domingo, 12 de agosto de 2012

Ulrico Zuínglio - A luz acende-se na Suíça


Poucas semanas depois do nascimento de Lutero na cabana de um mineiro, na Saxônia, nasceu Ulrico Zuínglio, na choupana de um pastor entre os Alpes. Criado entre cenas de grandiosidade natural, sua mente foi precocemente impressionada com a majestade de Deus. Ao lado da avó, ouvia as poucas e preciosas histórias bíblicas que ela rebuscara entre as lendas e tradições da igreja.

Com a idade de treze anos foi a Berna, que possuía então a mais conceituada escola da Suíça. Ali, contudo, surgiu um perigo. Os frades fizeram todos os esforços possíveis a fim de atraí-lo a um convento. Providencialmente, seu pai recebeu a notícia do intuito dos frades. Viu que a utilidade futura do filho estava em perigo, e ordenou-lhe que voltasse para casa.

A ordem foi obedecida, mas o jovem não poderia estar contente por muito tempo em seu vale natal, de modo que logo retomou os estudos, dirigindo-se, depois de algum tempo, a Basiléia. Foi ali que Zuínglio ouviu pela primeira vez o evangelho da livre graça de Deus. Wittembach, ao estudar o grego e o hebraico, fora conduzido às Escrituras Sagradas, e assim raios de luz divina se derramaram na mente dos estudantes sob sua instrução. Ele declarava que a morte de Cristo é o único resgate do pecador. Para Zuínglio estas palavras foram como que o primeiro raio de luz que precede a aurora.

Logo Zuínglio foi chamado de Basiléia para o serviço ativo. Seu primeiro trabalho foi numa paróquia alpina. Ordenado sacerdote, “dedicou-se totalmente à pesquisa da verdade divina” (Wylie, livro 8, cap. 5).

Quanto mais pesquisava as Escrituras, mais claro aparecia o contraste entre suas verdades e as heresias de Roma. Ele se submeteu à Bíblia como a Palavra de Deus, única regra suficiente e infalível. Viu que ela deveria ser seu próprio intérprete. Procurou todo auxílio a fim de obter compreensão ampla e correta de seu sentido, e invocou a ajuda do Espírito Santo. “Comecei a rogar a Deus a Sua luz”, escreveu ele mais tarde, “e as Escrituras foram-se tornando muito mais fáceis para mim” (Wylie, livro 8, cap. 6).

A doutrina pregada por Zuínglio não foi recebida de Lutero. Era a doutrina de Cristo. “Se Lutero prega a Cristo”, disse o reformador suíço, “ele faz o que eu estou fazendo. [...] Nunca uma só palavra foi por mim escrita a Lutero, nem por Lutero a mim. E por quê? [...] Para que se pudesse mostrar o quanto o Espírito de Deus é coerente, visto que nós dois, sem qualquer combinação, ensinamos a doutrina de Cristo com tal uniformidade” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 9).

Em 1516 Zuínglio foi convidado a pregar no convento de Einsiedeln. Ali deveria, como reformador, exercer uma influência que seria sentida muito além de seus Alpes nativos.

Entre as principais atrações de Einsiedeln havia uma imagem da Virgem, que diziam ter o poder de operar milagres. Sobre o portal do convento havia a inscrição: “Aqui se pode obter remissão plenária dos pecados” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 5). Multidões acorriam ao relicário da Virgem, vindas de todas as partes da Suíça, e mesmo da França e da Alemanha. Zuínglio aproveitou a oportunidade para proclamar àqueles escravos das superstições a liberdade mediante o evangelho.

“Não imagineis”, disse ele, “que Deus está neste templo mais do que em qualquer outra parte da criação. [...] Podem obras sem proveito, longas peregrinações, ofertas, imagens, invocações da Virgem ou dos santos assegurar-vos a graça de Deus? [...] Que eficácia tem um capuz luzidio, cabeça bem rapada, vestes bem compridas e flutuantes, ou chinelas bordadas a ouro? Cristo, que uma vez foi oferecido sobre a cruz, é o sacrifício e vítima, que por toda a eternidade proveu satisfação para os pecados dos crentes” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 5).

Para muitos representava uma amarga decepção ouvir que sua penosa viagem fora sem proveito. O perdão livremente oferecido em Cristo era algo que não podiam compreender. Estavam satisfeitos com o caminho que Roma lhes indicara. Era mais fácil confiar sua salvação aos padres e ao papa do que procurar pureza de coração.

Outra classe, entretanto, recebeu com alegria as novas da redenção por meio de Cristo. Pela fé aceitaram o sangue do Salvador como sua propiciação. Estes voltavam para casa a fim de revelar a outros a preciosa luz que haviam recebido. A verdade era assim levada de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, e o número de peregrinos ao relicário da Virgem diminuiu grandemente. Houve decréscimo nas ofertas e, conseqüentemente, no salário de Zuínglio, que delas era tirado. Mas isto apenas lhe causava alegria, vendo ele que o poder da superstição estava sendo quebrado. A verdade estava ganhando o coração do povo.


Zuínglio é chamado a Zurique

Depois de três anos Zuínglio foi chamado a pregar na catedral de Zurique, que era então a mais importante cidade da confederação suíça. A influência exercida ali seria amplamente sentida. Os eclesiásticos se puseram a instruí-lo quanto a seus deveres:

“Farás todo o esforço, para coletar as receitas do capítulo, sem desprezar a menor. [...] Serás diligente em aumentar as rendas que se arrecadam dos doentes, das missas e de toda ordenança eclesiástica em geral.” “Quanto à administração dos sacramentos, à pregação e ao cuidado do rebanho, [...] podes empregar um substituto, e particularmente no pregar” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 6).

Zuínglio ouviu em silêncio esta ordem, e disse em resposta: “A vida de Cristo tem por demasiado tempo sido ocultada do povo. Pregarei acerca do evangelho todo de Mateus. [...] À glória de Deus, ao louvor de Seu único Filho, à salvação real das pessoas e à sua edificação na verdadeira fé, é que eu consagrarei meu ministério.”

O povo afluía em grande número para ouvir sua pregação. Iniciou seu ministério abrindo os evangelhos, lendo e explicando aos ouvintes a vida, ensinos e morte de Cristo. “É a Cristo”, dizia ele, “que eu desejo conduzir-vos — a Cristo, a verdadeira fonte da salvação.” Estadistas, eruditos, operários e camponeses escutavam suas palavras. Destemidamente reprovava ele os males e corrupções dos tempos. Muitos voltavam da catedral louvando a Deus. “Este homem”, diziam, “é um pregador da verdade. Ele será nosso Moisés, para tirar-nos das trevas egípcias” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 6).

Depois de algum tempo surgiu a oposição. Os monges o atacavam com zombarias e escárnios; outros recorriam à insolência e ameaças. Zuínglio, porém, suportou tudo com paciência.

Na ocasião em que Deus Se prepara para quebrar as algemas da ignorância e da superstição, Satanás age com maior poder a fim de enredar os homens em trevas e segurá-los ainda mais firmemente em seus aguilhões. Roma prosseguiu com renovada energia a abrir seu mercado por toda a cristandade, oferecendo o perdão em troca de dinheiro. Cada pecado tinha o seu preço, e aos homens se concedia livre permissão para o crime, contanto que o tesouro da igreja se conservasse cheio. Assim, os dois movimentos prosseguiram: Roma permitindo o pecado e fazendo dele sua fonte de renda, e os reformadores condenando o pecado e apontando para Cristo como a propiciação e libertação.


Venda de indulgências na Suíça

Na Alemanha a venda de indulgências era dirigida pelo infame Tetzel. Na Suíça o tráfico foi posto sob o controle de Sansão, monge italiano. Sansão já havia conseguido imensas somas da Alemanha e Suíça, para encher o tesouro papal. Atravessara então a Suíça, despojando pobres camponeses de seus escassos ganhos e extorquindo ricos donativos das classes abastadas. O reformador imediatamente começou a se opor a ele. Tal foi o êxito de Zuínglio ao expor as pretensões do frade, que este foi obrigado a partir para outras localidades. Em Zurique, Zuínglio pregou zelosamente contra os vendedores de perdão. Quando Sansão se aproximou do lugar, conseguiu entrada através de um estratagema. Contudo, foi mandado embora sem a venda de um único perdão, e logo depois deixou a Suíça.

A peste, ou “Grande Morte”, varreu a Suíça em 1519. Muitos foram levados a ver quão vãos e inúteis eram os perdões que haviam comprado; anelavam um fundamento mais seguro para a sua fé. Zuínglio, em Zurique, caiu enfermo, e circulou amplamente a notícia de que falecera. Naquela hora de provação ele contemplou em fé o Calvário, confiando na todo-suficiente propiciação pelo pecado. Ao retornar do vale da sombra da morte, foi para pregar o evangelho com fervor ainda maior do que antes. O próprio povo tinha acabado de assistir os doentes e moribundos e sentia, como nunca antes, o valor do evangelho.

Zuínglio chegara a uma compreensão mais clara das verdades da Bíblia e experimentara mais completamente em si mesmo o seu poder renovador. “Cristo”, disse ele, “[...] adquiriu-nos uma redenção intérmina. [...] Sua paixão é [...] um sacrifício eterno, e eternamente eficaz para curar; satisfaz para sempre a justiça divina, em favor de todos os que nela confiam com firme e inabalável fé. [...] Onde quer que haja fé em Deus, ali se desperta um zelo que insta com os homens e os impele às boas obras” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 8, cap. 9). 

Passo a passo a Reforma avançava em Zurique. Alarmados, seus inimigos levantaram-se em ativa oposição. Repetidos ataques foram lançados contra Zuínglio. O ensinador de heresias deveria ser reduzido ao silêncio. O bispo de Constança enviou três delegados ao conselho de Zurique, acusando Zuínglio de ameaçar a paz e a boa ordem da sociedade. Se a autoridade da igreja fosse posta de lado, insistia ele, o resultado seria a desordem universal.

O conselho recusou-se a agir contra Zuínglio, e Roma preparou-se para novo ataque. O reformador exclamou: “Eles que venham; eu os temo como o rochedo teme as ondas que trovejam a seus pés” (Wylie, livro 8, cap. 11). Os esforços dos eclesiásticos apenas fortaleceram a causa que procuravam destruir. A verdade continuou a ser espalhada. Na Alemanha seus adeptos, abatidos com o desaparecimento de Lutero, tomaram novo ânimo quando viram o progresso do evangelho na Suíça. Estabelecendo-se a Reforma em Zurique, seus frutos eram mais amplamente vistos na supressão do vício e na promoção da ordem.


Disputa com os romanistas

Vendo quão pouco fora alcançado pela perseguição no sentido de suprimir a obra de Lutero na Alemanha, os romanistas decidiram entrar em disputa com Zuínglio. Garantiriam a vitória escolhendo não apenas o local do debate, como também os juízes que decidiriam entre os contendores. E, se pudessem manter Zuínglio em seu poder, teriam cuidado em que ele não escapasse. Esse propósito, contudo, foi cuidadosamente ocultado.

Foi designado que o debate ocorresse em Baden. Mas o Conselho de Zurique, suspeitando dos desígnios dos romanistas e advertido pelas fogueiras acesas nos cantões papais para os que professavam o evangelho, proibiu seu pastor de expor-se àquele perigo. Ir a Baden, onde o sangue dos mártires da verdade acabara de ser derramado, seria ir para a morte certa. Oecolampadius e Haller foram escolhidos para representar os reformadores, ao passo que o famoso Dr. Eck, apoiado por uma hoste de ilustres doutores e prelados, era o defensor de Roma.

Os secretários foram todos escolhidos pelos romanistas, e a outros foi vedado tomar notas, sob pena de morte. Entretanto, um estudante que assistia à discussão fazia cada noite um relato dos argumentos apresentados durante o dia. Dois outros estudantes faziam a entrega desses papéis, juntamente com as cartas diárias de Oecolampadius, a Zuínglio, em Zurique. O reformador respondia, oferecendo conselhos. Para iludir a vigilância dos guardas estacionados às portas da cidade, esses mensageiros levavam sobre a cabeça cestos de aves domésticas, e era-lhes permitido passar sem impedimento.

Zuínglio “trabalhou mais”, disse Myconius, “com suas meditações, noites de vigília e conselhos transmitidos a Baden, do que teria feito discutindo pessoalmente no meio de seus inimigos” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 11, cap. 13).

Os romanistas tinham ido a Baden com as mais ricas vestes e resplendentes jóias. Viviam luxuosamente e suas mesas eram servidas com as mais custosas iguarias e vinhos seletos. Em acentuado contraste apareciam os reformadores, cuja dieta frugal os conservava apenas pouco tempo à mesa. O hospedeiro de Oecolampadius, procurando ocasião de observá-lo em seu quarto, encontrava-o sempre empenhado no estudo ou em oração, e referiu que o herege era, ao menos, “muito piedoso”.

Na conferência, “Eck subiu altivamente a um púlpito esplendidamente ornamentado, enquanto o humilde Oecolampadius, modestamente vestido, foi obrigado a tomar assento defronte de seu oponente, em um banco tosco”. A voz tonitruante e a ilimitada confiança de Eck nunca lhe faltaram. Quando melhores argumentos falhavam, recorria a insultos e mesmo a blasfêmias.

Oecolampadius, modesto e não confiante em si próprio, temera o combate. Posto que gentil e cortês nas maneiras, mostrou-se capaz e persistente. O reformador apegou-se tenazmente às Escrituras. “O costume”, dizia ele, “não tem força alguma em nossa Suíça, a menos que esteja de acordo com a constituição; ora, em assunto de fé, a Bíblia é a nossa constituição” (J. H. Merle D’Aubigné, History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 11, cap. 13).

O raciocínio calmo e claro do reformador, tão gentil e modestamente apresentado, falava aos espíritos que se desviavam desgostosos das afirmações jactanciosas de Eck.

A discussão prosseguiu por dezoito dias. Os representantes do papa se arrogaram a vitória. A maior parte dos delegados ficou ao lado de Roma, e a Dieta declarou vencidos os reformadores, e notificou que eles, juntamente com Zuínglio, seu chefe, estavam separados da igreja. Mas a contenda resultou em forte impulso para a causa protestante. Não muito tempo depois, as importantes cidades de Berna e Basiléia se declararam pela Reforma.

(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 79-83)