sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Paul Washer - Acusações contra a igreja moderna: Uma ignorância quanto ao evangelho de Jesus Cristo

"Mas Deus prova o Seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por ele salvos da ira" (Romanos 5:8-9).

Gostaria de sugerir que meu país, os Estados Unidos, não é endurecido em relação ao evangelho; ele é ignorante quanto ao evangelho, porque muitos pregadores o são. Vou repetir isso. O mal deste país não são os políticos liberais, a raiz do socialismo, Hollywood ou qualquer outra coisa. O problema deste país é o suposto pastor, evangelista ou pregador evangélico de nossos dias. Esse é o mal de nosso país [e, com certeza, do Brasil também]. Não conhecemos o evangelho. Pegamos o glorioso evangelho de nosso bendito Deus e o reduzimos a quatro leis espirituais e a cinco coisas que Deus deseja que você saiba, com uma pequena oração supersticiosa no final. E, se alguém repete a oração depois de nós, com muita sinceridade, declaramos prontamente que ele nasceu de novo. Temos trocado regeneração por decisão.

Fico admirado com a quantidade de crentes piedosos de 30 ou 40 anos que andam na fé e que, depois de me ouvirem falar sobre isso, vêm a mim, com lágrimas, dizendo: "Irmão Paul, nunca ouvi isso antes em minha vida". No entanto, isso é a doutrina histórica da redenção e propiciação.

Procuremos definir o problema com bastante clareza. O evangelho começa com a natureza de Deus. Partindo disso, o evangelho trata da natureza do homem e do seu estado caído. E, com base nessas verdades, essas duas grandes colunas do evangelho estabelecem para nós o que deve ser conhecido por todo crente como o grande dilema. Qual é esse dilema? O maior problema em toda a Escritura é este: se Deus é justo, Ele não pode perdoar o pecado dos homens. Como Deus pode ser justo e, ao mesmo tempo, o justificador de ímpios, quando toda a Escritura diz (citarei especialmente um versículo extraído de Provérbios): "O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro" (Pv 17:15). Apesar disso, todas as nossas canções cristãs proclamam como Deus justifica o ímpio!

Esse é o maior problema! É a acrópole [parte mais elevada das antigas cidades gregas onde se situava os santuários] da fé cristã, disseram Martyn Lloyd-Jones, Charles Spurgeon e qualquer outro mais que tem lido Romanos 3. Vocês percebem: temos de apresentar isso às pessoas. O grande problema é que Deus é verdadeiramente justo, e todos os homens são verdadeiramente ímpios. Para ser justo, Deus tem de condenar o homem ímpio. Mas Deus, tendo em vista Sua própria glória e demonstrando um grande amor por nós, enviou Seu Filho, que viveu nesta terra como homem perfeito. E, depois, em harmonia com [a lei de Deus (Mt 5:17-21)] e com o plano eterno de Deus, o Filho morreu naquela cruz, no Calvário [para cumprir às exigências da lei (1João 3:4; Romanos 6:23)]. 

E, naquela cruz, Ele levou o nosso pecado e, permanecendo ali como nosso substituto legal e assumindo a nossa culpa, se tornou maldição por nós. "Maldito todo aquele que não permanece [em grego emmeno, lit. "ser fiel" ou "persistir em"] em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gl 3:10). Cristo nos redimiu da maldição, tornando-se maldição em nosso lugar (Gl 3:13).

Muitas pessoas tem uma visão romântica e pobre do evangelho: que Cristo estava lá, pendurado na cruz, sofrendo as aflições impostas pelo império romano, e o Pai não teve a fortaleza moral de suportar o sofrimento do Seu Filho, então, Ele se retirou. Não, o Pai se retirou porque o Seu Filho se tornou pecado!

Assim, quando pessoas leem que o Filho esteve no jardim e clamou: "Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice" (Mt 26:39), elas especulam: "Bem, o que havia nesse cálice? Ora, era a cruz dos romanos. Era o açoite. Eram os cravos. Era todo aquele sofrimento". Não quero ignorar o sofrimento físico de Cristo na cruz, mas o cálice era o cálice de Deus - a ira do Pai tinha que ser derramada sobre o Filho. Alguém tinha de morrer, levando a culpa do povo de Deus, abandonado pelo Pai, por causa de Sua justiça, e esmagado sob a ira de Deus - pois "ao SENHOR agradou moê-lo" (Is 53:10).

Há algum tempo estive em um seminário na Alemanha e vi um livro intitulado A cruz de Cristo (não era o livro escrito por John Stott; era outro). Peguei-o e comecei a lê-lo. E o livro dizia isto: "O Pai olhou do céu e contemplou o sofrimento infligido ao Seu Filho pelas mãos dos homens e considerou isso como pagamento de nossos pecados". Isso é heresia! Aquele sofrimento físico, aquela crucificação - tudo fazia parte da ira de Deus. O sacrifício tinha de ser um sacrifício de sangue. Não tirarei nada disso. Mas, meu amigo, se você parar nesse ponto, você não tem o evangelho.

Quando o evangelho é pregado hoje e compartilhado na evangelização pessoal, ouvimos algo sobre a justiça  e a ira de Deus? Quase nunca. A evangelização contemporânea raramente deixa claro que Cristo foi capaz de redimir-nos porque foi esmagado sob a justiça de Deus - e, satisfazendo com Sua morte a justiça divina [requerida pela lei de Deus, que será o critério utilizado no dia do juízo (Tg 2:12)], Deus é agora o justo e o justificador do ímpio.

Isso [o ato de pregar só uma parte] é reducionismo do evangelho! Não admiramos que não tenha poder. O que aconteceu? Eu direi: quando deixamos o evangelho para trás, e não há mais nenhum poder em nossa suposta mensagem evangélica, temos de usar todos os truques que são usados tão predominantemente em nossos dias para converter os homens - e todos conhecemos a maioria desses truques. Mas nenhum deles funciona!

Há alguns anos, quando me graduava no seminário, tive de tomar uma decisão quanto a prosseguir os estudos em direção ao Ph.D. A fim de proteger minha vida espiritual, Deus me enviou às florestas do Peru - tão distante quanto Ele poderia me colocar do mundo acadêmico. Lá comecei a compreender algo. Como disse Spurgeon: "Homens maiores do que eu, com mentes mais brilhantes, tem abordado esta doutrina da Segunda Vinda, mas sem qualquer proveito". Ele disse: "Eu me dedicarei a isto: procurar compreender algo que Jesus Cristo e Ele crucificado".

Fico com raiva quando os homens tratam o glorioso evangelho de Cristo como se fosse o primeiro passo para o cristianismo e o passo que exige apenas 10 minutos de aconselhamento - e, depois disso, a pessoa prossegue para as coisas mais importantes. Isso nos mostra quão patéticos somos em nosso conhecimento das coisas de Deus.

Meu amigo, no dia da Segunda Vinda, você entenderá tudo sobre a Segunda Vinda, mas na eternidade das eternidades, no céu, você nem mesmo começará a compreender a glória de Deus no Calvário. Tudo se refere a isso. Homem jovem, pregador jovem, ouça-me. Assimile a verdade sobre aquela cruz, o que ela significa. Você não precisará de nada para produzir fogo estranho em seu forno (Lv 10:1-3), se você tão-somente captar um vislumbre do que Cristo fez naquela cruz.

Gosto de dizer isto. Já o disse milhares de vezes. Abraão levou Isaque até à montanha - seu filho, seu único filho, que ele amava. Você acha que o Espírito Santo estava tentando dizer-nos algo sobre o futuro? E aquele filho não ofereceu qualquer resistência e deitou-se no altar. E, quando aquele pai entregou sua vontade à de Deus, desceu aquele cutelo para penetrar o coração do próprio filho. Mas, sua mão foi detida, e foi dito ao velho homem que Deus tinha provido um carneiro. Muitos cristãos pensam: "Oh! que final lindo para essa história!" Isso não é o final; é apenas um intervalo. Milhares de anos depois, Deus, o Pai, colocou sua mão sobre o rosto do Filho, Seu único Filho, que Ele amava, e tomou o cutelo da mão de Abraão e imolou Seu Filho unigênito, com toda a força de Sua ira.

Agora você sabe por que o evangelho insignificante que você prega não tem poder? Porque não é o evangelho! Conheça o evangelho; passe sua vida de joelhos. Afaste-se dos homens; estude a cruz!

O quarto erro comum às igrejas de nossos dias é, realmente, uma ignorância da doutrina da regeneração. Sei que entre os que me ouvem há tanto calvinistas como arminianos. Eu sei que no meio há os que tem todo tipo de ideias esquisitas. Acho que posso chamar a mim mesmo de "Spurgeonista de cinco pontos". Mas quero que você saiba isto: o calvinismo não é a questão. Não, eu lhe direi qual é a questão: é a regeneração! Essa é a razão por que posso ter comunhão com Wesley, Ravenhill, Tozer e os demais - porque, apesar da posição deles sobre outros assuntos, eles acreditavam que a salvação não pode ser manipulada pelo pregador, que a salvação é uma obra magnífica do poder de Deus Todo-Poderoso. E me posiciono ao lado deles.

Na obra de regeneração, há uma grande manifestação do poder de Deus operada pelo Espírito Santo, uma manifestação maior do que aquela demonstrada na criação do mundo ou mesmo do universo, porque ele criou o mundo ex nihilo: do nada. Mas ele regenera um homem a partir de uma massa de corrupção. É correspondente com a própria ressurreição de nosso Salvador dentre os mortos.

Entendo que na pregação há mestres, pregadores e expositores. Todos eles são necessários para a saúde da igreja. Mas temos de entender isto. Ouvi dizer que o falecido G. Campbell Morgan (1863-1945), quando subia ao púlpito para pregar, citava para si mesmo: "Como cordeiro foi levado ao matadouro e como ovelha muda perante aos seus tosquiadores" (Is 53:7). Ele sabia que, sem uma manifestação poderosa da obra de regeneração do Espírito Santo [ou batismo do Espírito Santo, acesse o link acima e saiba como recebê-Lo], tudo que ele dissesse seria nada. É o Espírito que dá vida (João 6:63).

Nesse sentido, todos nós que proclamamos a verdade da Palavra de Deus temos de proclamá-la como um profeta [compreendendo a seriedade da mensagem que possuímos e que o tempo presente necessita ouvir]. O que isso significa? Somos sempre como Ezequiel no vale de ossos secos, e os ossos são sequíssimos (Ez 37:1-2)! Caminhamos entre os ossos, e o que fazemos? Profetizamos. Dizemos: "Ouçam a Palavra do Senhor". E sabemos que o Espírito de Deus tem de soprar nesses mortos, pois, do contrário, eles não ressurgirão. E, quando compreendermos plenamente isso, no mais íntimo de nosso ser, não mais nos entregaremos à manipulação que é tão frequentemente realizada em nome da evangelização. Em vez disso, proclamaremos a Palavra de Deus - a doutrina da regeneração [ou justificação e santificação].

Pense nos Wesleys. Considere o que eles tiveram de enfrentar. Pense também no amado Whitefield. Naquele tempo, todos acreditavam que eram cristãos, totalmente cristãos. Por que? Porque haviam sido batizados como criancinhas, introduzidas na aliança e confirmados. Mas viviam como demônios! A regeneração era trocada por um tipo de aceitação formal de credos que recebia autoridade de líderes religiosos da época.

Então, aparecem os Wesleys! Não, eles disseram, a alma de vocês não está correta diante de Deus. Vocês não são nascidos de novo. Não há evidências de vida espiritual. Examinem-se a si mesmos. Provem a si mesmos, para verificar se estão na fé (2Co 13:5). Assegurem-se de sua vocação e eleição (2Pe 1:10). "Importa-vos nascer de novo" (João 3:7).

Aqui, nos Estados Unidos, por causa das várias últimas décadas de evangelização moderna, a ideia de "nascer de novo" está totalmente perdida. [Acredito que a situação do Brasil não seja muito diferente.] Agora, nascer de novo significa apenas que, em algum momento, numa cruzada de evangelização, a pessoa tomou uma decisão e acha que foi sincera. Mas não há evidência de uma obra de recriação sobrenatural por parte do Espírito Santo [o batismo do Espírito Santo] na vida da pessoa. "Se alguém", e não se algumas pessoas, "está em Cristo, é nova criatura" (2Co 5:17).

(Paul Washer. Dez acusações contra a igreja moderna, p. 33-42)