sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A aliança de Deus com a humanidade

INTRODUÇÃO

"Na Bíblia a palavra grega que sempre se usa para aliança é diatheke. Como veremos existe uma razão especial para a escolha desta palavra inusitada. Comumente uma aliança é um acordo entre duas pessoas. O acordo depende de condições que ambas as partes aceitam: se alguém romper as condições da aliança, a própria aliança fica anulada" (William Barclay. Comentário do Novo Testamento, p. 96).
A palavra aliança é comum no meio evangélico e também aparece em algumas traduções da Bíblia como concerto. Hoje, vivemos no período de uma aliança que Deus fez com a humanidade, sendo assim, é importante que sejamos conhecedores do que as Escrituras dizem à respeito.

O profeta Jeremias viveu no período dos reis Josias, Jeoaquim e Zedequias em Judá. Ele foi chamado ao ministério profético no ano de 622 a.C. (décimo terceiro ano de Josias conforme Jr 1:2) e exerceu o seu ministério como servo do SENHOR até 580 a.C. Por diversas vezes ele anunciou, enviado pelo SENHOR, mensagens de arrependimento e confissão dos pecados da nação afim de que evitassem que os cuidados de Deus se retirassem de Jerusalém, mas sem êxito, pois o povo O havia abandonado. Após anunciar a queda e destruição de Sião, o SENHOR começou a falar com o povo através do Seu profeta sobre a restauração de Israel e no contexto onde Deus promete trazer do cativeiro o Seu povo, encontramos uma promessa maravilhosa:

"Eis que  dias vem, diz o SENHOR, em que farei um concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá" (Jr  31:31)

Sabe por que esta promessa é linda? Se você se atentou bem ao contexto em que estas palavras foram proferidas, então você entendeu. Vou te contar como eu vejo esta promessa. Este ano eu fiquei desempregado (e ainda estou) desde fevereiro. Do meu último emprego não recebi as verbas rescisórias devidas (tinha duas férias vencidas, para se ter ideia) e nunca fiquei tanto tempo sem emprego, principalmente depois que aceitei a Jesus como Senhor e Salvador (e olha que não foi por falta de entrevistas, já fiz várias). Mas o SENHOR proveu o mantimento, a paz, a plenitude do Espírito Santo e o pão de cada dia a minha família, nem sequer perdi meu carro que é financiado, pois Cristo proporcionou tudo a seu tempo certo. 

Pois bem, o assunto deste post não é o meu drama pessoal, apesar de que testemunhar das bençãos do SENHOR é nossa obrigação enquanto cristãos. Fiquei imaginando Deus falando comigo em janeiro (um mês antes de ficar desempregado) e dizendo: "Filho, você passará por tempos difíceis este ano, mas confie em Mim, pois estarei contigo". Como ser humano falho que sou, não vou esconder de você, caro(a) irmão(ã), que no início percebi que minha fé não era tão forte como imaginei, estremeci, questionei. Todavia, descobri que o SENHOR não nos abandona e verdadeiramente "quando sou fraco, então, é que sou forte" (2Co 12:10). 

Pense comigo, se Deus realmente me dissesse que eu ficaria sem emprego antes de ficar sem emprego, isso não me daria mais confiança para permanecer inabalável em minha fé? Creio que sim! Foi justamente isso que o SENHOR pretendia dizendo o que disse através de Jeremias. Jerusalém seria destruída por Nabucodonosor, rei de Babilônia, o templo de Salomão com toda sua imponência seria destruído, os muros da cidade seriam derrubados, estava tudo perdido! YHWH, nosso Deus amoroso, então entra em cena e diz que fará um novo concerto com Seu povo. Maravilha!



I. O QUE É O CONCERTO DE DEUS?

Leia atentamente este comentário maravilhoso que extrai da nota de rodapé da minha Bíblia sobre o verso em questão (Jr 31:31-34):

"Esta é uma das mais importantes passagens do Antigo Testamento. Aqui estão vários detalhes a respeito deste novo concerto: 
(1) É um concerto com toda a nação reunida de Israel, não a igreja, que é 'enxertada' no concerto prometido de Israel (Rm 11:16-27);
(2) A realização dele para a nação de Israel está reservada para os "últimos dias" (Jr 31:27, 31, 38; 32:42; 33:14; Ez 37:26; Hb 8:8);
(3) Ele baseia-se na expiação plena e eterna, assegurada pela morte de Cristo (Jr 31:34b; Mt 26:26-27; 1Co 11:25; Hb 9:15), pela qual os pecados não somente são perdoados, como Deus não mais se lembra deles (Jr 31:34b);
(4) Ele baseia-se no conhecimento individual e pessoal do SENHOR e de Sua lei (Jr 31:33-34), que somente pode ser adquirido pela morada do Espírito Santo no indivíduo (Ez 36:26-27; 37:14);
(5) Será um concerto de paz eterno, administrado pelo Líder que virá do Senhor, o Filho de Davi, o Príncipe da Paz (Is 9:6; 55:3; Ez 34:23-25; 37:24-26). 
(Bíblia de Estudo Palavras-Chave: Hebraico-Grego. Casa Publicadora Assembléia de Deus, 2011, p.  810-811)

Há um outro verso, escrito também por Jeremias, que esclarece o que é o concerto de Deus, vejamos:

"Mas este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: porei a Minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e Eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo" (Jr 31:33).

Se você é um crente antinomiano (aquele que rejeita a lei de Deus ensinando que Jesus a aboliu mesmo Jesus tendo dito que não a aboliu - Mt 5:17-19), você deve estar pensando assim: "Ah, já sei aonde você quer chegar!" E você talvez tenha seus próprios argumentos e talvez diga que neste verso está claro que se tratava de uma aliança com a nação de Israel, algo específico para o Antigo Testamento. Bom, primeiramente quero dizer que não sou eu  que quero chegar a lugar algum (só ao céu, é claro), é a Bíblia que os leva a mesma conclusão. Agora, o argumento sobre a nação de Israel até seria válido se Paulo no livro de Hebreus não estivesse escrito (agora no Novo Testamento):

"Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o SENHOR: porei as Minhas leis no seu entendimento e em seu coração as inscreverei; e Eu lhes serei por Deus, e eles Me serão por povo" (Hb 8:10).

Até aqui, está claro para mim que muitos dos protestantes que falam tanto a respeito da aliança de Deus, desconhecem os termos desta aliança. Na verdade, vivem e ensinam uma aliança que Deus nunca fez e permitiu (a rejeição dos dez mandamentos eternos, princípios de uma vida melhor). Ao povo de Deus que faz parte das igrejas que ensinam só uma parte da lei, uma parte do evangelho, uma parte do batismo do Espírito Santo, Deus dá a ordem: "Sai dela, povo Meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas" (Ap 18:4).

Há quem ensine o absurdo de que na aliança do Antigo Testamento a salvação era pela lei, enquanto que no Novo Testamento é pela graça. Quem faz tal afirmação só pode nunca ter lido a Bíblia inteira! A salvação sempre foi pela graça e nunca foi pela lei: "não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2:9). Como vimos acima, nossa parte na aliança de Deus conosco é vivermos para Sua glória e sermos obedientes aos mandamentos eternos, não de forma fria, mas escrita em nosso coração e isso só é possível quando recebermos a plenitude do Espírito Santo.

William Barclay, em seu comentário do Novo Testamento, nos esclarece mais a respeito da aliança do SENHOR:
"No Novo Testamento a palavra [diatheke] também se usa para descrever as relações entre Deus e o homem. Mas há um ponto estranho que requer explicação. A palavra grega para acordo no uso normal é syntheke. Syntheke é o termo para uma aliança matrimonial; para o acordo entre dois estados. Sempre no grego ordinário toda classe de compromisso ou acordo ou aliança é sempre uma syntheke. Além disso, normalmente, em grego diatheke significa não acordo, mas sim testamento.
Por que usaria o Novo Testamento esta palavra inusitada para aliança? A razão é a seguinte: syntheke descreve sempre um acordo em termos de igualdade. As partes que intervêm na syntheke estão no mesmo nível e podem negociar em igualdade de condições. Mas Deus e o homem não se encontram em igualdade de condições. No sentido bíblico de aliança toda aproximação e oferecimento procedem de Deus: é Deus aquele que vem ao homem, oferece-lhe uma relação consigo, e estabelece os termos nos quais a relação se fará efetiva. O homem não pode negociar com Deus, não pode discutir os termos e as condições da aliança. Só pode aceitar ou rechaçar o oferecimento que Deus lhe faz mas de maneira nenhuma pode alterá-lo ou mudar seus termos.
Agora, o exemplo supremo de tal acordo é de fato um testamento. As condições do testamento não se dão pela igualdade dos que participam mas sim só por uma pessoa: o testador; a outra parte não pode alterá-las como não poderia tê-las estabelecido. O testamento é feito por uma só pessoa, e a outra parte só pode aceitar ou rechaçar a herança como lhe é oferecida. Esta é a razão pela qual nossa relação com Deus se descreve como diatheke, como uma aliança entre partes, das quais só uma é a responsável. Nossa relação com Deus é-nos oferecida só por iniciativa e graça de Deus. Como dizia Filo: "A Deus corresponde dar e ao homem sábio receber." Quando usamos a palavra aliança e pensamos em termos de contrato lembremos sempre que não pode significar um negócio do homem com Deus em paridade de condições. Significa sempre que toda a iniciativa é de Deus; os termos são postos por Deus e o homem não pode no mais mínimo alterá-los."


II. QUANTOS CONCERTOS DE DEUS EXISTEM?


Deus já fez aliança com Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e Davi, mas com um povo, claramente percebemos Deus fazendo duas alianças: No Sinai e em Cristo. Devemos compreender que a iniciativa de fazer uma aliança ou concerto sempre partiu de Deus. Desde a queda de Adão e Eva no Éden é o SENHOR que busca o ser humano, tentando novamente ter a cada um de nós embaixo de Seus paternos cuidados.

No Sinai, a antiga aliança de Deus foi ratificada com a lei escrita em tábuas de pedra. Na nova aliança, do sangue expiatório de Jesus, a lei é escrita em nosso coração. Por isso Paulo disse: "estando [nós, os membros da nova aliança em Jesus] já manifestos como carta de Cristo, [...] escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações" (2Co 3:3).



ALIANÇA NO SINAI - ANTIGA ALIANÇA
"E Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR, e levantou-se pela manhã de madrugada, e edificou um altar ao pé do monte e doze monumentos, segundo as doze tribos de Israel; e enviou certos jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram holocaustos e sacrificaram ao SENHOR sacrifícios pacíficos de bezerros. E Moisés tomou a metade do sangue e a pôs em bacias; e a outra metade do sangue espargiu sobre o altar. E tomou o livro do concerto e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o SENHOR tem falado faremos e obedeceremos. Então, tomou Moisés aquele sangue, e o espargiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue do concerto que o SENHOR tem feito convosco sobre todas estas palavras" (Êx 24:4-8).

A aliança no Sinai foi ratificada com a lei e sacramentada com o sangue de holocaustos. Para que um concerto fosse firmando era necessário um pacto de sangue, onde o sangue não era de um ser humano, mas de algo que Deus havia estabelecido.



ALIANÇA NO CALVÁRIO - NOVA ALIANÇA
"E, por isso, [Jesus] é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna. Porque, onde há testamento, necessário é que intervenha a morte do testador. Porque um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive? Pelo que também o primeiro não foi consagrado sem sangue; porque, havendo Moisés anunciado a todo o povo todos os mandamentos segundo a lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã purpúrea e hissopo, e aspergiu tanto o mesmo livro como todo o povo, dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus vos tem mandado. [...] E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus" (Hb 9:15-24).

Na Nova Aliança a lei de Deus continua em vigor, pois ela é eterna, mas uma outra lei teve fim quando Jesus morreu na cruz: a lei das cerimonias e sacrifícios. Isso é muito claro! Os sacrifícios eram figuras e símbolos de Cristo que havia confirmar um concerto novo. Por isso Paulo disse que Jesus "aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças" (Ef 2:15), aqui está nítido que não se trata dos dez mandamentos, mas na lei de tratava especificamente de como os sacrifícios de animais deveriam ser realizados. Agora não havia mais necessidade disso, Jesus morreu em nosso lugar, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Por isso o véu do templo se rasgou (Mt 27:51), demonstrando o fim de todo um sistema que serviu de figura e símbolo para nos ensinar sobre o plano da salvação durante a antiga aliança.


CONCLUSÃO

A escritora cristã Ellen G. White, comenta: "A um povo em cujo coração Sua lei está escrita, é assegurado o favor de Deus. São um com Deus" (O Desejado de Todas as Nações, p. 64).


"Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guiarei, e te darei por concerto do povo e para luz dos gentios" (Is 42:6).

Neste texto, o profeta Isaías está se referindo ao Messias. Jesus é a nossa aliança. É o sangue dEle que nos purifica do mal, nos liberta do cativeiro do pecado, nos conduz a uma nova vida e nos firma na nova aliança. Na ceia, Ele disse: "porque isto é o Meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados" (Mt 26:28). Assim se cumpriu as palavras de Jeremias 31:33.

Jesus é a sua aliança com Deus? Você confirma a aliança que o Criador do Universo fez contigo, vivendo para Sua glória todos os dias de sua vida? Oh! como temos sido piores e mais rebeldes do que o povo da nação israelita. Temos tanta luz e o SENHOR é desejoso de derramar sobre o Seu Santo Espírito afim de nos conceder plenitude, poder e vitória na vida cristã e nós continuamos a viver uma vida de fé medíocre. Que Deus tenha misericórdia da minha e da sua vida e que, ao compreender isso, nosso coração e mente se converta ao SENHOR e O busque enquanto podemos achá-Lo.

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P.S.: Hoje é dia 14 de outubro de 2012, um domingo, e se passaram exatos 44 dias desde que este artigo foi postado por mim. Confesso que fiquei pensando muito sobre a aliança de Deus, isso antes, durante e após ter escrito este artigo. Fiquei pensando tanto que cheguei à conclusões adicionais e isso me motivou a voltar aqui e acrescentar novos detalhes que acredito ter sido iluminado pelo Espírito Santo, pois é Ele quem nos guia na verdade.

Eu posso afirmar biblicamente, sem problema algum, que a aliança de Deus é ratificada (confirmada) com a Sua lei sendo selada em nós:
"Resguarda o testemunho, sela a lei no coração dos Meus discípulos" (Isaías 8:16)
Todavia, ao dizer que a aliança no Antigo Testamento estava escrita em tábuas de pedra e, na aliança do Novo Testamento, a lei estava escrita nos corações, estou cometendo injustiça contra Deus e Sua Palavra, pois não é isso que diz as Escrituras. É isso que quero compartilhar com vocês. Sempre, entenda a ênfase, SEMPRE foi do propósito do SENHOR que a Sua lei fosse escrita nos corações. As tábuas dos dez mandamentos eram apenas um símbolo de algo que deveria estar em nós. Moisés subiu ao monte Sinai para receber as tábuas da lei que Deus escreveu com o Seu próprio dedo, quando desceu o povo estava adorando um bezerro de ouro com festa, musica e até orgias sexuais em público, naquele momento Moisés quebra as duas tábuas (que foram reescritas por Deus, posteriormente). Mas perceba, a aliança com Deus não foi quebrada porque Moisés quebrou as tábuas, e sim porque o povo, em seu coração, havia quebrado a aliança.

O profeta Isaías foi claro ao transmitir a mensagem de Deus: "sela a lei no coração dos Meus discípulos". Não pode ser em outro lugar a não ser no coração. Se a lei de Deus não estiver gravada em nossos corações (e quem faz isso é o Espírito Santo através do Seu batismo) seremos tão legalistas quanto foram os judeus da época de Jesus e Paulo.

Ao compararmos Jeremias 31:33 (Antigo Testamento) com Hebreus 8:10 (Novo Testamento) perceberemos que o propósito de Deus sempre foi escrever a Sua lei em nosso coração e isso não mudou com a morte expiatória de Jesus, pois a lei não justifica ninguém, nunca justificou e nunca justificará. Desde o Antigo Testamento, era a fé em Deus, a fé no que o sacrifício da lei cerimonial representava que permitia o pecador receber a graça de Deus e o Seu perdão. Deus não muda! "Porque eu, o SENHOR, não mudo" (Ml 3:6). Que maravilha saber isso. O mesmo Deus que abriu o mar vermelho, que libertou o povo do Egito com braço forte e mão estendida, é o Deus que enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para nos libertar do pecado e salvar da ira vindoura. Só através da graça de Cristo e da unção do Espírito Santo podemos receber o sinal da aliança de Deus, os dez mandamentos, escritos em nosso coração e vivermos em obediência como Jesus viveu. Oro ao SENHOR para que Ele continue se santificando na verdade da Tua Palavra. Amém!