírito ousado e mesmo violento daquele filho de Genebra. Desejava encontrar um silencioso retiro para o estudo, e ali, pela imprensa, instruir e edificar igrejas. Entretanto, não ousou recusar-se. Pareceu-lhe “que a mão de Deus estivesse estendida do Céu, tomando-o e fixando-o irrevogavelmente no lugar que ele estava tão impaciente por deixar” [D’Aubigné. History of the Reformation in Europe in the Time of Calvin, livro 9, cap. 17].


O trovão do anátema

Os anátemas [maldição, opróbrio, excomunhão] do papa trovejaram contra Genebra. Como poderia esta pequena cidade resistir à poderosa hierarquia que forçara reis e imperadores à submissão?

Passados os primeiros triunfos da Reforma, Roma convocou novas forças a fim de empreender sua destruição. Foi criada a ordem dos jesuítas — o mais cruel, sem escrúpulos e poderoso de todos os defensores do papado. Insensíveis às exigências das afeições naturais, tendo a consciência inteiramente silenciada, não conheciam nenhuma regra e nenhum dever, a não ser os de sua própria ordem.

O evangelho de Cristo habilitara seus adeptos a enfrentar o sofrimento, a não desfalecer diante do frio, fome, labutas e pobreza, e a desfraldar a verdade em face do instrumento de tortura, do calabouço e da fogueira. O jesuitismo inspirou seus seguidores com um fanatismo que os habilitava a suportar semelhantes perigos, e a opor-se ao poder da verdade com todas as armas do engano. Não havia crime demasiado grande para cometer, nenhum engano demasiado vil para praticar, disfarce algum por demais difícil para assumir. Era seu estudado objetivo subverter o protestantismo e restabelecer a supremacia papal.

Ostentavam uma aparência de santidade, visitando prisões e hospitais, ministrando aos doentes e pobres e levando o sagrado nome de Jesus, que andou fazendo o bem. Entretanto, sob esse exterior irrepreensível, propósitos criminosos e mortíferos freqüentemente se ocultavam.

Era princípio fundamental da ordem que os fins justificam os meios. Mentira, roubo, perjúrio e assassínio seriam até recomendáveis se servissem aos interesses da igreja. Sob vários disfarces, os jesuítas abriam caminho aos cargos do governo, subindo até conselheiros dos reis e moldando a política das nações. Tornavam-se servos para agirem como espias de seus senhores. Estabeleceram colégios para príncipes e nobres, e escolas para o povo comum. Os filhos de pais protestantes eram impelidos à observância dos ritos papais. Assim, a liberdade pela qual os pais tinham lutado e derramado seu sangue, era traída pelos filhos. Aonde quer que iam os jesuítas, eram seguidos de uma revificação do papado.

Para dar-lhes maior poder, foi promulgada uma bula restabelecendo a inquisição. Esse terrível tribunal foi novamente instalado pelos chefes papais, e atrocidades demasiado terríveis para suportar a luz do dia foram repetidas em suas masmorras secretas. Em muitos países, milhares e milhares da própria flor da nação, dos mais intelectuais e altamente educados, foram mortos ou obrigados a fugir para outros países.


Vitórias da Reforma

Tais foram os meios que Roma invocou a fim de apagar a luz da Reforma e restaurar a ignorância e superstição da Idade Escura. Mas sob a bênção de Deus e os trabalhos daqueles homens nobres que Ele suscitou a fim de suceder a Lutero, o protestantismo não foi esfacelado. Sua força não veio das armas dos príncipes. As menores e menos poderosas nações se tornaram o seu baluarte. Foi na pequena Genebra; foi na Holanda, lutando contra a tirania da Espanha; foi na gelada e estéril Suécia, que se ganharam vitórias em prol da Reforma.

Durante quase trinta anos Calvino trabalhou em Genebra em favor do avançamento da Reforma pela Europa toda. Sua conduta não era irrepreensível, tampouco suas doutrinas destituídas de erro. Mas ele foi um instrumento para a promulgação de verdades de especial importância, na manutenção de princípios do protestantismo contra a maré do papado que refluía rapidamente, e na promoção da simplicidade e pureza de vida nas igrejas reformadas.

De Genebra saíram publicações e ensinadores para disseminar as doutrinas reformadas. Daquele ponto os perseguidos de todos os países esperavam instrução e encorajamento. A cidade de Calvino tornou-se um refúgio para os acossados reformadores de toda a Europa ocidental. Eram afetuosamente recebidos e tratados com ternura; encontrando ali um lar, abençoavam a cidade de sua adoção por meio de sua habilidade, saber e piedade. João Knox, o bravo reformador escocês; não poucos puritanos ingleses; protestantes da Holanda e da Espanha, além dos huguenotes da França, levaram de Genebra a tocha da verdade para iluminar as trevas de suas terras natais.

(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 95-105)