terça-feira, 28 de agosto de 2012

Paul Washer - Acusações contra a igreja moderna: Um convite antibíblico ao evangelho

"O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho" (Marcos 1:15)

Ora, o que aconteceu no tempo dos Wesleys e de Whitefield também está acontecendo hoje! O que vemos? Não é necessariamente um batismo infantil na maioria das vezes. Não é uma confirmação da parte da Igreja Alta por meio de uma autoridade eclesiástica. O que vemos hoje é a "oração do pecador". Se há algo contra o que declarei guerra, isso é a oração do pecador.

Sim, da mesma maneira como a dependência do batismo infantil para a salvação foi, em minha opinião, o bezerro de ouro da Reforma, a oração do pecador é o bezerro de ouro contemporâneo para os batistas, os evangélicos e todo aquele que os tem seguido. A oração do pecador tem mandado mais pessoas para o inferno [leia-se: morte sem Cristo, logo sem salvação. Saiba mais] do que qualquer outra coisa na face da terra!

Alguém diz: "Como você dizer isso?" Eu respondo: vamos às Escrituras e mostre-me ali, por favor! Gostaria muito de que você me mostrasse nas Escrituras alguém que foi evangelizado dessa maneira. As Escrituras não nos dizem que Jesus Cristo veio a nação de Israel e proclamou: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; agora, quem gostaria de pedir-Me que entre em seu coração?" Ele disse: "Arrependei-vos e crede no evangelho" (Mc 1:15).

Hoje os homens estão confiando no fato de que pelo menos uma vez em sua vida eles fizeram essa oração e alguém lhes disse que eram salvos, porque foram bastantes sinceros. Portanto, se lhes perguntamos: "Você é salvo?" Eles não dizem: "Sim, sou salvo porque estou olhando para Jesus e há grande evidência me dando certeza de ser nascido de novo". Não! Em vez disso, eles dizem: "Uma vez em minha vida eu fiz uma oração". Ora, eles vivem como demônios, mas fizeram uma oração! Ouvi um evangelista que estava persuadindo um homem a fazer isso. Por fim, o homem se sentiu tão inquieto, e o evangelista disse: "Bem, eu lhe direi uma coisa. Orarei a Deus por você, e, se isso é o que você quer dizer a Deus, aperte minhas mãos. Contemple o poder de Deus".

Decisionismo, a idolatria do decicionismo. Os homens pensam que estão indo para o céu porque julgam a sinceridade de sua própria decisão. Quando Paulo escreveu à igreja em Corinto, ele não lhes disse: "Vejam, vocês não estão vivendo como cristãos. Então, vamos retornar ao momento de sua vida em que fizeram aquela oração e vejamos se foram sinceros". Não, ele disse isto: "Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé, provai-vos a vós mesmos" (2Co 13:5).

Quero que vocês saibam, meus amigos, que a salvação é somente pela fé. É uma obra de Deus. É graça sobre graça sobre graça. Mas a evidência da conversão não é apenas o exame de nossa sinceridade no momento da conversão. É o fruto permanente em nossa vida.

Ó meus queridos, olhem para o que temos feito! Uma árvore não é conhecida por seu fruto (Mt 7:20)? Hoje 60% ou 70% dos americanos [e, talvez, 80% dos brasileiros] acham que são convertidos, nascidos de novo. Mas quantos bebês matamos todos os dias? [Em alguns estados americanos o aborto é legalizado] E somos odiados ao redor do mundo por nossa imoralidade. Apesar disso, pensamos que somos cristãos.

Lanço a culpa por esta situação aos pés dos pregadores. Tenho visto isso em todos os grupos. Calvinistas, arminianos, muitos deles compartilham algo em comum. É isto: o mesmo convite superficial. Eles falam muito sobre muitas coisas e, depois, chegam ao convite, que é quase como se todos fossem tolos.

Aproxime-se de alguém e lhe diga: "Deus tem um plano maravilhoso para a sua vida". Você pode imaginar-se dizendo isso a um americano?
"Amigo, Deus o ama e tem um plano maravilhoso para a sua vida."
"O que? Deus me ama? Bem, isso é ótimo porque eu também me amo. Oh! isso é magnífico! E Deus tem um plano maravilhoso? Eu também tenho um plano maravilhoso para a minha vida. E, se eu aceitá-lo em minha vida, terei o melhor de minha vida. Isso é totalmente maravilhoso."
Mas isso não é evangelização bíblica. Gostaria de apresentar algo em lugar disso. Deus veio até Moisés e disse: "Passando o SENHOR por diante dele, clamou: 'SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o pecado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração" (Êx 34:6-7). Qual foi a reação de Moisés? "Imediatamente, curvando-se Moisés para a terra, o adorou" (Êx 34:8).

A evangelização começa com a natureza de Deus. Quem é Deus? Um homem pode reconhecer alguma coisa sobre o seu pecado, se não tem padrões pelos quais pode comparar a si mesmo? Se falamos aos homens somente coisas triviais sobre Deus, coisas que agradam a mente carnal, os homens serão trazidos genuinamente ao arrependimento e fé?
1) NÃO COMEÇAMOS COM: "Deus ama você e tem um plano maravilhoso". Temos de começar com um discurso sobre todo o ensino a respeito da natureza de Deus. E temos de dizer à pessoa, desde o início, que isso pode lhe custar a vida (Mt 16:24)! 
2) EM SEGUIDA, DEPOIS DESSE COMEÇO, TEMOS PERGUNTAS ESCLARECEDORAS: "Você sabe que é um pecador, não sabe?" Isso é semelhante a algo que aconteceu com minha mãe, que estava morrendo de câncer. O médico veio e lhe disse: "Olá, Barbara, você sabe que está com câncer, não sabe?" Nós tratamos o pecado tão superficialmente. Não há importância, não há solenidade.
Em vez disso, devemos dizer aos pecadores: "Amigo, há um mal terrível em você, e o julgamento está vindo" . [O que condiz perfeitamente com a mensagem do primeiro anjo de Apocalipse 14: "Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas" (v. 7).] Se apenas dissermos a alguém: "Amigo, você sabe que é pecador?", não atingimos a convicção do coração. Perguntem ao diabo se ele sabe que é um pecador. Ele dirá: "Sim, eu sou. Eu sou um pecador muito bom ou um pecador muito mau, depende de como você considera isso. Mas sou um pecador. Sei que sou um pecador".

A pergunta não é "você sabe que é um pecador?" A pergunta é: O Espírito Santo está agindo de tal modo em seu coração, por meio da pregação do evangelho, que uma mudança está sendo operada, resultando em que agora você odeia o pecado que antes amava e quer fugir do pecado que antes você desejava abraçar, como se estivesse fugindo de um dragão?
3) HOJE AS PESSOAS PERGUNTAM: "Você quer ir para o céu?" Essa é a razão por que não deixo meus filhos irem a 98% das escolas dominicais e das escolas bíblicas de férias em igrejas evangélicas, porque alguma pessoa bem-intencionada se levanta e diz: "Jesus não é maravilhoso?", depois da exibição do filme Jesus. "Sim", respondem as crianças.
"Quantos de vocês amam a Jesus?" "Oh! eu amo!"
"Quem quer aceitar Jesus em seu coraçãozinho?" "Oh! eu quero!"
E depois são batizados. Podem até viver como cristãos por um tempo porque foram bem ensinados. Estão sendo criados em uma cultura cristã, um tipo de cultura de igreja. Mas quando chegam aos 15 ou 16 anos, quando têm força de vontade, começam a romper os laços. Começam a viver em impiedade. Vamos até eles e lhes dizemos: "Vocês são cristãos. Apenas não vivem como cristãos. Parem com seu desvio".

Em vez disso, temos de falar com eles biblicamente e dizer: "Você fez uma confissão de fé em Cristo. Professou a Cristo por meio do batismo, mas agora parece que se afastou dele. Examine-se a si mesmo. Prove a si mesmo. Há pouca evidência da conversão verdadeira em você!"

Depois da faculdade, quando eles tem 24, 25 ou 30 anos, voltam à igreja e dedicam novamente sua vida. Eles se unem à membresia com a falsa moralidade cristã que envolve o "igrejismo" nos Estados Unidos [e no Brasil também]. E, no último grande dia, eles ouvem isto: "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade" (Mt 7:23).

Você diz: "Irmão Paul, você é tão bravo". Não tenho direito de ser? Alguém deve estar clamando por avivamento. Mas não lançamos os fundamentos certos. Oh! que haja um avivamento e corrija os nossos fundamentos. Mas, enquanto temos olhos e ouvidos abertos, temos a Escritura diante de nós, não devemos corrigir essas coisas referentes ao convite do evangelho?

Então, por que perguntamos: "Você gostaria de ir ao céu?" Meu querido amigo, todos querem ir ao céu - só não querem que Deus esteja no céu quando eles chegarem lá! A pergunta não é: "Você quer ir ao céu?" A pergunta é esta: "Você quer Deus? Já parou de odiar a Deus? Cristo se tornou precioso para você? Você deseja a Cristo?"

A teoria política consiste nisso, meu querido amigo. Todos querem ir para o céu, mas os homens odeiam a Deus. Então, a pergunta não é se os homens querem ir para um lugar especial onde não se ferem e tem tudo que desejam. A pergunta é: você quer Deus? Cristo se tornou precioso para você?

Frequentemente: para levar uma pessoa a fazer a oração do pecador, pergunte-se a ela: "Você gostaria de ir para o céu?" É a resposta é: "É claro que sim". "Então, você gostaria de orar e pedir que Jesus venha e entre em seu coração?" Ora, meu querido amigo, deixe-me dizer isto. Há pessoas que foram salvas usando esse método, mas não foi por causa do método, e sim apesar do método.
Em vez disso, temos de perguntar: "Amigo, você deseja a Cristo? Você vê o seu próprio pecado?"
"Sim, sim".
"Então, examinemos algumas passagens bíblicas que explicam para nós o que é o arrependimento, para verificarmos se o Espírito está dando o testemunho de que isso acontece em sua vida. Você vê quebrantamento em sua vida? Vê a desintegração de tudo que você pensava, e agora sua mente está cheia de novos pensamentos sobre Deus, novos desejos e nova esperança?"
"Sim, vejo isso".
"Amigo, isso pode ser os primeiros frutos do arrependimento. Agora, entregue-se a Cristo. Confie nEle. Creia nEle."
Ouçam-me. Temos autoridade para anunciar aos homens o evangelho. Temos autoridade para dizer-lhes como podem ser salvos e autoridade para ensinar-lhes princípios bíblicos de segurança. Mas não temos nenhuma autoridade para dizer aos homens que eles são salvos. Isso é obra do Espírito Santo de Deus!
Mas, em vez de agir desse modo, o pecador é conduzido àquela coisa insignificante: "Você convidou Jesus a entrar no seu coração?"
"Sim", ele responde.
"Você acha que foi sincero?"
"Sim".
"Você acha que Cristo o salvou?"
"Não sei".
"É claro que ele o salvou porque você foi sincero. E Ele prometeu que, se você lhe pedisse que entrasse em seu coração, Ele entraria. Portanto, você está salvo".
Eles saem da igreja depois de cinco minutos de aconselhamento. O evangelista vai almoçar. E o homem evangelizado está perdido. O homem está perdido! Isso é um convite antibíblico. E, se as pessoas evangelizadas duvidarem de sua salvação, você faz tudo de novo.
Você diz: "Já ouve um momento em sua vida em que você orou e pediu a Jesus que entrasse em seu coração?"
"Sim."
"Você foi sincero?"
"Acho que sim."
"Então, o diabo está perturbando você agora."
E, se eles vivem sem crescimento, mesmo no contexto de uma igreja em crescimento, e permanecem em carnalidade - não tema. Dizemos que a culpa é da falta de discipulado pessoal e amenizamos isso chamando-o de doutrina do "crente carnal".


O MITO DO "CRENTE CARNAL"

A doutrina do crente carnal tem destruído mais vidas e enviado mais pessoas para o inferno do que podemos imaginar! [Conheça a verdade sobre o inferno, clique aqui] Os crentes lutam com o pecado? Sim. Um crente pode cair em pecado? Sim. Um crente pode viver em um estado permanente de carnalidade, todos os dias de sua vida, não produzindo fruto, e sem ser verdadeiramente crente? Não, de modo algum - pois, se assim fosse, toda promessa de preservação dada no Antigo Testamento em referência à aliança do Novo Testamento falharia, e tudo que Deus falou sobre disciplina, em Hebreus, seria uma mentira (Hb 12:6)! "Cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto" (Lc 6:4).

Tenho visto pregadores que entendem muito das coisas de Deus, mas, no que diz respeito a uma apresentação exemplar do evangelho, eles empregam, novamente, este método antibíblico. Contarei uma história, uma história que é um dos momentos mais preciosos de minha vida cristã.

Eu estava pregando no Canadá, a apenas 30 quilômetros do Alaska. Havia mais ursos cinzentos do que pessoas na cidade! A igreja era pequena, tinha umas 15 ou 20 pessoas; e eu seria o pregador. Quando acabei de subir ao púlpito, um homem enorme entrou. Ele estava no alto de seus 60 anos ou no começo dos 70 anos. Ele poderia ter surrado todos nós naquele prédio. Enquanto eu pregava, olhei para sua face, deixei o assunto de lado e comecei a pregar o evangelho. Ele era o ser humano mais triste que eu já tinha visto. Preguei apenas o evangelho e mais evangelho. E, quando terminei, desci do púlpito e fui diretamente até ele.

Eu lhe disse: "Amigo, o que está errado com você? O que atormenta a sua alma? Nunca vi homem tão triste e tão abatido em toda minha vida." Ele mostrou um envelope pardo que continha algumas radiografias, que eu não podia entender. Mas ele disse: "Acabei de vir do médico. Eu vou morrer em três semanas". Isso foi o que ele me disse. "Vivi toda minha vida como um criador de gado. Você só pode chegar onde eu moro de hidroavião ou de cavalo, através das montanhas." Ele disse: "Nunca estive em uma igreja; nunca li a Bíblia. Creio que há um Deus, e uma vez ouvi alguém falar algo sobre um homem chamado Jesus". E continuou: "Nunca tive medo de nada em minha vida - estou apavorado". Eu perguntei: "Amigo, você entendeu a mensagem do evangelho?" Ele respondeu: "Sim".

Ora, o que teria feito a grande maioria dos pregadores naquele momento? "Bem, você gostaria de pedir a Jesus que entre no seu coração?" - isso é o que eles teriam feito. [Para saber mais sobre a verdadeira e a falsa santificação que o Pr. Paul Washer comenta, clique aqui]
Eu disse: "Amigo, você entendeu a mensagem?"
Ele respondeu: "Entendi, mas o evangelho é aquilo mesmo?" Disse mais: "Uma criança poderia ter entendido a mensagem. O evangelho é só aquilo, para que eu entenda e ore ou...?"
Eu disse: "Amigo, você vai morrer em três semanas. Tenho de partir amanhã. Cancelarei a minha passagem de avião e ficarei aqui, com as Escrituras, lutando e clamando a Deus até que você seja convertido ou que morra e vá para o inferno [lit. sepultura]".
E assim começamos. Comecei no Antigo Testamento, no Novo Testamento, lendo cada versículo da Escritura que continha uma promessa de Deus quanto à redenção e à salvação, repetidas vezes, vez após vez. Lemos João 3:16, oramos por um pouco, clamamos a Deus, fizemos perguntas ao homem sobre o arrependimento, a fé e a certeza da salvação - trabalhando até que Cristo fosse formado nele.

Por fim, estando eu exausto naquela noite, não houve nenhum progresso. Não houve nada. Então, eu disse: "Amigo, vamos orar". E oramos.
Eu disse: "Vamos ler novamente João 3:16".
Ele respondeu: "Já lemos isto milhares de vezes".
Disse: "Sim, eu sei, mas esta é uma das maiores promessas de salvação. Leia esse texto novamente".
Nunca esquecerei o que aconteceu. Ele tinha a minha Bíblia em seu colo, naquelas suas mãos enormes, e falou: "Tudo bem". E leu: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu... - eu estou salvo. Estou salvo! Irmão Paul, todos os meus pecados se foram! Eu tenho a vida eterna! Estou salvo!"

Eu perguntei: "Como você sabe?"
Ele respondeu: "Você nunca leu este versículo antes?"

O que estava acontecendo? Uma obra do Espírito de Deus, em vez daqueles truques insignificantes que pessoas tentam usar. Então, agora você quer ir comer? O quê? Você acha que pregar é um espetáculo e que, depois disso, você volta para o hotel? Não, a obra começa depois da pregação. É a obra de lidar com almas. As pessoas aparecem nas reuniões para receber aconselhamento de quem não deveria estar aconselhando. E, depois de cinco minutos, eles fazem aquela oração do pecador e recebem um cartão que devem assinar. E, rapidamente, dão o cartão ao pastor, e este diz: "Gostaria de apresentar a todos um novo filho de Deus. Recebam-no na família de Deus". Que ousadia!

Se vamos apresentar alguém à igreja, digamos isto: "Hoje à noite este homem fez uma profissão de fé em Jesus Cristo. E, por causa de nosso temor de Deus e nosso amor pelas almas dos homens, continuaremos a trabalhar com ele para assegurá-lo de que Cristo foi realmente formado nele, de que ele tem um verdadeiro entendimento bíblico do arrependimento e da fé, bem como grande alegria e segurança no Espírito Santo. Isso é o que faremos".

Vejam o que temos feito no cristianismo moderno. Rogo-lhes: vejam o que estamos fazendo. E não estou falando de uma seita estranha. Estou falando do que nós estamos fazendo. Rogo-lhes: acabem com isso. Por favor, parem de fazer isso!

(Paul Washer. Dez acusações contra a igreja moderna, p. 43-58)