quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Roberto Badenas - Que é a verdade?


"Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?" (João 18:38)

A pergunta de Pilatos pode ser qualificada de cética, ardilosa, sofismática, mas nunca de inoportuna. Não era uma pergunta original, como também não o era o procurador. Há muitos séculos, sábios e santos não cessaram de suscitá-la. Também não é uma pergunta definitiva, já que homens e mulheres inquietos de todas as épocas - cientistas, pensadores, religiosos, artistas, poetas - até hoje a continuam propondo. Mas é a eterna pergunta de todo ser humano que quer certezas, que necessita de um ponto de referência para construir sua escala de valores e uma luz que o guie nas trevas.



Neste mundo tão complexo em que vivemos, onde cada um apregoa sua verdade, onde é tão fácil se equivocar e ser enganado, como encontrar este farol seguro, esta plataforma firme para nos apoiarmos e sobre a qual possamos construir confiantemente um projeto de vida? Para encontrar a verdade - essa "realidade que não se pode negar racionalmente" [Platão, Leis 663] - é preciso desejá-la e buscá-la sinceramente.

A verdade, como toda pedra preciosa, tem facetas. Ainda que seja provisória ou aproximada, para abarcá-la precisamos contemplá-la em sua totalidade. Uma parte da verdade não é a verdade. As meias-verdades frequentemente são abomináveis. E se tornam particularmente detestáveis no âmbito espiritual, ou seja, na dimensão da experiência humana que atinge o mais profundo do ser.

Muitos conhecem a velha lenda oriental dos cegos e do elefante. O conto diz que um dia um viajante chegou a uma longínqua aldeia montado em um elefante. Ao saber da notícia, alguns cegos que mendigavam à beira do caminho pediram para deixá-los tocar o elefante, mesmo que fosse por um instante apenas, para fazer uma idéia de como ele era. E se puseram a apalpá-lo. Quando o visitante retomou a caminhada, os cegos começaram uma discussão, não conseguindo entrar num acordo sobre o que haviam apalpado com suas mãos. O que havia tocado a barriga do animal definia o elefante como uma imensa bola rugosa; o que tocara uma pata o descrevia como um tronco de árvore; o que havia tocado a tromba o comparava a uma serpente macia; e o que havia permanecido preso a seu rabo, o equiparava a uma pequena corda. Assim, deixaram de ser amigos, discutindo sobre a forma de algo que nenhum deles nunca havia visto.

Este conto destaca a tendência comum de confundir a verdade com o que não é mais do que um aspecto dela. Para o pesquisador sincero, a boa-fé não basta; deve ser acompanhada de uma boa informação. Porque verdade não é sinônimo de sinceridade. A sinceridade é subjetiva; portanto, muito difícil de julgar. A verdade é objetiva; portanto, suscetível de ser julgada. E sempre será preferível a sinceridade na verdade à sinceridade no erro.

Confundir verdade e opinião não seria grave se nos mostrássemos dispostos a reconhecer que nossa postura pode não ser a melhor. O problema está em que, da defesa da opinião à obstinação, não há mais que um passo. Tem-se afirmado que nada é mais querido que nossas próprias opiniões e nada mais difícil de abandonar. O pecado que mais se aproxima de ser incurável é o orgulho da opinião própria e o egoísmo [Ellen G. White. Mente, caráter e personalidade, v. 2, p. 726]. O sábio Salomão já dizia que "pode-se esperar mais de um tolo do que de quem pensa que é mais sábio do que é" [Provérbios 26:12], e que "só os sábios aceitam conselhos" [Provérbios 12:15].

O direito que cada um tem, do ponto de vista da inalienável liberdade de consciência, de crer no que queira ou de não crer em nada é indiscutível. Todos temos direito à compreensão e à tolerância, a buscar a verdade e a nos desentendermos dela. Cada qual tem sua consciência e seu sentido de responsabilidade. Mas isso não quer dizer que todas as atitudes sejam igualmente sensatas. Sobre um determinado ponto pode haver muitos pareceres. Verdade transcendente, ainda que não sejamos de abarcá-la plenamente, apenas uma. Por isso, quando nossa opinião não tem mais regra nem critério que nós mesmos, lamentavelmente nos parecemos àqueles pobres cegos da fábula, empenhados em confundir um elefante com uma árvore ou com uma corda.

Buscar a verdade em suas fontes por todos os meios ao nosso alcance, essa é a sinceridade capaz de nos levar da convicção à certeza. Quando procuramos defender nossa posição mais que a verdade, fazemos como Pilatos. Deixa de haver sinceridade em nossa atitude e nossa obstinação se converte em dissimulação para nossas desculpas. É fácil encontrar pretextos. Até os textos sagrados podem ser manipulados e utilizados para defender critérios pessoais ou de grupos, com resultados que vão desde as mais típicas heresias até as mais sangrentas guerras santas.

Qualquer um que os proponha será capaz de falsificar tanto as passagens complexas como as mais claras. É frequente, inclusive, que os que mais se opõem às Escrituras Sagradas (ou mesmo os que dizem saber delas) tenham um conhecimento superficial de seus ensinamentos, como se frente ao temor de descobrir algo que não desejam, a rejeição lhes desse um sentimento de segurança. Por isso, paradoxalmente, ainda que a religião seja um lugar privilegiado de encontro do homem com a verdade suprema (leia-se Deus e Sua revelação), existem tantas "verdades" opostas quanto credos diferentes nessa esfera.

A obstinação e a falta de sinceridade cegam. Os erros pessoais ou históricos - que nós chamamos de "nossas verdades" - convertidos em preconceitos, tradições ou dogmas, aprisionam os seres humanos a posições que restringem sua liberdade e, o que é pior, também a alheia. Porque é muito mais difícil ser amigo da verdade até o martírio, que se fazer seu apóstolo até a intolerância [Voltaire. Lettre à D'Alembert, fev. 1776].

Entretanto, a verdade é libertadora por natureza. Jesus disse: "Conhecerão a verdade e a verdade os libertará" [João 8:32]. Daí que a infidelidade à verdade somente seja comparável à fidelidade da bússola ao pólo. Fixar a agulha, para si ou para outros, é perigoso. Por fidelidade à sua incumbência, a agulha deve ser sempre livre. Isso pode parecer muito simples. Mas o fato de que algumas verdades sejam muito elementares não lhes tira nem um ponto de seu valor.

Se Deus não existisse, toda verdade (no âmbito religioso e moral) seria relativa. Mas se existe, Ele é nossa referência absoluta. À margem dEle, nossos esforços conduzem necessariamente a verdades humanas parciais. Por isso, precisamos prestar atenção à revelação, essa "luz verdadeira que veio ao mundo e ilumina todas as pessoas" [João 1:9].

Diferentemente da verdade eterna da razão buscada pelos filósofos, a verdade espiritual não é um conhecimento teórico, mas existencial, que compromete o ser inteiro. É uma evidência, prática, experimental, que nos liberta de nossas limitações e permite nossa realização plena. Além de convencer-nos, nos transforma. Por isso, não basta conhecê-la: é preciso vivê-la. Todos os que a seguem, à medida que sua vida se harmoniza com ela, passam da busca para possuir a verdade ao desejo imperioso de que a verdade os possua.

Desde aquele com Pilatos, sob o pórtico, o procedimento de Jesus continua, assim como Seu testemunho, em favor da verdade. E ainda que muitos não cheguem a tomar consciência disso, todos nos perguntamos alguma vez na vida, como Pilatos: "Que farei de Jesus, chamado o Cristo?" (Mateus 27:22).

Cada vez que O condenamos sem tê-Lo escutado, ou não vamos até o fundo de nossas convicções porque temos medo, ou porque, é mais cômodo sermos práticos que consequentes; cada vez que, apesar de nossas boas intenções, não nos atrevemos a nos pronunciar pela verdade, quando comporta algum risco e tendemos a adiar nossa decisão ou a buscar pretextos; cada vez que aplacamos nossa consciência, dizendo-nos que para evitar conflitos é preciso saber esperar e fazer concessões; cada vez que chamamos de prudência a fraqueza, e de paciência a covardia, estamos agindo como Pilatos.

Hoje, como outrora, quem não deseja se comprometer continua preferindo o respaldo do poder e da maioria. Por ser arriscada, a verdade espiritual sempre é minoritária e, portanto, somente os corajosos se atrevem a assumí-la. Como independe do número de seus adeptos, como não se decide por votação, nem se deixa impor por decreto-lei, nem se adota por aclamação popular, não costumam tê-la nem as massas nem seus dirigentes. Cristo continua a possuí-la. E como Ele, Seus seguidores frequentemente são tratados como loucos, às vezes como heróis ou mesmo como mártires, e sempre como dissidentes.

(Roberto Badenas. Encontros: Você vai se surpreender com o poder do amor, p. 108-111, 2006)

Roberto Badenas, nascido na Espanha, é doutor em Teologia pela Universidade Andrews (Estados Unidos), especialista em Filologia Bíblica e professor de Novo Testamento. De 1990 a 1999, foi decano da Faculdade Adventista de Teologia da França (Collongessous-Salève). Atualmente preside a Comissão de Investigação Bíblica (Berna, Suiça).