sábado, 1 de setembro de 2012

A Dieta de Espira e o protesto dos príncipes cristãos da Alemanha


Um dos mais nobres testemunhos já proferidos pela Reforma foi o protesto apresentado pelos príncipes cristãos da Alemanha, na Dieta de Espira, em 1529. A coragem e firmeza daqueles homens de Deus obtiveram, para os séculos que se seguiram, a liberdade de consciência, dando à igreja reformada o nome de Protestante.

A providência divina repelira as forças que se opunham à verdade. Carlos V estava inclinado a aniquilar a Reforma, mas sempre que levantou a mão para dar o golpe foi obrigado a desviá-lo. Repetidas vezes, no momento crítico, os exércitos dos turcos apareceram na fronteira, ou o rei da França, ou mesmo o próprio papa, faziam guerra contra ele. Assim, entre a contenda e o tumulto das nações, a Reforma foi deixada a fortalecer-se e expandir-se.


Finalmente, contudo, os soberanos católicos estabeleceram causa comum contra os reformadores. O imperador convocou uma Dieta a reunir-se em Espira, em 1529, com o propósito de destruir a heresia. Se os meios pacíficos falhassem, Carlos estaria disposto a recorrer à espada.

Os romanistas reunidos em Espira manifestaram sua hostilidade para com os reformadores. Disse Melâncton: “Somos a execração e a escória do mundo; mas Cristo olhará para o Seu pobre povo e o preservará” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 13, cap. 5]. 

O povo de Espira tinha sede da Palavra de Deus e, a despeito da proibição, milhares se congregavam para os serviços realizados na capela do eleitor da Saxônia. Isto apressou a crise. A tolerância religiosa havia sido estabelecida legalmente, e os estados evangélicos estavam resolvidos a opor-se à violação de seus direitos. O lugar de Lutero foi preenchido por seus cooperadores e pelos príncipes que Deus suscitara para defender Sua causa. Frederico da Saxônia fora arrebatado pela morte, mas o duque João, seu sucessor, aceitou alegremente a Reforma e manifestava grande coragem.

Os padres demandavam que os Estados que haviam aceito a Reforma se submetessem à jurisdição romana. Os reformadores, por outro lado, não poderiam consentir que Roma pusesse de novo sob seu domínio Estados que haviam recebido a Palavra de Deus.

Foi finalmente proposto que onde a Reforma não se houvesse estabelecido, o edito de Worms deveria ser rigorosamente posto em execução; e que “onde o povo não pudesse conformar-se com ele sem perigo de revolta, não se deveria ao menos efetuar qualquer nova Reforma, [...] não deveria haver oposição à celebração da missa, e nem se permitir que qualquer católico romano abraçasse o luteranismo”. Essa medida foi aprovada pela Dieta, para grande satisfação dos sacerdotes e prelados.


Questões fundamentais em jogo

Se esse edito fosse executado, “a Reforma não poderia nem estender-se [...] nem estabelecer-se sobre sólidos fundamentos [...] onde já existia” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 13, cap. 5]. A liberdade seria proibida. Não se permitiriam conversões. As esperanças do mundo pareciam a ponto de se extinguir.

Os do partido evangélico se entreolharam, pálidos de terror: “Que se poderá fazer?” “Os chefes da Reforma se submeterão e aceitarão o edito? [...] Aos príncipes luteranos era garantido o livre exercício de sua religião. O mesmo favor era estendido a todos os seus súditos que, antes da aprovação daquela medida, haviam abraçado as idéias reformadas. Não deveria isto contentá-los? [...]

“Felizmente consideraram o princípio sobre o qual aquele acordo se baseava, e agiram com fé. Qual era o princípio? Era o direito de Roma em coagir a consciência e proibir a livre pesquisa. Mas não deveriam eles próprios e seus súditos protestantes gozar de liberdade religiosa? Sim, como um favor especialmente estipulado naquele acordo, mas não como um direito. [...] A aceitação do acordo proposto teria sido admissão virtual de que a liberdade religiosa se devesse limitar à Saxônia reformada; quanto ao resto de toda a cristandade, a livre investigação e a profissão da fé reformada seriam crimes, e deveriam ser castigados com a masmorra e a fogueira. Poderiam eles consentir em localizar a liberdade religiosa? [...] Poderiam os reformadores alegar que eram inocentes do sangue daquelas centenas e milhares que, em conseqüência desse acordo, teriam de perder a vida nas terras papais?” [Wylie, livro 9, cap. 15].

“Rejeitemos esse decreto”, disseram os príncipes. “Em assuntos de consciência a maioria não tem poder.” Proteger a liberdade de consciência é dever do Estado, e este é o limite de sua autoridade em matéria de religião.

Os romanistas decidiram-se a derrubar o que denominaram “ousada obstinação”. Dos representantes das cidades livres foi exigido que declarassem se acederiam ou não aos termos da proposta. Estes pediram prazo, mas em vão. Quase a metade se declarou pela Reforma, e estes bem sabiam que sua posição os assinalava para a futura condenação e perseguição. Disse um deles: “Devemos ou negar a Palavra de Deus, ou ser queimados” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 15].


Posição nobre dos príncipes

O rei Fernando, representante do imperador, experimentou a arte da persuasão. “Pediu aos príncipes que aceitassem o decreto, assegurando-lhes que o imperador grandemente se agradaria deles.” Mas aqueles homens leais responderam calmamente: “Obedeceremos ao imperador em tudo que possa contribuir para manter a paz e a honra de Deus.”

O rei finalmente anunciou que “a única maneira de agir que lhes restava, seria submeter-se à maioria”. Tendo assim falado, retirou-se, não dando aos reformadores oportunidade para replicar. “Sem nenhum resultado, enviaram uma delegação pedindo ao rei que voltasse.” Ele respondeu somente: “É questão decidida; a submissão é tudo o que resta” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 15]. 

O partido imperial estava convicto de que a causa do imperador e do papa era forte, e a dos reformadores, fraca. Se os reformadores tivessem confiado unicamente no auxílio humano teriam sido tão impotentes como o supunham os adeptos do papa. Mas eles apelaram “do relatório da Dieta para a Palavra de Deus, e do imperador Carlos para Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores”.

Como Fernando se recusasse a tomar em consideração suas convicções de consciência, os príncipes se decidiram a não tomar em conta a sua ausência, mas levar sem demora seu protesto perante o concílio nacional. Foi redigida e apresentada à Dieta esta solene declaração:

“Protestamos pelos que se acham presentes [...] que nós, por nós e pelo nosso povo, não concordamos de maneira alguma com o decreto proposto, nem aderimos ao mesmo em tudo que seja contrário a Deus, à Sua santa Palavra, ao nosso direito de consciência, à nossa salvação. [...] Por essa razão rejeitamos o jugo que nos é imposto. [...] Ao mesmo tempo estamos na expectativa de que Sua Majestade imperial procederá em relação a nós como príncipe cristão que ama a Deus acima de todas as coisas; e declaramo-nos prontos a tributar-lhe, bem como a vós, graciosos fidalgos, toda a afeição e obediência que sejam nosso dever justo e legítimo” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 13, cap. 6].

A maioria foi tomada de espanto e alarma ante a ousadia dos que protestavam. Dissensão, contenda e derramamento de sangue pareciam inevitáveis. Os reformadores, porém, confiando no braço da Onipotência, estavam “cheios de coragem e firmeza”.

“Os princípios contidos nesse célebre protesto [...] constituem a própria essência do protestantismo. [...] O protestantismo coloca o poder da consciência acima do magistrado, e a autoridade da Palavra de Deus acima da igreja visível. [...] Ele diz com os profetas e apóstolos: ‘Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.’ Na presença da coroa de Carlos V, ele ergue a coroa de Jesus Cristo” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 13, cap. 6]. O protesto de Espira foi um testemunho solene contra a intolerância religiosa, e uma afirmação do direito de todos os homens adorarem a Deus de acordo com sua própria consciência.

A experiência desses nobres reformadores contém uma lição para todas as eras subseqüentes. Satanás ainda se opõe a que sejam as Escrituras adotadas como guia da vida. Em nosso tempo se observa a necessidade de uma volta ao grande princípio protestante — a Bíblia, e a Bíblia somente, como regra de fé e prática. Satanás ainda está trabalhando a fim de destruir a liberdade religiosa. O poder anticristão que os protestantes de Espira rejeitaram está hoje com renovado vigor procurando restabelecer sua supremacia perdida.


A Dieta de Augsburgo

O rei Fernando havia se negado a ouvir os príncipes evangélicos, mas, a fim de acalmar as dissensões que perturbavam o império, Carlos V, no ano que se seguiu ao protesto de Espira, convocou uma Dieta em Augsburgo. Anunciou sua intenção de presidi-la pessoalmente. Os líderes protestantes foram convocados.

Os conselheiros do eleitor da Saxônia instaram com ele para que não comparecesse à Dieta: “Não é arriscar tudo, ir e encerrar-se alguém dentro dos muros de uma cidade, com um poderoso inimigo?” Outros, porém, nobremente declaravam: “Portem-se tão-somente os príncipes com coragem, e a causa de Deus está salva.” “Deus é fiel; Ele não nos abandonará”, disse Lutero [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 2].

O eleitor partiu para Augsburgo. Muitos o seguiram com semblante triste e coração perturbado. Mas Lutero, que os acompanhou até Coburgo, reviveu-lhes a fé cantando o hino escrito para aquela viagem: “Castelo Forte.” Muitos corações sobrecarregados aliviaram-se ao som dos acordes inspirados.

Os príncipes reformados resolveram redigir uma declaração de suas opiniões, com as provas das Escrituras, a fim de apresentá-la à Dieta. A tarefa de sua preparação foi confiada a Lutero, Melâncton e seus companheiros. Esta Confissão foi aceita pelos protestantes, reunindo-se os mesmos para assinar o documento.

Os reformadores insistiam em que sua causa não fosse confundida com questões políticas. Ao virem para a frente os príncipes cristãos a fim de assinar a Confissão, Melâncton se interpôs, dizendo: “Compete aos teólogos e ministros propor estas coisas; reservemos para outros assuntos a autoridade dos poderosos da Terra.” “Deus não permita”, replicou João da Saxônia, “que me excluais. Estou resolvido a fazer o que é reto sem me perturbar acerca de minha coroa. Desejo confessar o Senhor. Meu chapéu de eleitor e meus arminhos não são para mim tão preciosos como a cruz de Jesus Cristo.” Disse outro dos príncipes ao tomar a pena: “Se a honra de meu Senhor Jesus Cristo o exige, estou pronto [...] para deixar meus bens e a vida.” “Renunciaria de preferência a meus súditos e a meus domínios, deixaria de preferência o país de meus pais com o bordão na mão”, prosseguiu ele, “a receber qualquer outra doutrina que não a que se contém nesta Confissão” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 6].

Chegou o tempo designado. Carlos V, rodeado de seus eleitores e príncipes, deu audiência aos reformadores protestantes. Naquela augusta assembléia as verdades do evangelho foram claramente apresentadas, e indicados os erros da igreja papal. Aquele dia foi declarado “o maior dia da Reforma, e um dos mais gloriosos na história do cristianismo e da humanidade” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 7].

O monge de Wittenberg estivera sozinho em Worms. Agora, em seu lugar estavam os mais nobres e poderosos príncipes do império. “Estou jubilosíssimo”, escreveu Lutero, “de que eu tenha vivido até esta hora, na qual Cristo é publicamente exaltado por tão ilustres pessoas que O confessam, e numa assembléia tão gloriosa.”

Aquilo que o imperador proibiu que fosse pregado do púlpito, era proclamado em palácio; aquilo que muitos tinham considerado inconveniente que os próprios servos ouvissem, era com admiração ouvido pelos senhores e fidalgos do império. [...] Príncipes coroados eram os pregadores, e o sermão era a régia verdade de Deus. “Desde a era apostólica nunca houve obra maior nem mais magnificente Confissão” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 7].

Um dos princípios mais firmemente mantidos por Lutero era que não deveria haver recurso ao poder secular em apoio à Reforma. Regozijava-se de que o evangelho fosse confessado pelos príncipes do império; mas quando eles se propuseram unir-se numa liga defensiva, o reformador declarou que “a doutrina do evangelho seria defendida por Deus somente. [...] Todas as precauções políticas sugeridas eram, em sua opinião, atribuíveis ao temor indigno e à pecaminosa desconfiança” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 10, cap. 14].

Em data posterior, referindo-se à aliança sugerida pelos príncipes reformados, Lutero declarou que a única arma empregada nesta luta deveria ser a “espada do Espírito”. Escreveu ele ao eleitor da Saxônia: 
“Não podemos perante nossa consciência aprovar a aliança proposta. [...] Temos de tomar a cruz de Cristo. Seja Vossa Alteza sem temor. Faremos mais com nossas orações do que todos os nossos inimigos com sua jactância” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 1].

Do local secreto da oração proveio o poder que abalou o mundo na grande Reforma. Em Augsburgo, Lutero “não passou um só dia sem dedicar pelo menos três horas à oração”. Na intimidade de sua recâmara era ele ouvido a lutar com Deus em palavras “cheias de adoração, temor e esperança”. Escreveu ele a Melâncton: 
“Se a causa é injusta, abandonai-a; se a causa é justa, por que desmentiríamos as promessas dAquele que nos manda dormir sem temor?” [J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 14, cap. 6]. 
Os reformadores protestantes haviam edificado sobre Cristo. As portas do inferno não prevaleceriam contra eles!
(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 90-94)