quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O desaparecimento de Lutero e o progresso da Reforma na Alemanha

Castelo de Wartburg onde Lutero traduziu a Bíblia

O desaparecimento misterioso de Lutero provocou consternação por toda a Alemanha. Circulavam rumores disparatados, e muitos criam que ele havia sido assassinado. Houve grande lamentação e muitos se comprometiam, sob juramento solene, a vingar sua morte.

Embora a princípio se sentissem felizes com a suposta morte de Lutero, seus inimigos encheram-se de temor agora que ele se tornara um cativo. “O único meio que resta para nos salvarmos”, disse um deles, “consiste em acender tochas e sair à procura de Lutero pelo mundo inteiro, a fim de reintegrá-lo à nação que está chamando por ele” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 1]. As notícias de que ele estava em segurança, embora prisioneiro, acalmaram o povo, ao passo que seus escritos eram lidos com maior sofreguidão do que nunca antes. Um número crescente de pessoas aderiu à causa do heróico homem que defendera a Palavra de Deus.

A semente que Lutero lançara germinou por toda parte. Sua ausência cumpriu uma obra que sua presença não teria conseguido realizar. Agora que seu grande chefe fora removido, outros obreiros avançavam a fim de que não fosse impedida a obra tão nobremente iniciada.

Satanás tentou agora enganar e destruir o povo apresentando-lhe uma contrafação em lugar da verdadeira obra. Assim como houve falsos cristos no primeiro século da igreja cristã, surgiram também falsos profetas no século décimo sexto.

Alguns poucos homens imaginaram haver recebido revelações especiais do Céu, pretendendo ter sido divinamente comissionados a levar avante a obra de Reforma, a qual, declaravam eles, fora apenas fracamente iniciada por Lutero. Na verdade, estavam desfazendo o próprio trabalho que ele realizara. Rejeitavam o princípio da Reforma — que a Palavra de Deus é a regra todo-suficiente de fé e prática. Eles substituíram esse guia infalível pelo padrão incerto de seus próprios sentimentos e impressões.

Outros, que eram naturalmente propensos ao fanatismo, se uniram a eles. A ação desses entusiastas criou grande confusão. A pregação de Lutero tinha levado o povo a sentir a necessidade de reforma, e agora algumas pessoas realmente sinceras foram transviadas pelas pretensões dos novos “profetas”.

Os líderes do movimento instaram com Melâncton para que aceitasse suas pretensões. “Nós somos enviados por Deus para instruir o povo. Temos mantido conversação familiar com o Senhor; sabemos o que acontecerá; em uma palavra, somos apóstolos e profetas, e apelamos para o Dr. Lutero.”

Os reformadores ficaram perplexos. Disse Melâncton: “Há efetivamente espírito extraordinário nestes homens; mas que espírito? [...] De um lado, acautelemo-nos de entristecer o Espírito de Deus, e de outro, de sermos desgarrados pelo espírito de Satanás” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 7].


O fruto dos novos ensinos torna-se evidente

O povo foi levado a negligenciar a Bíblia ou a lançá-la inteiramente de lado. Estudantes, repelindo toda restrição, abandonavam os estudos e retiravam-se da universidade. Os homens que se julgavam competentes para reanimar e controlar a obra da Reforma, conseguiram unicamente levá-la às bordas da ruína. Os romanistas recuperaram então sua confiança, e exclamaram exultantemente: “Mais uma luta, e tudo será nosso.”

Lutero, em Wartburgo, ouvindo o que ocorrera, disse com profundo pesar: “Sempre esperei que Satanás nos mandaria esta praga” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 7]. Percebeu o verdadeiro caráter destes pretensos “profetas”. A oposição do papa e do imperador não lhe causara tão grande angústia quanto agora. Dos professos “amigos” da Reforma haviam surgido seus piores inimigos, provocando contenda e criando confusão.

Lutero fora compelido à frente pelo Espírito de Deus, e levado além do que ele pessoalmente teria ido. Contudo, muitas vezes estremecia pelos resultados de seu trabalho. “Se eu soubesse que minha doutrina tivesse prejudicado um homem — um só homem — por humilde e obscuro que fosse — o que não pode ser, pois que é o próprio evangelho — eu preferiria morrer dez vezes a não retratar-me” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 7].

A própria cidade de Wittenberg estava caindo sob o poder do fanatismo e da anarquia. Por toda a Alemanha os inimigos de Lutero o estavam acusando. Em amargura de espírito ele perguntou: “Poderá, então, ser esse o fim desta grande obra de Reforma?” De novo, lutando com Deus em oração, seu coração se encheu de paz. “A obra não é minha, mas Tua”, disse ele. Tomou então a decisão de retornar a Wittenberg.

Achava-se sob a condenação do império. Os inimigos tinham a liberdade de tirar-lhe a vida, e aos amigos era vedado auxiliá-lo ou abrigá-lo. Via, porém, que a obra do evangelho estava em perigo, e em nome do Senhor saiu destemidamente para batalhar pela verdade. Numa carta ao eleitor, Lutero disse: “Estou indo a Wittenberg sob proteção muito maior que a de príncipes e eleitores. Não penso em solicitar o apoio de Vossa Alteza, e longe de desejar sua proteção, eu mesmo, antes, o protegerei. [...] Não há espada que possa favorecer esta causa. Deus, sozinho, deve fazer tudo.” Numa segunda carta, Lutero acrescentou: “Estou pronto para incorrer no desagrado de Vossa Alteza e na ira do mundo inteiro. Não são os habitantes de Wittenberg minhas ovelhas? Não deveria eu, em sendo necessário, expor-me à morte por sua causa?” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 8].


O poder da Palavra

Logo circulou por toda Wittenberg a notícia de que Lutero voltara e deveria pregar. A igreja transbordou. Com grande sabedoria e mansidão, ele instruiu e reprovou:

“A missa é coisa má; Deus Se opõe a ela; deve ser abolida. [...] Mas que ninguém seja dela arrancado pela força. [...] A Palavra de Deus [...] deve agir, e não nós. [...] Temos o direito de falar: não temos o direito de agir. Preguemos; o resto pertence a Deus. Se eu empregasse a força, o que haveria de lucrar? Deus Se apodera do coração; e quando o coração é tomado, tudo está ganho.
“Pregarei, discutirei, escreverei; mas não constrangerei a ninguém, pois a fé é ato voluntário. [...] Levantei-me contra o papa, seus partidários e as indulgências, mas sem violência ou tumulto. Apresentei a Palavra de Deus; preguei e escrevi — isso é tudo que fiz. Contudo, enquanto eu dormia [...] a palavra que eu preguei subverteu o papado, de maneira tal que nunca um imperador ou príncipe lhe aplicou semelhante golpe. E, entretanto, nada fiz; sozinha, a Palavra fez tudo” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 8]. A Palavra de Deus quebrou o encanto da provocação fanática. O evangelho trouxe de novo para o caminho da verdade o povo transviado.

Alguns anos mais tarde o fanatismo irrompeu com resultados ainda mais terríveis. Disse Lutero: “Para eles as Escrituras Sagradas não eram senão letra morta, e todos começaram a clamar: ‘O Espírito! O Espírito!’ Mas com certeza não seguirei para onde o seu espírito os conduz” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 10, cap. 10].

Thomas Münzer, o mais ativo dos fanáticos, era homem de considerável habilidade, mas não aprendera a verdadeira religião: “Tinha o desejo de reformar o mundo, e esquecia-se, como o fazem todos os entusiastas, de que a reforma deveria começar consigo mesmo” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 8]. Não estava disposto a ficar em segundo lugar, nem mesmo em relação a Lutero. Ele próprio pretendia haver sido divinamente incumbido de introduzir a verdadeira reforma: “Aquele que possui este espírito, possui a verdadeira fé, ainda que em sua vida nunca houvesse visto as Escrituras” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 10, cap. 10].

Os ensinadores fanáticos se deixaram levar por sentimentos, considerando todo pensamento e impulso como sendo a voz de Deus. Alguns até mesmo queimavam suas Bíblias. As doutrinas de Münzer foram recebidas com entusiasmo por milhares. Logo ele declarava que obedecer aos príncipes era tentar servir simultaneamente a Deus e a Belial.

Os ensinos revolucionários de Münzer levaram o povo a romper com todo domínio. Seguiram-se terríveis cenas de contenda, e os campos da Alemanha se encharcaram de sangue.


Agonia oprime Lutero

Os príncipes romanistas declararam que aquela rebelião era fruto das doutrinas de Lutero. Tal acusação só poderia causar grande angústia ao reformador, e isto porque a causa da verdade estava sendo classificada com o mais desprezível fanatismo. Por outro lado, os chefes da revolta odiavam Lutero. Este não apenas se opusera às pretensões de divina inspiração que aqueles reclamavam, como ainda os declarara rebeldes à autoridade civil. Em represália, denunciaram-no como um vil pretensioso.

Os romanistas esperavam testemunhar a queda da Reforma. Culpavam Lutero até mesmo dos erros que ele tão zelosamente se esforçou por corrigir. A facção fanática, pretendendo falsamente haver sido tratada com injustiça, conseguiu ganhar simpatias, vindo seus membros a ser vistos como mártires. Assim, aqueles que se encontravam em oposição à Reforma eram vistos com piedade e elogiados. Essa obra pertencia ao mesmo espírito de rebelião que se manifestou primeiramente no Céu.

Satanás está constantemente procurando enganar os homens e levá-los a chamar ao pecado justiça, e à justiça, pecado. Santidade falsificada, santificação espúria, são ainda hoje manifestações do mesmo espírito que as produziu nos dias de Lutero, desviando a mente das Escrituras e conduzindo os homens a seguir sentimentos e impressões em lugar da lei de Deus.

Destemidamente, Lutero defendeu o evangelho dos ataques. Com a Palavra de Deus, guerreou outra vez contra a usurpadora autoridade do papa, ao mesmo tempo que se mantinha firme como uma rocha contra o fanatismo que pretendia estar aliado à Reforma.

Cada um desses elementos oponentes estava pondo de parte as Sagradas Escrituras, exaltando a sabedoria humana como a fonte de verdade. O racionalismo deifica a razão e dela faz o critério para a religião. O romanismo, pretendendo uma inspiração que descende ininterruptamente dos apóstolos, oferece oportunidade para a extravagância e corrupção se ocultarem sob a comissão “apostólica”. A inspiração pretendida por Münzer procedia das divagações da imaginação. O verdadeiro cristianismo recebe a Palavra de Deus como a prova de toda inspiração.

De volta de Wartburgo, Lutero completou sua tradução do Novo Testamento, que logo depois foi entregue ao povo da Alemanha em sua própria língua. Essa tradução foi recebida com grande alegria por todos os que amavam a verdade.

Os padres estavam alarmados com a idéia de que o povo comum seria agora capaz de discutir com eles a respeito da Palavra de Deus, e de que sua própria ignorância seria assim exposta. Roma convocou toda a sua autoridade para impedir a disseminação das Escrituras. Contudo, quanto mais ela proibia a Bíblia, maior era a ansiedade do povo por saber o que a mesma realmente ensinava. Todos os que sabiam ler estavam ávidos por estudar por si mesmos e não podiam satisfazer-se antes que confiassem à memória grandes porções da Palavra. Lutero iniciou imediatamente a tradução do Antigo Testamento.

Os escritos de Lutero foram bem recebidos, tanto nas cidades quanto nas aldeias. “O que Lutero e seus amigos compunham, outros faziam circular. Monges, convictos das obrigações ilícitas dos mosteiros, mas demasiado ignorantes para proclamar a Palavra de Deus, [...] vendiam os livros de Lutero e de seus amigos. Logo se espalharam pela Alemanha esses ousados colportores” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 11].


A Bíblia é estudada por toda parte

À noite os professores das escolas das aldeias liam em voz alta aos pequenos grupos reunidos à sua volta. Com cada esforço, algumas pessoas eram convencidas da verdade. “A revelação das Tuas palavras esclarece, e dá entendimento aos simples” (Salmos 119:130).

Os romanistas, que haviam deixado o estudo das Escrituras aos padres e monges, chamavam por eles agora, para que refutassem os novos ensinos. Mas, ignorantes acerca das Escrituras, sacerdotes e frades eram totalmente derrotados. “Infelizmente”, escreveu um autor católico, “Lutero persuadiu seus seguidores a não depositar fé em qualquer outro oráculo além das Escrituras Sagradas” [J. H. Merle D’Aubigné. History of the Reformation of the Sixteenth Century, livro 9, cap. 11]. 

Multidões se reuniam para ouvir a verdade advogada por homens de pouca instrução. A vergonhosa ignorância dos grandes homens tornava-se evidente à medida que seus argumentos eram defrontados pelos singelos ensinos da Palavra de Deus. Operários, soldados, mulheres e mesmo crianças, estavam mais familiarizados com os ensinos da Bíblia do que os padres e ilustres doutores.

Jovens de espírito lúcido dedicavam-se ao estudo, investigando as Escrituras e familiarizando-se com as obras-primas da Antiguidade. Possuindo mentes ativas e corações intrépidos, esses jovens logo adquiriram tal saber que durante longo período de tempo ninguém podia competir com eles. [...] O povo encontrara nos novos ensinos aquilo que lhes supria as necessidades espirituais, e afastou-se daqueles que por tanto tempo o tinham alimentado com inúteis bolotas de ritos supersticiosos e tradições humanas.

Quando se acendeu a perseguição contra os ensinadores da verdade, deram atenção às palavras de Cristo: “Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra” (Mateus 10:23). Os fugitivos encontraram portas abertas em outros lugares, e ali pregaram a Cristo, algumas vezes na igreja, ou nas casas particulares, ou ao ar livre. A verdade propagava-se com irresistível poder.

Em vão as autoridades eclesiásticas e civis recorriam à prisão, tortura, fogo e espada. Milhares de crentes selaram a fé com seu sangue, e não obstante a perseguição serviu apenas para propagar a verdade. O fanatismo que Satanás se esforçou por confundir com esta, teve como resultado tornar mais claro o contraste entre a obra de Satanás e a de Deus.

(Ellen G. White. O Grande Conflito, p. 85-89)