domingo, 29 de março de 2015

Bíblia: Um Autor, vários escritores

"E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras." (Lucas 24:27)

As verdades da Bíblia são como pérolas ocultas. Devem ser buscadas, desenterradas mediante penosos esforços. Os que apanham apenas uma apressada visão das Escrituras hão de, com seu conhecimento superficial que eles julgam muito profundo, falar nas contradições da Bíblia, e pôr em dúvida a autoridade das Escrituras. Aqueles, porém, cujo coração se acha em harmonia com a verdade e o dever, pesquisarão as Escrituras com o coração preparado para receber impressões divinas. A alma iluminada vê unidade espiritual, um grande fio de ouro através do todo, mas requer paciência, reflexão e oração o rastrear o áureo fio precioso. Contendas amargas a respeito da Bíblia levaram a pesquisas e revelaram as preciosas jóias da verdade. Muitas lágrimas foram vertidas, muitas orações feitas para que o Senhor abrisse o entendimento para Sua Palavra.

A Bíblia não nos é dada em elevada linguagem sobre-humana. A fim de chegar aos homens onde eles se encontram, Jesus revestiu-Se da humanidade. A Bíblia precisa ser dada na linguagem dos homens. Tudo quanto é humano é imperfeito. Significações diversas são expressas pela mesma palavra; não há uma palavra para cada ideia distinta. A Bíblia foi dada para fins práticos.

Diferentes são os cunhos mentais. As expressões e declarações não são compreendidas da mesma maneira por todos. Alguns entendem as declarações das Escrituras segundo sua mente e casos especiais. As prevenções, os preconceitos e as paixões têm forte influência para obscurecer o entendimento e confundir a mente mesmo ao ler as palavras da Santa Escritura.

Os discípulos de caminho para Emaús, necessitaram ser desembaraçados de sua interpretação das Escrituras. Jesus caminhou com eles disfarçado, e como homem falou com eles. Começando por Moisés e os profetas, ensinou-lhes todas as coisas referentes a Ele próprio, que Sua vida, Sua missão, Seus sofrimentos e Sua morte estavam justo em harmonia com o que a Palavra de Deus predissera. Abriu-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras. Quão pronto estendeu Ele sem rodeios as emaranhadas extremidades e mostrou a unidade e a divina verdade das Escrituras! Quantos homens em nossos tempos necessitam de que seu entendimento seja aberto!

A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. Os homens dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena. Olhai os diversos escritores.

Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.

Ellen G. White. Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 20-21

domingo, 15 de março de 2015

Mateus 19:16-17 ensina que somos salvos através da obediência aos mandamentos de Deus?

"E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentosE ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades." (Mateus 19:16-22)

A pergunta "que farei eu de bom?" reflete o típico conceito farisaico de justiça pelas obras como passaporte para a vida eterna. O jovem rico tinha cumprido conscienciosamente todos os requisitos da lei, pelo menos de maneira formal, e também todos aqueles impostos  pelos rabinos, mas estava consciente de que algo faltava em sua vida. Ele admirava Jesus e pensava seriamente em se tornar um de Seus discípulos.

A maneira pela qual o jovem se dirigiu a Jesus era bastante incomum. Basta observar a maneira que Nicodemos se dirigiu a Cristo (João 3:2). Não parece haver nenhum registro na literatura rabínica em que os rabinos tenham sido tratados como "bons". Em contraste, na Mishnah, o próprio Deus é mencionado como "o que é bom e concede o bem" (Berakoth, 9.2, ed. Soncino, Talmude, p. 327). 

A situação do jovem na vida e seu ofício de confiança do público indicam que ele não chamou Jesus de "bom Mestre" por ignorância ou descuido. Era óbvio que ele tinha um motivo para fazê-lo, e Jesus tentou extrair dele uma declaração pública desse motivo. A explicação de Jesus: "Bom, só existe um" procurava ajudar o jovem a perceber claramente a importância de sua saudação. Jesus reconheceu a sinceridade e o discernimento do rapaz e pensou em fortalecer sua fé, recebendo dele uma declaração ainda mais clara.

A suprema bondade é uma característica de Deus, unicamente (Êxodo 34:6; Salmos 23:6, Romanos 2:4). Jesus não repudiou Sua divindade, como poderia parecer à primeira vista, mas, sim, esclareceu e enfatizou o significado completo da declaração do moço.

Quando Jesus disse "entrar na vida" estava claramente se referindo a "entrar no reino dos Céus" (Mateus 5:20). Tendo em vista o fato de que Jesus inclui tanto esta vida como a vida por vir em suas observações sobre as recompensas do discipulado (Mateus 19:29; Marcos 10:30; Lucas 18:30), pode ser apropriado concluir que tanto o reino da graça como o reino da glória estão incluídos aqui.

A palavra traduzida por "mandamentos" (verso 17), no grego é entolai e significa literalmente "preceitos", "ordens" ou "mandamentos". Os entolai são os requisitos específicos, individuais ou mandamentos, impostos aos homens, pela "lei" (do grego, nomos). É da vontade de Deus que as pessoas reflitam Seu caráter, o que pode ser resumido em uma palavra: "amor" (1 João 4:7-12). Para refletir o caráter, ou o "amor" de Deus, devemos amá-Lo supremamente e ao nosso próximo como a nós mesmos. Se perguntamos como devemos expressar nosso amor para com Deus e os semelhantes, Deus nos dá a resposta nos dez mandamentos (Êxodo 20:3-17), que Cristo explicou e exaltou (Isaías 40:21) no Sermão do Monte (Mateus 5:17-48).

Todas as leis civis de Moisés no Antigo Testamento, e a instruções de Cristo e dos apóstolos no Novo Testamento esclarecem as exigências divinas estabelecidas nos dez mandamentos e as aplicam aos problemas práticos da vida diária. O jovem professava amar a Deus, mas o verdadeiro teste desse amor, disse Jesus, seria encontrado em seu trato com os semelhantes (1 João 4:20). "Se Me amais", diz Jesus, "guardareis os Meus mandamentos" (João 14:15).

"Quais", foi a pergunta do jovem rico. Em resposta a essa pergunta, Jesus citou especificamente vários dos dez mandamentos, tratando dos relacionamentos com o semelhante. Sem dúvida, aos olhos dos homens, o jovem rico era honesto, mas aos olhos de Deus, que lê o coração, ele não tinha de fato em mente os interesses de seus semelhantes.

O mandamento mencionado por Jesus "amarás o teu próximo como a ti mesmo" não faz parte do decálogo, mas resume todos os mandamentos que Jesus havia acabado de mencionar. Embora o jovem ainda não percebesse, esses preceitos de conduta iam ao cerne de seu problema. Ele não amava tanto os outros quanto a si mesmo. No entanto, ele sentia que tinha praticado "tudo isso". Ele tinha observado a letra da lei, mas não o seu espírito, e considerava que vivia em harmonia com seus princípios. Jesus tentou abrir os olhos do rapaz para o fato de que os princípios da lei devem ser aplicados conscienciosamente a todas as relações práticas da vida. 

Fica evidente pelas palavras do jovem rico que ele não estava consciente de qualquer imperfeição de sua parte com relação à obediência aos mandamentos de Deus. Quando o jovem rico pergunta "Que me falta ainda?", percebe-se nele excesso de confiança de que havia apenas um passo entre ele e a perfeição. Mas, embora tivesse obedecido diligentemente a letra da lei, ele ainda sentia que isso não era o suficiente. Ele sentia que faltava algo, mas ele sinceramente não sabia o que era. Sua vida tinha sido de pureza, honestidade e veracidade. Mas sua atitude para com os semelhantes tinha sido essencialmente negativa: ele não havia roubado seus bens, não tinha dado falso testemunho contra eles, não tinha tirado sua esposa ou sua vida. 

É verdade que a letra da lei é negativa na forma, mas seu espírito pede ação positiva. Não é suficiente evitar nutrir ódio ou ferir nossos semelhantes: o evangelho nos convida a amá-los e ajudá-los como amamos a nós mesmos. Esse jovem não tinha o amor de Deus no coração, sem o qual a observância de todas essas coisas não tinham nenhum valor real aos olhos de Deus.

Quando Jesus disse: "Se queres ser perfeito" estava reconhecendo que o jovem realmente era sincero e sabia o que estava envolvido na pergunta: "Que me falta ainda?". A perfeição tinha sido o ideal do moço. Mas, como Paulo salienta, a perfeição não pode ser alcançada  pelas obras (Gálatas 2:21; Hebreus 7:11). Se, portanto, o jovem queria atingir a perfeição, ele não devia esperar obtê-la pela realização de obras meritórias. Ele devia passar por uma completa mudança de coração e vida. Sua mente devia ser transformada, seus objetivos, mudados.

No caráter do jovem rico que parecia amável aos olhos dos homens, Deus enxergava o egoísmo. A menos que a influência maligna do egoísmo fosse removida, o jovem rico não poderia alcançar nenhum progresso rumo à perfeição. A doença pode variar de pessoa a pessoa, e o remédio pode, portanto, variar também. Quando Pedro, André, Tiago e João foram chamados para seguir o Mestre, Ele não lhes pediu que vendessem seus barcos e equipamentos de pesca, pelo motivo de que essas coisas não eram um obstáculo que eles O seguissem. No entanto, quando chamados, "deixaram tudo" a fim de poderem seguir o Mestre (Lucas 5:11).

Aquilo que a pessoa ama mais do que a Cristo torna-a indigna de Cristo. Até mesmo as mais importantes responsabilidades terrenas estão em segundo lugar na tarefa de seguir a Cristo no caminho do discipulado (Lucas 9:61-62). Paulo considerou tudo como "perda", a fim de "ganhar a Cristo" (Filipenses 3:7-10). Para garantir a posse do tesouro celestial ou para comprar a pérola de grande valor (Mateus 13:44-46), a pessoa deve estar pronta para vender "tudo o que tem". Mas isso, o jovem rico não estava disposto a fazer. Diante dele estava sua cruz, mas ele se recusou a levá-la.

Jesus disse: "vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no Céu". Aqui o Mestre apresentou ao rapaz a escolha entre o tesouro terrestre e o celestial. Mas o jovem  queria os dois e, quando descobriu que não poderia ter os dois, "retirou-se triste". A dolorosa descoberta de que não poderia servir a Deus e a Mamom (Mateus 6:24) foi demais para ele. 

Literalmente, pesaroso ou ofendido o jovem rico se retirou da presença do Salvador. Seu desapontamento foi grande quando percebeu o sacrifício exigido. A ansiosa alegria com a qual ele havia corrido até Jesus se transformou em tristeza e escuridão. O preço da "vida eterna" que o jovem tinha ido buscar, era maior do que ele estava disposto a pagar.

As posses do jovem rico constituíam a coisa mais importante em sua vida. Eram seu ídolo e, nesse relicário, ele escolheu depositar a adoração e a devoção de seu coração. Foi para libertá-lo das garras do deus da riqueza que Jesus propôs que ele vendesse tudo o que tinha. Essa era a única esperança de alcançar o Céu. Ele tinha grandes posses, mas, sem sabedoria celestial para administrá-las corretamente, ele descobriria que eram mais uma maldição do que uma benção. Posteriormente, ele perderia até mesmo o que tinha (Mateus 25:28-30).

(Texto ligeiramente modificado do Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 5, p. 483-487)


Ellen G. White, escritora cristã e um dos fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia esclarece que:
"Nossa aceitação por Deus só é segura por meio de Seu Filho amado, e as boas obras são apenas o resultado da atuação de Seu amor que perdoa o pecado. Não constituem um crédito para nós, e nada nos é atribuído por nossas boas obras que possamos usar para reivindicar uma parte na salvação de nossa alma. A salvação é o dom gratuito de Deus para o crente, que lhe é concedido unicamente por amor a Cristo. A alma perturbada pode encontrar paz pela fé em Cristo, e sua paz será proporcional a sua fé e confiança. Não pode apresentar suas boas obras como argumento para a salvação de sua alma." (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 199)