quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Paul Washer - Acusações contra a igreja moderna: Um fracasso em abordar o mal do homem

"Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer" (Romanos 3:10-12).
A Epístola aos Romanos é um dos meus livros favoritos da Bíblia. Não é uma teologia sistemática. Mas, se pudéssemos dizer que algum dos livros da Bíblia é uma teologia sistemática, o mais próximo disso seria a Epístola aos Romanos. Não é admirável que Paulo tenha escrito os três primeiros capítulos desse livro para fazer uma coisa: colocar todos os homens sob condenação? Mas condenação não é o grande summum bonum [lit. "bem maior"] da teologia de Paulo. Não é o seu propósito ou objetivo final. É um meio de trazer salvação aos seus leitores, porque os homens tem de ser trazidos ao conhecimento de si mesmos, antes de se renderem a Deus. Os homens estão caídos de tal maneira, que temos de remover deles toda a esperança na carne, antes de serem trazidos a Deus.


Isso é importante em tudo, mas é especialmente na evangelização. Eu tinha 22 anos e acabara de ser chamado a pregar, quando me dirigi até uma velha loja em Paducah (Kentucky), onde eles vendiam ternos para pastores pela metade do preço. Eles faziam aquilo havia 50 ou 60 anos. Inesperadamente, a porta se abriu. Ouvi o tilintar do sininho, e a porta se fechou. Lá havia um homem velho. Nunca guardei o seu nome, mas ele se encaminhou até mim e me fitou. 
Ele disse: "Rapaz, você foi chamado a pregar, não foi?"
Eu disse: "Sim, senhor".
Ele era um velho evangelista. E disse: "Você pode ver aquele prédio em frente a loja?"
Eu respondi: "Sim".
Ele disse: "Eu costumava pregar lá. O Espírito de Deus vinha, e almas eram salvar".
Eu lhe pedi: "Senhor, por favor, fale-me sobre isso".
Ele continuou: "Não era nada semelhante à evangelização de nossos dias. Pregávamos por duas ou três semanas e fazíamos um convite aos pecadores. Arávamos constantemente o coração dos homens, até que o Espírito de Deus começava a agir e quebrantava o coração deles".
Perguntei: "Senhor, como vocês sabiam que o Espírito de Deus vinha e quebrantava o coração deles?"
Ele respondeu: "Bem, permita-me dar um exemplo. Várias décadas atrás, vim a esta loja para comprar um terno. Alguém me dera trinta dólares e dissera: 'Pregador, vá comprar um terno amanhã'. Quando passei pela porta, o jovem vendedor que cuidava da loja se virou e olhou para mim. E, quando ele olhou para mim, caiu no chão e clamou: 'Quem pode salvar um homem ímpio como eu?' Eu sabia que o Espírito de Deus havia descido sobre aquele lugar".
Hoje, apenas chegamos e falamos com os pecadores, nós lhes fazemos três perguntas explanatórias e, depois, lhes perguntamos se querem fazer uma oração e pedir que Jesus entre em seu coração. Fazemos um filho do inferno duas vezes, uma pessoa que nunca mais se abrirá para o evangelho por causa da mentira religiosa que, como evangélicos, proferimos com nossos lábios.

Quando tratamos o pecado de maneira superficial, estamos antes de tudo lutando contra o Espírito Santo. "Quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado" (João 16:8). Há muitos pregadores populares em nossos dias que estão mais preocupados em dar às pessoas "a melhor vida agora" do que preocupados com a eternidade. E se gabam do fato de que não mencionam o pecado em sua pregação. Posso dizer isto: o Espírito Santo não tem nada a ver com o ministério deles, pois, se tivesse, estaria agindo contra si mesmo. Por que? Quando um homem diz que não tem um ministério que lida com o pecado dos homens, o Espírito Santo tem. Um ministério fundamental do Espírito Santo é vir e convencer o mundo do pecado. Então, saiba isto: quando não lidamos com os homens e sua condição depravada da maneira específica, fervorosa e amorosa, o Espírito Santo não está conosco.

Somos enganadores quando lidamos levianamente com o mal do homem, como os pastores nos dias de Jeremias. "Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). Não somos apenas enganadores. Somos também imorais. Somos como um médico que nega seu juramento de Hipócrates, porque não dar a ninguém más notícias, pois acha que a pessoa ficará irada com ele ou ficará triste. Por isso, ele não conta à pessoa as notícias mais necessárias para salvar a sua vida.

Tenho ouvido pregadores dizerem: "Não, não! Você não entende, irmão Paul. Não somos como as pessoas nos dias de John e Charles Wesley. Não somos como a cultura para a qual pregaram Whitefield e Edwards. Não somos tão duros de coração como as pessoas daquela cultura. Somos contritos. Não temos muito auto-estima. Somos frágeis - não podemos suportar essa pregação". Ouçam-me: vocês já estudaram a vida desses homens? A cultura em que eles viveram também não podia suportar o que eles pregavam. Ninguém jamais foi capaz de suportar a pregação do evangelho. Ou as pessoas se voltarão contra o evangelho com a fúria de um animal, ou serão convertidas. Nosso mundo está tomado por esta moléstia chamada auto-estima. Nosso grande problema é que estimamos o "eu" mais do que estimamos a Deus.

Também somos ladrões quando não falamos muito sobre o pecado. Somos ladrões! Gostaria de perguntar: nesta manhã, para onde foram todas as estrelas? Algum gigante cósmico veio com uma cesta, pegou-as, colocou-as na cesta e levou-as para algum outro lugar? Para onde foram todas as estrelas nesta manhã? Elas estavam no mesmo lugar, mas não podíamos vê-las. No entanto, à medida que o céu ficou cada vez mais escuro e se tornou negro como o piche, as estrelas apareceram na plenitude de sua glória.

Quando nos recusamos a ensinar sobre a depravação total do homem, é impossível que glorifiquemos a Deus, a Cristo e cruz - porque a cruz de Jesus Cristo e a sua glória são mais exaltadas quando colocadas diante do pado de fundo de nossa depravação. "Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou" (Lc 7:47). Essa mulher sabia quanto lhe fora perdoado, porque sabia quão ímpia era.

Oh! temos medo de falar aos homens sobre a sua impiedade! Por causa disso, eles não podem conhecer o amor de Deus. Temos roubado dos homens a oportunidade de gloriarem-se não em si mesmos e de seguirem a admoestação: "Aquele [...] que se gloria, glorie-se no Senhor" (2Co 10:17).

(Paul Washer.  Dez acusações contra a igreja moderna, p. 27-32)